O Brasil se recupera - ou tenta - do maior massacre ocorrido dentro de uma escola no País. Pela proporção da tragédia que teve como palco o bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, onde Wellington de Oliveira invadiu uma escola anteontem e matou 13 estudantes antes de se suicidar, o assunto estampou e estampará os meios de comunicação por vários dias. Essa exposição intensa, entretanto, causa um efeito que deve ser, no mínimo, debatido: como lidar com as crianças diante de tamanha nuvem informacional sobre casos com temáticas tão fortes e violentas?
De acordo com a doutora em Educação Maria do Carmo Kobayashi, que é especialista na área infantil, a informação está em toda parte e, assim, não é possível mais esconder os fatos. "O melhor é preparar a criança para o que está sendo passado. Tanto os pais como os professores têm essa função. Eles não devem tentar esconder a realidade das crianças".
A educadora explica que aquele conceito da criança que precisa ser protegida e cuidada ao extremo já não existe mais. "Os fatos estão em todos os lugares. Existe a internet, a televisão, os amigos da escola, entre outros. Nós temos que saber como trabalhar isso. É preciso fazer as crianças ficarem menos assustadas e abaladas, porém, sem esconder a realidade", alerta.
A psicóloga Maria José Barbosa mantém o mesmo ponto de vista. Segundo ela, é preciso realmente preparar os "brasileirinhos", porém, a única ressalva é em relação ao grau de exposição. "Acho que o ideal é evitar que as crianças vejam cenas muito violentas. Entretanto, quando questionados, os pais devem explicar o que está acontecendo de forma com que a criança não fique chocada".
A idade ideal para que esse contato mais direto com a realidade seja feito é a partir dos 7 anos, informa a psicóloga. "Os pais têm essa função. Mas acho que as escolas e o sistema educacional deveriam se concentrar na realização de uma série de palestras para minimizar a ansiedade e medo que essas crianças podem estar sentindo".
A educadora Maria do Carmo Kobayashi vai além. Segundo ela, saber ou não lidar com essa questão tem uma importância tão grande que pode até mesmo definir a personalidade futura dessas crianças. "Quando a criança entra em contato com essa realidade, a vida dela nunca mais será a mesma. Existe algo chamado resiliência, que é o reflexo diferente desses fatos em cada tipo de pessoa. Se for bem trabalhado, elas podem entender o caso e até mesmo tirar lições positivas do ocorrido".
Desse modo, uma criança pode verificar na tragédia uma saída fácil para problemas futuros, enquanto outra, melhor orientada, enxerga a solidariedade e comoção, tornando-se alguém melhor.
Como dizer
Entendido que o melhor a fazer é contar para os filhos, surge outro problema: como fazer isso de modo adequado? Maria do Carmo Kobayashi aponta que o essencial é entender o que a criança quer saber e o quanto ela já sabe do assunto em questão.
"Temos que ter a noção do tanto que essa criança já ouviu. O primeiro passo é acolher e saber o que ela quer entender realmente. Muitas vezes os pais acabam tentando contornar o problema e contam coisas que as crianças nem mesmo queriam saber", alerta.
Para exemplificar o fato, ela faz analogia com a comum situação em que os pais são questionados sobre o que seria "sexo".
"Quando o filho pergunta isso, geralmente, o pai faz todo aquele discurso sobre o papai ama a mamãe e aí nasce um bebê lindo igual a você. Faz vários contornos para explicar uma relação sexual de forma constrangida e, muitas vezes, ao terminar, o filho vira e fala: ?Ah, é isso? É que eu ouvi que tinha o sexo masculino e o sexo feminino?".
São situações semelhantes que, de acordo com a educadora, acontecem com essas grandes coberturas. Muitas vezes, o pai, questionado, acaba tentando uma didática muito intensa e revela demais sobre o caso.
A psicóloga Maria José Barbosa também explica que não é positivo tentar livrar o filho da possibilidade de fatos parecidos. "Não se deve amedrontar a criança. Mas, ela deve ser preparada. Se ela perguntar se pode acontecer aqui, o pai não pode esconder isso. É um modo de orientação. A realidade nos leva a isso. As crianças têm que participar dos rituais da vida (leia mais no texto ao lado)", completa a psicóloga.
Cuidados cotidianos
Apesar de ressaltar os cuidados dos pais em relação a esse tipo de informação e cobertura midiática, a doutora em Educação Maria do Carmo Kobayashi explica que é necessário se atentar sobre as ações diárias.
"Um grito ou um tapa pode marcar muito mais uma criança. A educação é um processo. Situações mais simples como essas podem influenciar toda a formação. Os pais precisam se atentar para essas ações cotidianas. Necessitam ter cuidados também no que fazem como se fossem coisas normais", aponta.
Morte não deve ser escondida das crianças
Dificuldade semelhante à de revelar os detalhes da tragédia fluminense, os pais encontram quando algum familiar ou até mesmo um animal de estimação morre. Nessas ocasiões, é comum ver mentiras e eufemismos para poupar as crianças.
Entretanto, a psicóloga Maria José Barbosa afirma que os filhos precisam lidar com todos os "rituais da vida", inclusive a morte. "Os filhos precisam participar de tudo que envolve a vida. E, mesmo que pareça contraditório, a morte faz parte da vida. Do mesmo modo em que as crianças vão a batismos e casamentos, elas precisam ir aos velórios", aconselha.
Segundo Maria José Barbosa, nunca se deve mentir aos filhos. "Já vi casos em que o cachorro morreu e a mãe comprou outro cão igualzinho. Porém, ele tinha uma mancha na pata diferente e a criança descobriu. Isso piora tudo, porque ela tem que lidar com a mentira e também com a morte".
Questionada sobre o fato de impressionar os filhos com tais revelações, a psicóloga completa que "a criança que lida com a temática da morte desde cedo passa a achar isso natural. Geralmente, os pais não cresceram assim. Os próprios pais não foram preparados para isso e, desse modo, criam errado os filhos".
Pais devem observar mais os filhos, afirma psicóloga
Enquanto todos tentam conseguir justificativas - que, com certeza, não serão encontradas - para a tragédia ocorrida no Rio de Janeiro, alguns especialistas analisam o fato pensando justamente no que deve ser feito para evitar casos semelhantes.
Para a psicóloga Maria José Barbosa, os pais precisam observar melhor os filhos. "É preciso olhar diretamente nos olhos da criança e saber o que ela está passando. Observado isso, os pais precisam fazer os filhos terem compaixão. É necessário um processo de humanização. A realidade está seguindo rumos totalmente contrários: está desumanizada".
Para essa observação que, de acordo com ela, é exercida em graus insuficientes nos dias de hoje, a psicóloga aponta mais convívio entre pais e filhos. "Os pais têm que ensinar a ser. Atualmente, eles estão muito centrados no dar. Eles acham que podem suprir a ausência dando algum presente. Isso não pode acontecer. Precisam ficar mais juntos".
A educadora Maria do Carmo Kobayashi aponta que a educação pode ser vista como a base para determinar atitudes extremas como a que culminou na tragédia em Realengo.
"Muitos criticam a escola. Mas a educação não é só a escola. Ela é formada por outras duas instituições: a família e a sociedade. A escola traz para ela problemas nessas instituições. Ela somente reflete. Por isso, é preciso analisar todo esse contexto para melhorar o quadro que estamos vivendo", completa.