Tribuna do Leitor

INVERSÃO DE VALORES


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Aproveitando a deixa da carta do jornalista Marcos Vieira da Silva (JC 20/3/2001), gostaria de comentar o assunto por outro ângulo (dentre tantos ângulos que existem sobre o assunto em nossa sociedade). Pois bem: tem um fato que vem me intrigando há muito tempo: a inversão de valores que existe em todo o mundo, porém, vamos pensar em nosso país. Um indivíduo estuda dos 7 aos 23 ou 25 anos de idade (dependendo do curso) sem contar com pós-graduação, mestrado, doutorado, residência (no caso dos médicos), etc etc.

Pois bem, após todo esse período de estudo, entra no mercado de trabalho (batalhando muito para conseguir), depois verifica que vai necessitar de mais uns dois ou três postos de trabalho, plantões etc para alcançar um salário razoável. Sem contar a maioria dos trabalhadores brasileiros que trabalha de sol a sol, que, dependendo da cidade, acorda às 3 ou 4 horas da madrugada, toma de 2 a 3 conduções para chegar ao trabalho e volta para a casa altas horas da noite, tem seu salário mínimo fixado em R$ 545,00, que, segundo a Constituição, terá que suprir moradia, alimentação, saúde, educação, transporte, lazer (que ironia!).

No entanto, no mercado da bola a coisa funciona de forma totalmente contrária, poucos são os atletas que frequentam escolas, porém, as cifras astronômicas de seus salários todos nós sabemos a quanto andam. Daí vem a pergunta: de onde provem tanto recurso financeiro? Agora a triste resposta: de nossos próprios bolsos, senão vejamos.

Vocês já pararam para prestar atenção nas propagandas dos uniformes dos jogadores: é plano de saúde, laboratórios, produtos de primeira necessidade, empresas do governo e assim por diante, e no fim quem paga a conta somos nós. Poderão dizer: é, mas futebol é uma arte, portanto, seus praticantes são artistas, assim seus valores não têm limite.

Tudo bem, agora, por que os clubes, os quais se dizem "empresas" com uma porção de interessados por trás disso, não se responsabilizam para conseguir os recursos necessários sem onerar o bolso do povo?

Pois plano de saúde, remédios, produtos de primeira necessidade atingem diretamente o bolso da população. Atenção, senhores legisladores, sou de opinião de que deveria ser criada uma lei proibindo ou regulamentando, estabelecendo limites, para o uso dessa prática, ou seja, propagandas, patrocínio de empresas do governo, produtos essenciais etc nos uniformes de clubes.

Apesar de tanto dinheiro que "rola" na maioria dos clubes, estão sempre numa pindaíba de dar gosto, é só verificar o ranking do endividamento dos clubes. Curioso, não é?

Gosto de futebol, sou corintiano, porém tem muitos que não gostam e não participam de futebol, no entanto, contribuem com sua cota de participação quando no pagamento do seu plano de saúde, na compra de seu remédio e no leitinho das crianças.

Em tempo: a Caixa Econômica Federal acaba de lançar uma nova modalidade (21/3/11) para arrecadar dinheiro para os clubes de futebol, trata-se da "É Gol". Agora, quando se fala em recursos para a saúde, vem logo na mente dos políticos a recriação da malfadada CPMF.

Vamos ser criativos, afinal, onde vai tanto dinheiro das loterias? Eu não sei, você sabe? Aliás, acho que eu sei, são tantas as famosas ONGs e blogs, que existe um blog até para distribuir poesias pelo mundo ("O mundo precisa de poesia"). Nada contra os poetas, mas essa de autorizar a captação de R$ 1,3 milhão é o fim da picada.


Edemar Zampa

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