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Gasolina pega carona no álcool e dispara

Por Tisa Moraes | Colaborou Agência Estado
| Tempo de leitura: 7 min

O bauruense que comprou carro flex para ter poder de decisão na hora da escolha do combustível está, definitivamente, de mãos atadas. Na carona da escalada do preço do álcool, que subiu 19% em apenas um mês, o custo da gasolina também foi às alturas na maioria dos postos da cidade. Em alguns estabelecimentos, o litro do produto está sendo vendido a R$ 2,79, recorde histórico assim como o do etanol, que atingiu a marca de R$ 2,25 nas bombas. Sob o argumento de que a gasolina tem 25% de álcool anidro em sua composição, donos de postos de combustíveis justificam que apenas estão repassando ao consumidor final as altas aplicadas pelas companhias distribuidoras.

"A Petrobras aumentou o preço às distribuidoras, que passou a cobrar mais caro dos postos. Funciona como uma cadeia. Os proprietários dos postos continuam trabalhando com margem reduzida de lucro", aponta o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro) em Bauru, José Antônio Reghine.

Neste cenário, os donos de carros flex, com a condição de optar somente pelo menor prejuízo, têm de se desdobrar para fazer os gastos com combustível caberem dentro do orçamento. Quem tem automóvel movido a álcool sofre mais ainda, já que a relação custo-benefício em relação à gasolina se tornou desvantajosa desde o final de fevereiro.

Mas quem possui carro a gasolina também reclama. É o caso do taxista Valmir Francisco da Silva, 48 anos, conhecido como Fininho. Ele conta que, no mês passado, gastou R$ 2 mil para abastecer seu automóvel, mas em abril, a expectativa é acrescentar mais R$ 200,00 a esta conta.

Um preço caro a ser pago por precisar rodar tanto com o veículo mas que, segundo ele, não será repassado para a clientela. "A solução é trabalhar com um carro mais econômico, sem ar condicionado, para gastar menos. O serviço de táxi em Bauru já não é barato. Se for aumentar, os clientes desaparecem", afirma.

Apesar do abuso de preços, em tempos de álcool caro a gasolina continua sendo a opção mais em conta para o consumidor. Para concluir qual é a melhor escolha, é preciso dividir o preço do litro do álcool pelo valor da gasolina.

Se o resultado for maior que 0,7, deve optar pelo segundo combustível. Se for inferior, é melhor ficar com o álcool. Em Bauru, o valor deste cálculo chegou a 0,80, e quem quiser fazer economia deve optar pela gasolina.


Redução no consumo


Em razão dessa vantagem, atualmente a relação de consumo de gasolina e etanol em Bauru está em 80% e 20%, respectivamente. No começo de fevereiro, de acordo com estimativas do Sincopetro, a proporção era de apenas 30% de uso de gasolina e 70% de álcool. Com esta inversão, os postos registram queda de movimento em torno de 30% nas últimas semanas. Uma das justificativas é de que o litro da gasolina permite que os automóveis rodem mais, fazendo com que os motoristas precisem abastecer menos vezes até o tanque esvaziar. Mas a alta dos preços também é apontada como responsável pela redução.

"O movimento caiu, mas ainda não temos uma noção exata desse reflexo em termos de faturamento, que também está sendo afetado", observa o empresário do ramo Edivaldo Tuschi.

Com tantos consumidores migrando para a gasolina, a Petrobras se viu forçada a anunciar a importação de 1,5 milhão de barris neste mês para evitar que falte produto nos postos. O volume corresponde à metade do total trazido de fora em todo o ano passado. Mas, como o mercado teme que a quantidade não seja suficiente, a estatal já admite que poderá comprar novas remessas do Exterior.

"O governo também disse que iria importar 200 milhões de litros de álcool, mas isso não resolve o problema. Essa quantidade não dá para o consumo de três dias e o preço do produto não vai baixar por causa desta medida", avalia Tuschi.

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Futuro dos preços é desconhecido


A expectativa do mercado é de que, no começo de maio, com a entrada da nova safra da cana-de-açúcar, o álcool volte a ser mais vantajoso em comparação à gasolina, mas não há certeza de que os preços voltem aos patamares do ano passado. Em maio de 2010, o litro do etanol chegou a R$ 1,15 e a gasolina era encontrada por uma média de R$ 2,45 em Bauru.

Mas, como a safra prevista para começar em abril foi atrasada em um mês e meio, é grande a possibilidade de as bombas registrarem novos aumentos tanto para a comercialização do álcool quanto da gasolina. Na semana passada, em alguns bairros de São Paulo e do Rio de Janeiro, o litro da gasolina chegou a incríveis R$ 3,00 e não há certeza de que este preço não venha a ser praticado em Bauru.

Segundo produtores, o atraso no início da colheita de cana deu-se em razão da pouca quantidade de chuvas entre junho e novembro do ano passado, o que prejudicou o desenvolvimento da planta, matéria-prima para a produção do etanol. "Não sobrou cana da safra do ano passado para ser colhida agora, como ocorre todos os anos. Então, será preciso esperar até maio para o início da moagem", explica o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro) em Bauru, José Antônio Reghine.

Porém, conforme lembra o empresário Edivaldo Tuschi, algumas usinas de menor porte já começaram a moer cana e o álcool, para alguns proprietários de postos - principalmente os de bandeira branca -, já está sendo comercializado a um valor menor. "O preço de custo do álcool para os postos estava em R$ 2,00 e agora está chegando a R$ 1,85. Mas não é possível dizer qual a força desta queda, porque as grandes usinas ainda estão paradas e a distribuição do combustível está concentrada nas mãos de apenas três companhias, que praticam o preço que lhes interessa", aponta.

Para Reghine, mesmo com a concorrência entre os cerca de 120 postos de Bauru, as margens de lucro deverão ser mantidas nos mesmos patamares - em torno de R$ 0,30 por litro de combustível - até o início da safra. "O custo subiu para todo mundo e as companhias distribuidoras não devem dar espaço para a briga da concorrência entre os postos", aponta Reghine.

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Aumento injustificado


Na avaliação do empresário Edivaldo Tuschi, a disparada no preço da gasolina ao patamar atual é injustificada. Ainda que a existência de 25% de álcool em sua formulação possa explicar parte da alta, não seria motivo para cobrança tão elevada por parte da Petrobras.

"Não há explicação plausível. O governo poderia abrir mão da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), que serve exatamente para segurar a alta de preços em períodos de sazonalidade, mas não o faz. Se ela absorvesse este imposto, seria uma forma de controlar os preços", aponta.

A Cide é o tributo incidente sobre a importação e comercialização de combustíveis. Diante da alta de preços, a ideia era de que o governo pudesse absorver os R$ 0,05 de Cide cobrados pela Petrobras por litro de gasolina. O valor, em teoria, seria descontado em toda a cadeia produtiva até chegar ao consumidor final.

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Escalada do álcool


Embora nesta época, período de entressafra da cana-de-açúcar, o preço do etanol costume subir, a alta foi ainda mais acentuada neste ano por uma série de motivos. A elevação, resultado de um descompasso entre oferta e demanda, teve origem há mais de dois anos, durante a crise econômica mundial de 2008. Na ocasião, muitas usinas acabaram quebrando, o que fez com que as metas de produção para 2011 fossem abortadas.

E a situação se agravou mais ainda justamente por conta das medidas adotadas pelo governo para livrar o País dos efeitos da crise internacional. Por meio de incentivos tributários e facilidades de financiamento, o consumidor foi estimulado a comprar automóveis nos últimos anos, como forma de manter a economia aquecida.

Como reflexo direto desta medida, a demanda por combustíveis explodiu. Para completar, o açúcar altamente valorizado em países como Índia, China e Estados Unidos fez com que muitos usineiros priorizassem a produção do insumo à fabricação do etanol, que acabou se tornando escasso.

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