Sempre que um bandido é detido, a população se sente mais segura. Entretanto, na manhã de ontem, a sensação foi diferente: a polícia estava "correndo atrás do prejuízo". A prisão em questão foi a recaptura de Ewerton Vieira Leite, 32 anos, que após ter sido detido em flagrante por roubo na semana passada (leia mais ao lado), fugiu horas depois de dentro da cela do Plantão Policial. Recapturado, o suspeito foi ouvido ainda ontem pela Corregedoria da Polícia Civil, que instaurou inquérito para apurar a fuga. Segundo o delegado seccional Benedito Antônio Valencise, o acusado confessou que a cela ficou aberta.
O homem foi localizado por volta das 11h na Vila Santa Terezinha, próximo à zona rural de Bauru. Quem fez a prisão foi uma equipe da própria Policia Civil, composta por investigadores, escrivães e pelo delegado Mário Henrique Ramos, o mesmo que estava de plantão na noite da fuga.
Ewerton Leite é considerado de alta periculosidade pelos policiais. Ele acumula passagens por crimes de receptação, roubo, furto qualificado e tentativa de homicídio. Segundo o delegado assistente da delegacia seccional de Bauru, Márcio José Alves, entretanto, o acusado não ofereceu qualquer resistência. "Ele foi detido na região da casa de seus familiares. Foi uma prisão tranquila e o suspeito não resistiu. Ele foi localizado após investigações e levantamentos de informações de campo da Polícia Civil", complementa.
Após ser recapturado, o suspeito foi conduzido ao Plantão Policial, onde foi interrogado pelo roubo que havia cometido. Depois, ele prestou outro depoimento na Corregedoria da Polícia Civil. Dessa vez, o assunto foi outro: tentar encontrar explicações para a aparente inexplicável fuga misteriosa de dentro da cela.
Segundo o delegado 4.º corregedor auxiliar da Polícia Civil de Bauru, Renato Cagnacci Filho, o homem foi ouvido por cerca de meia hora. "Não posso revelar o que ele disse. Preciso manter esse sigilo justamente por normas da própria Corregedoria".
Apesar de não ter revelado os detalhes da conversa, com certeza, a abordagem visa elucidar se a fuga de Ewerton Leite foi sustentada sobre alguma falha de procedimentos ou até mesmo de possíveis facilitações. O delegado seccional de Bauru, Benedito Antônio Valencise, diz que o preso confessou que realmente saiu pela porta do fundo após a cela ter ficado aberta.
Ewerton fugiu de dentro da cela, que é trancada por um resistente cadeado, no Plantão Policial, o qual operava com contingente de cinco funcionários - o delegado e outros quatro policiais. Ele saiu pelo corredor e pulou o muro dos fundos. A perícia foi acionada, porém, conforme o JC apurou, a porta não mantinha sinais de arrombamento. Na ocasião, Valencise considerou a fuga "humilhante" e injustificável.
BO aponta outra versão
No boletim de ocorrência (BO) da recaptura, Eweton Leite afirmou que quem não trancou a cela foram os policiais do Comando Tático da PM que efetuaram a prisão. Entretanto, o delegado Benedito Valencise aponta que, caso isso tenha ocorrido, houve outra irregularidade. "Quem tem que fechar a cela é a Polícia Civil. É uma portaria que eu baixei e que incide essa responsabilidade aos policiais de plantão. Se não foi assim, já começa tudo errado. Não é a PM que deve fechar a cela". Diferente também do que foi informado, O BO aponta que tanto o advogado quanto a mãe do homem demonstraram que o acusado tinha o interesse em se entregar. "Tudo será devidamente apurado", completa Valencise.
Roubo e fuga
Antes de ser ouvido pela Corregedoria, Ewerton Vieira Leite, 32 anos, foi interrogado pelos policiais para apurar a participação no roubo pelo qual ele havia sido detido inicialmente. "Ele fez o mesmo em que a maioria dos casos. Reservou-se no direito de ficar calado. Entretanto, temos várias provas testemunhais que o ligam ao crime", informa o delegado assistente da delegacia seccional de Bauru, Márcio José Alves.
O roubo ocorreu na última quinta-feira, quando três indivíduos - um deles armado - assaltaram um mercado de pequeno porte no Jardim Cruzeiro do Sul e levaram R$ 376,00 do estabelecimento e um telefone celular.
Logo após o crime, a Força Tática da Polícia Militar (PM) prendeu em flagrante Emanuel Zelnys da Silva, 24 anos; Alexsandro Vieira Leite, 34; e Ewerton Vieira Leite, 32. Os dois primeiros foram conduzidos à Cadeia Pública de Duartina.
Já Ewerton, conhecido como Ton, fugiu de dentro da cela do Plantão Policial horas depois de ser detido. Após ter sido recapturado ontem, ele foi ouvido pelos policiais e seria encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP), onde, dessa vez, deve ficar detido.
Inquérito
Segundo o corregedor Renato Cagnacci Filho, foi aberto inquérito para investigar a fuga. "Nossa investigação visa apurar se houve desatenção por parte de quem o trancou ou de qualquer um que estava trabalhando no momento. O mesmo vale para algum tipo de facilitação", aponta.
O prazo para que o inquérito seja concluído é de 30 dias, sendo que, após esse período, o corregedor espera ter respostas tanto na parte criminal quanto administrativa. "Queremos apurar se realmente houve uma parte criminal, ou seja, se houve qualquer facilitação ou intencionalidade na fuga. Já a questão administrativa, é referente ao fato da desatenção em si", completa.
Após encerrado o inquérito, ele será encaminhado ao Fórum de Bauru e, se comprovada qualquer responsabilidade dos envolvidos, as punições podem variar desde penas criminais - em caso de facilitação - até mesmo a abertura de sindicância com processos administrativos e demissões.