A Secretaria Municipal de Saúde informou ontem a confirmação, pelo Instituto Adolfo Lutz, de mais dois casos de leishmaniose em Bauru. Um deles causou a morte de uma menina de apenas 1 ano de idade no dia 21 de março. Ela era moradora do Núcleo Fortunato Rocha Lima e ficou internada no Hospital Estadual (HE), mas não se recuperou. Esta é a segunda morte registrada na cidade em decorrência da doença em menos de um mês.
No dia 1 de março, a pequena Letícia dos Santos Lima, 7 anos, que morava no Parque Jaraguá com a mãe e mais três irmãos, também faleceu após ser diagnosticada com leishmaniose. Letícia, que apresentava um quadro de desnutrição, também ficou sob cuidados médicos no HE durante alguns dias até falecer.
O terceiro caso informado ontem é de um homem de 32 anos, morador do Parque Santa Edwirges, em Bauru. Ele foi submetido a tratamento no Hospital Manoel de Abreu e já teve alta, segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal da Saúde. Este caso, porém, entrará para as estatísticas de 2010, já que os sintomas da doença se manifestaram em novembro. No ano passado foram registrados 29 casos da doença em Bauru, sem nenhuma morte.
A situação coloca em alerta a Saúde, que afirma estar tomando as medidas cabíveis por meio dos agentes de controle de endemias.
"Esses agentes já estão atuando nesses bairros, que apresentam também grande parte do número de casos de dengue na cidade. Os agentes analisam as condições das residências, se há alimentos em decomposição. Então, não existe nada que possa ser desencadeado agora (em termos de ações)", destaca Flávio Tadeu Salvador, diretor substituto do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru.
Salvador esclarece que as ações contra o mosquito vetor da leishmaniose, Lutzomia longipalpis, conhecido popularmente como mosquito-palha, são sistêmicas e não como as do mosquito Aedes aegypti (vetor da dengue). "As larvas dele são quase imperceptíveis porque ficam entre os alimentos em decomposição e fezes de animais como porcos e galinhas", acrescentou.
A chegada da doença
A leishmaniose chegou a Bauru em 2003, segundo o diretor substituto do DSC. Na verdade, a cidade é que "chegou até o mosquito", já que esle possui hábitos silvestres, assim como o Aedes aegypti.
As fêmeas do mosquito-palha, transmissor da leishmaniose, transmitem os protozoários através da picada. O principal foco desses vetores são as galinhas, segundo Flávio Tadeu Salvador.
"Pesquisas apontam que se o mosquito tiver a opção de picar um cão, um homem ou uma galinha, ele escolherá a galinha porque a reconhece do ambiente silvestre", explica.
O curioso é que a ave não torna-se reservatório e nem transmissora da parasitose - ao contrário do cão, em que os protozoários se hospedam nas regiões periféricas do corpo. Já nos humanos, a patologia se instala nas vísceras, daí o nome "leishmaniose visceral".
Salvador acrescenta que, em Bauru, pode-se dizer que o maior problema são os galinheiros, comumente encontrados em residências - principalmente em bairros mais afastados do Centro. "Uma pesquisa feita pela Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) revelou que os maiores problemas são os chiqueiros e galinheiros onde ficam depositados restos de material orgânico, alimentos e fezes dos animais", destaca.
A equipe de reportagem do Jornal da Cidade não conseguiu contato ontem com a família da criança que morreu no último dia 21. Portanto, manteve em sigilo as identidades da vítima e também da mãe. O mesmo procedimento foi adotado para o homem de 32 anos acometido pela parasitose e que já foi tratado.
Alerta
A situação atual de Bauru em relação à leishmaniose coloca em alerta os órgãos de Saúde. "Isso é muito preocupante. Nós estávamos festejando o ano de 2010 que não teve nenhuma morte e apenas 29 casos. Mas tivemos muitos avanços. As redes de saúde, tanto as públicas quanto as particulares, estão mais sensibilizadas e hoje o tratamento é eficaz para uma pessoa que não possui deficiências no sistema imunológico e doenças de base, como por exemplo diabetes, hipertensão, HIV", diz Flávio Tadeu Salvador, diretor substituto do Departamento de Saúde Coletiva (DSC).
1o DP investigará
Assim como o caso de Letícia dos Santos Lima, 7 anos, a morte da criança de 1 ano no mês passado também será investigada pelo Distrito Policial (DP) de Crimes Ambientais, localizado no 1º DP de Bauru. De acordo com Dinair José da Silva, delegado titular do 1º DP, a leishmaniose é uma doença de comunicação compulsória, ou seja, a Saúde deve comunicar a Polícia Civil para que o caso seja devidamente apurado.
"Estamos no aguardo da comunicação para apurar a morte dessa outra criança, talvez pelo mesmo procedimento", salientou o delegado. Apesar da morte ter acontecido no dia 21 de março, a confirmação que o caso tratava-se de leishmaniose foi divulgada somente ontem pelo Instituto Adolfo Lutz, portanto, a Polícia Civil ainda aguarda a comunicação.
O inquérito para apurar a morte de Letícia está em andamento. "Não há novidades, por enquanto, sobre o inquérito instaurado para apurar a morte da Letícia. Nós já oficiamos o secretário municipal da Saúde (Fernando Monti) para prestar informações. Devemos ainda apurar mais questionamentos com o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), mas estamos aguardando a chegada do laudo clínico do Instituto Médico Legal (IML).
Uma vez infectada, vítima pode ser portadora do parasita por toda vida
A manifestação do protozoário que causa a leishmaniose ainda é muito discutida. Sabe-se que a parasitose se desenvolve com agressividade em humanos que possuem deficiência no sistema imunológico, crianças subnutridas ou desnutridas que também estão em período de formação do sistema, idosos imuno-deprimidos e também em portadores de doenças de base como diabetes, hipertensão e HIV. A explicação é de Flávio Tadeu Salvador, diretor substituto do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru. (veja quadro ao lado)
Já quem possui um sistema imunológico saudável, se for infectada, pode conviver com o parasita por toda a vida sem que este se manifeste, e até mesmo evoluir para uma auto-cura.
"Quando o mosquito (palha) pica um humano que possui o sistema imunológico bom, o parasita acaba sendo atacado pelas células de defesa do organismo. Geralmente eles ficam em pouca quantidade, mas há relatos em que pessoas ficaram curadas", revelou Flávio Tadeu Salvador, diretor substituto do Departamento de Saúde Coletiva (DSC).
Aqueles que não destroem os protozoários por completo podem vir a desenvolver a patologia mesmo depois de ter sido infectado há anos, caso fiquem com a imunidade baixa ou comprometida por conta de outra doença.