Geral

Epidemias podem ter evitado entrada do tipo 4 da dengue

Clarissa Thomé
| Tempo de leitura: 4 min

Em março de 1986, Rita Nogueira, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, fez um curso sobre como identificar o vírus da dengue em Caracas, na Venezuela. Vinte dias depois, de volta ao laboratório, deparou-se com nove amostras de sangue de pacientes de Nova Iguaçu, todas positivas. Era a reentrada do vírus tipo 1 no Brasil e o início da primeira grande epidemia nacional.

De lá para cá, ela foi a responsável por identificar os vírus 2 e 3, quando chegaram ao País. E, no mês passado, a equipe que coordena descobriu o tipo 4 em duas irmãs de Niterói - os primeiros casos do Sudeste. Nesta entrevista, a pesquisadora, que coordena o Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), fala sobre como as manifestações da doença mudaram ao longo de 25 anos.

Curiosamente, ela nunca teve a doença. "Faço a minha parte. Em epidemia, só ando de meia, calça comprida e uso repelente", ensina a médica.

Em Bauru, a população enfrenta epidemia da doença. Até a última sexta-feira a secretaria Municipal de Saúde havia confirmado 1.203 casos de dengue somente neste ano, sendo 1.200 autóctones (contraídos no próprio município) e três importados. No ano passado inteiro foram registrados 648 casos na cidade.

A megaoperação desencadeada em março com o objetivo de destruir criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença, está sendo realizada primeiramente nos bairros onde foram confirmados os maiores números de casos. Desde o início da operação foram recolhidas 77,93 toneladas de material inservível, resultado da vistoria feira em 11.502 imóveis.

Amanhã será a vez dos bairros Vânia Maria, Ferradura Mirim e Santa Edwirges receberem as equipes formadas por agentes de controle de endemias. A nebulização será retomada na quarta-feira.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com a pesquisadora Rita Nogueira.

Pergunta - A chegada do vírus 4 é sinônimo de uma epidemia no próximo verão?

Rita Nogueira - Não é a primeira vez que o vírus da dengue 4 chega ao País. Em 1981, ele entrou em Roraima. E naquela época cocirculou com o da dengue tipo 1. Foram notificados 12 mil casos em Boa Vista. Ninguém pensou logo em dengue, a preocupação era que fosse rubéola. Mas foi muito localizado e não teve grandes proporções - e o dengue 4 desapareceu por 30 anos. Epidemia não é matemática. São vários fatores. Recentemente voltamos a ter a circulação do dengue 1, que foi um vírus que se implantou muito bem na primeira epidemia. E se essa característica se mantém, o que se espera é que, talvez, não tenha em grandes proporções (uma epidemia de dengue 4). Esse vírus estava circulando havia algum tempo em países da América do Sul.

Pergunta - Ele tem dificuldade de se adaptar ao Brasil?

Rita Nogueira - O que controla esse fator de disseminação varia muito. Enquanto o dengue 4 estava nos outros países, no Brasil ocorriam muitas epidemias. Talvez você não tenha o ambiente propício para que se implante ao mesmo tempo vários sorotipos. Uma população que tem anticorpos com atividade cruzada com outros sorotipos de alguma forma vai bloqueando a entrada de outros vírus. É possível que as epidemias que ocorreram no País tenham impedido a entrada do dengue 4.

Pergunta - Hoje há muitas formas hemorrágicas. Por quê?

Rita Nogueira - As características epidemiológicas eram muito diferentes. Em 1986, o Brasil teve o que se chamava epidemia em solo virgem. Toda a população era suscetível. A epidemia foi por vírus tipo 1 e tivemos apenas um caso fatal, bem caracterizado. Quando entrou o dengue 2, mudou um pouco de figura. O que a gente conhece da epidemiologia é que, quando se tem infecções sequenciais (por diferentes vírus), o risco de se ter a forma mais grave é maior. Mas, na realidade, as famílias que estão circulando no Brasil têm potencial de virulência reconhecida. Esse vírus 2 é de origem asiática. Já se sabia que tinha potencial de levar a formas graves. O dengue 3, quando entrou, também havia preocupação. Ele sumiu das Américas em 1977 e foi reintroduzido em 1994. E se viu que o dengue 3 teve impacto muito grande no País - em 2002 correspondia a 60%, 70% dos casos nas Américas.

Pergunta - O que se pode dizer da epidemia de dengue no Brasil?

Rita Nogueira - Hoje o Brasil tem um caráter hiperendêmico, com quatro sorotipos circulando - que era uma característica do Sudeste Asiático. O padrão da doença lá é mais em criança. A população mais velha já foi infectada. As crianças vão fazendo infecções sequenciais e isso leva a casos mais graves. É o que ocorre hoje aqui: dengue em crianças, casos graves em pessoas com menos de 15 anos. A partir de 2007, as crianças não representavam percentual alto de casos graves. Na última epidemia passou de 30%.

Pergunta - Como é ser a memória da dengue no Brasil?

Rita Nogueira - Dá mais vontade de trabalhar. O segredo da identificação do vírus é a vigilância epidemiológica. É preciso estudar muito o perfil da dengue em criança, os fatores de risco dos casos mais graves. Também pesquisamos a repercussão do vírus em gestantes e representações atípicas da dengue, como comprometimento neurológico e hepatites.

Comentários

Comentários