Regional

Cooperativa busca formar adultos mais humanos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

A primeira cooperativa educacional da região de Bauru, a EPSG Coedup, fundada há 15 anos, está na cidade de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru). Para formar adultos mais humanos, adota o simples em detrimento do complexo. Com a filosofia na ?ponta da língua?, o presidente, Fernando José Curi, explica que os cooperados (pais de alunos) pretendem criar os filhos de forma mais simples, integrados com o meio ambiente e o mais longe possível do materialismo.

"Fazemos da escola a continuação da família. A participação mais direta dos pais faz com que o estudante se conscientize de seu papel no meio em que vive. Respeita mais o grupo e tudo que tem ao seu redor. Tentamos de todas as maneiras fazer com que o aluno traga a família para dentro da escola. É bem familiar."

Para ele, esse é o diferencial da cooperativa educacional. "Os pais participam das decisões da escola através do conselho. Eles podem votar e ser votado. Eles se relacionam com os funcionários, professores e procuram educar seus filhos para a vida."

A cooperativa oferece classes desde o mini-maternal até o antigo colegial, mas quando o aluno chega de outra escola e se depara com dificuldades em relacionar com os demais estudantes é atendido por uma psicóloga, explica o assistente administrativo Luiz Henrique Pelegrineli.

"Se o aluno apresenta problemas de relacionamento com os professores, funcionários ou tem problemas na adaptação ao novo ambiente, oferecemos o serviço da psicóloga que faz atendimento fora da escola. Caso o aluno não tenha obtido a nota desejada, vai para o reforço e os pais são comunicados logo no primeiro semestre, não arrastamos o problema para o final do ano. Fazemos um acompanhamento."

A integração escola/pais é o ponto forte da cooperativa, na opinião do assistente. "Os pais têm abertura para entrar e sair do estabelecimento a hora que quiser. Tomam todas as decisões através do conselho ou de comissões. Na época de formatura, por exemplo, entra em ação a comissão de festas. A administração apenas acompanha, são eles quem decidem o tipo de formatura que querem fazer. A cooperativa é uma grande família."


Não visa lucro


A EEPSG Coedup não visa lucro, como as demais cooperativas, portanto qualquer sobra anual de caixa tem que ser reaplicada na própria escola. "Acabamos de construir uma quadra poliesportiva , uma das melhores da cidade, comenta o presidente.

Para ele, o fato da escola não ser focada no lucro influencia na qualidade do ensino. "Investimos naquilo que os pais julgam necessário para a educação de seus filhos. Temos 330 alunos e dois prédios, um deles só para atendimento dos bebês até seis anos. Este ano faltou classe para aceitar cinco novos estudantes."

O segredo para figurar no ranking das melhores da cidade, está no limite de alunos por sala, explica o assistente administrativo Luiz Henrique Pelegrineli. "Até 20 alunos por série da 5a a 8a série e de 25 a 35 no antigo colegial."

A atenção dispensada a cada aluno na sala de aula tem reflexos importantes para a escola que pelo 5o ano consecutivo foi a melhor classificada no exame do Enem em Pederneiras. " O índice de aprovação em vestibular também não ficou devendo nada. Em 2009, colocamos 73% de nossos alunos nas universidades federal e estadual e 15% em particulares."

A fidelidade dos pais é outro item que faz a diferença, enfatiza o presidente da cooperativa. "Tivemos que recusar matrícula no início deste ano, mas não extrapolamos o número de alunos em cada sala. Uma das turmas foi dividida em duas. A fidelidade dos pais é muito alta. O aluno entra no maternal e segue até o colégio."

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Inadimplência existe


Mesmo sendo uma cooperativa, há inadimplência. Em torno de 10%. A diferença é o tratamento dispensado pela cooperativa para com o devedor. O acompanhamento mensal possibilita o gerenciamento da situação, afinal todos os gastos são rateados anualmente e a não entrada daquele valor por um período mais longo pode comprometer o orçamento.

Segundo o assistente administrativo da Coedup, Luiz Henrique Pelegrineli se a causa da falta de pagamento for um desemprego, por exemplo, o caso passa a receber um tratamento diferenciado. "Mas há casos que merecem e são encaminhados para o cartório. Antes mandamos avisos e determinamos prazos, porém se não obtivermos reciprocidade tomamos atitudes."

O custo das mensalidades difere de uma classe para outra e varia de R$ 300,00 a R$ 400,00. "No colégio são sete apostilas, na 1a série são quatro. No colégio a aula professor é mais cara, por isso a diferença", explica o presidente da cooperativa, Fernando Curi.

Para garantir a continuidade do trabalho de forma isenta, o conselho formado por cerca de 13 pais é renovado a cada dois anos. "As assembleias são anuais e podem ser convocadas a qualquer tempo pelos pais ou pela direção da escola. Tem ainda um conselho de finanças."

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Como nasceu a Coedup


A insatisfação com o ensino estadual e os altos valores cobrados pelas instituições particulares incentivaram pais de Pederneiras a buscar uma alternativa. Nessa busca encontraram a cooperativa educacional e depois de visitas e reuniões, eles fundaram a Coedup há 15 anos, conta o cooperado Giovaz de Freitas Solana.

"Na escola estadual faltava qualidade de ensino e nas particulares os valores eram fora do padrão que eu poderia arcar. Reunimos um grupo de pais, eram nove pais à época. Fomos para Araraquara conhecer a cooperativa de lá e partimos para um esquema de formiguinha. Cada pai trazia outro que tivesse um filho estudando em escola particular ou no estado. Antes de montar a cooperativa fizemos cerca de 15 reuniões para resolver os problemas e montar o estatuto."

As ideias foram surgindo e os pais lapidando cada uma. Hoje, a Coedup é exemplo para a formação de outras cooperativas educacionais na região, comenta o assistente administrativo da instituição, Luiz Henrique Pelegrineli.

A administração compartilhada entre pais e instituição de ensino foi a grande ?vedete?. "Criar uma escola em que as reclamações, sugestões e ideias dos pais são consideradas, estudadas e levadas a sério foi o que incentivou a adesão de outros cooperados além dos fundadores", frisa Solana.

O pai e fundador diz que os três primeiros filhos estudaram na Coedup e o caçula, de 11 anos, que é uma criança especial também frequenta a escola. "Nas escolas particulares o foco é o vestibular. Na cooperativa, o foco é o ser humano, uma visão mais humana. Acreditamos que é no contato com o próximo que nossos filhos aprendem a viver."

Solana ressalta que o cooperativismo ensina a criança a respeitar pessoas e coisas. "Aqui nenhum aluno quebra as coisas. Eles conservam porque sabem que a escola é a extensão da casa e tudo o que for quebrado, terá que ser reposto e o pai dele vai participar do rateio."

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Cooperelp de Lençóis ficou seis anos com mensalidade congelada


Com o objetivo de levar o melhor ensino com menor custo, a cooperativa de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) conseguiu manter por seis anos as mensalidades congeladas e garantiu o 2o lugar num concurso promovido pelas cooperativas.

A diretora Maria Cristina Giacomini Flosi explica que "na cooperativa fazemos o rateio de despesas, nosso objetivo é levar o melhor ensino com menor custo. Hoje, a escola particular é sinônimo de altas despesas. Os pais querem ensino de qualidade sem que onere o orçamento e a cooperativa educacional é a alternativa."

Mesmo assim a Cooperelp tem inadimplência, em torno de 5%. "Não chega a 5% a inadimplência. A filosofia da cooperativa faz com que os cooperados tenham esse comprometimento, essa visão. Há atrasos esporádicos que a gente tenta receber. Nossa luta é para que a inadimplência não cresça. Não podemos deixar ela atingir um patamar que prejudique o andamento das atividades."

Para a diretoria da escola, o pagamento das mensalidades é prioridade para manter o equilíbrio do estabelecimento. "A escola dá o que os pais necessitam, ensino de qualidade e precisa dos valores, até porque não tem como suportar a inadimplência, diferentemente das escolas particulares que tem um caixa para situações semelhantes."

Quando há sobras de caixa, a assembleia decida qual será a destinação. "Sempre tem que ser reaplicadas dentro da escola. No início da cooperativa nosso balanço era negativo, estávamos quitando a dívida com a antiga proprietária. Atualmente estamos trocando os computadores do laboratório de informática. Já cobrimos a quadra de esportes, fizemos banheiros novos e demos novo piso para todo o imóvel."

Os investimentos pesados em todas as áreas garantem a qualidade do ensino e as conquistas são consequências. "Este ano tivemos 93% de aprovação nos vestibulares, 50% em universidades públicas."

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Mães aprovam a tomada de decisões


Tereza Elizia Galassi estudou três filhos na cooperativa educacional de Lençóis Paulista. Ela aprova a possibilidade dos pais tomarem decisões na escola dos filhos. "Hoje eles não estudam mais aqui. Estão na faculdade, mas à época foi muito importante porque sabíamos aquilo que seria oferecido aos nossos filhos na escola."

Rosa Maria Prado Varasquini compactua da mesma opinião. Ela tem filhos estudando na escola e acha muito importante as decisões dos pais. "Somos nós que decidimos os passos da escola."

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