Ciências

Sucesso... 10 mil horas!


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As pessoas não nascem prontas com dons e talentos predeterminados. Imaginem uma fila no céu com as almas ou espíritos das pessoas que iriam nascer na Terra. Os funcionários ou santos iriam deixando passá-las: este vai ser músico, este terá o dom da cirurgia, aquele de cantar, o outro deve ser um bom orador, este terá carisma!

Eu acredito que Deus faz as pessoas nascerem com todas as potencialidades, todos os dons, ele não discriminaria na distribuição dos talentos. Os filhos de médicos tendem a ser médicos, os de músicos, artistas, engenheiros, escultores e sucessivamente. O ambiente familiar, as conversas, objetos, amigos e os locais que frequentam estimulam muito cedo as aptidões para as diversas atividades.

A vida tem percalços e nem todos conseguem o que se chama de sucesso. Os que não tem se acham injustiçados; arranjam desculpas para o ego e espelho e com frequência dizem: Não tenho o dom para isto! Nasci sem talento para as artes! Não tenho habilidades! Eu não tive sorte na vida! Tudo que faço dá errado! Quase sempre essas pessoas colocam a culpa na família, cônjuge e filhos como se fossem empecilhos para o sucesso.

O grau de satisfação pessoal tem a ver com o que se conveniou chamar de sucesso. Meu pensamento sempre foi coincidente com o de Malcolm Gladwell, um inglês que pesquisou o sucesso apresentando seus dados no livro "Fora de Série", da editora Sextante. O sucesso está atrelado a muita dedicação, treinamento, abdicação e trabalho. Não devemos dizer aos filhos ou amigos: você nasceu para ser feliz! Esta afirmação é meia verdade e pode fazer mal. Prefiro dizer: você nasceu para ser feliz, mas vai ter que dar uma raladinha antes! Vai ter que trabalhar, investir, treinar e planejar: sucesso antes do trabalho apenas no dicionário!

O goleiro Rogério Ceni, ao completar 100 gols à frente do São Paulo Futebol Clube, soma-se a outros exemplos utilizados para explicar por que algumas pessoas têm sucesso e outras não! Malcolm Gladwell criou a "teoria das 10 mil horas": uma pessoa só consegue ser excelente se treinar uma atividade por mais de 10 mil horas.

Em 1997 o goleiro treinava bater faltas para passar o tempo, pois chegava sempre mais cedo nos treinamentos. Ao terminar o treinamento, permanecia mais um pouco batendo faltas! O astuto treinador Muricy Ramalho deu-lhe a oportunidade nos jogos: virou o maior batedor de faltas do time.

A cada mês, Rogério Ceni treina 3 mil batidas de falta desde 1997, mais que 10 mil horas. Mesmo assim, alguns afirmam: tem talento, tem dom! Não é talento, mas vontade, persistência e treinamento!

Não se deixem enganar, um vencedor tem 10 mil horas de treinamento no mínimo. Para o sucesso, exclusivamente o trabalho não resolve, precisamos da confluência ou somatório de fatores como habilidade, inteligência e cultura. Mas o homem mais inteligente dos EUA ganhou todos as competições na TV com seu QI=195 - o de Einstein era 150 - e trabalhou como porteiro de bar a maior parte da vida. Inteligência apenas não significa sucesso.

Trabalho e treinamento com persistência e tenacidade, mesmo na adversidade fez Lula, que perdeu três eleições, ser presidente. Apoio familiar, amigos, instituição ou clube são importantes pois ninguém tem sucesso sozinho! Habilidade social para detectar e aproveitar as circunstâncias favoráveis também e deve-se estar preparado para as oportunidades. Sorte: será sempre necessária, mas sozinha não surtirá efeito.

Bill Gates fez milhares de programas dos 13 aos 20 anos até criar a Microsoft. Pelé treinava muito mais que os outros desde menino e o pai foi tenaz. Einstein, dos 16 aos 26 anos estudou como um maluco a luz. Os Beatles fizeram 1.200 apresentações entre 1957 e 1964 antes do sucesso. Madonna dança oito horas todos os dias, Ivete Sangalo também. Agora inclui-se Rogério Ceni nesta série de sucesso: treinamento e trabalho em circunstâncias favoráveis com o apoio da família e clube.

Quase sempre colocam-se como exemplo de "dom" os grandes músicos clássicos com biografias romanceadas: as obras compostas antes dos 18 aos 20 anos são consideradas muito ruins pelos especialistas, suas grandes obras foram feitas quando maduros, depois de muito treinamento e trabalho. Mozart fez sua primeira obra prima aos 21 anos.

O sucesso também faz o vencedor renovar-se sempre, inclusive as suas circunstâncias e apoios. O verdadeiro vencedor todos os dias assume que é hora de desaprender para reaprender! Dá trabalho, mas sucesso não vem por acaso. Rogério Ceni que o diga, foram mais que 10 mil horas!

Alberto Consolaro - Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC

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