Terça-feira, 19 de abril, é o Dia do Índio. Uma data comemorativa que teve início lá em 1940, com o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. Três anos mais tarde, a data foi oficializada no Brasil. Uma das características mais marcantes dos indígenas é o fato da maioria morar em tribos afastadas ou não dos centros urbanos, porém, há uma parcela dos integrantes desses povos que vieram morar na cidade com os chamados homens brancos. E você sabe como isso aconteceu?
"No Estado de São Paulo, por exemplo, os indígenas passaram a viver nas cidades desde o surgimento das primeiras povoações. Isso porque os primeiros colonizadores ou fundadores dos povoados, como é o caso da cidade de Sorocaba, buscavam índios para o trabalho na roça. Infelizmente, os primeiros indígenas foram capturados para o trabalho escravo", explica Márcio Oliveira de Castro Coelho, indigenista, historiador e especialista em antropologia.
Dessa forma, foi contra a vontade que os primeiros índios saíram de suas tribos para morar nas cidades. Eles acabaram ficando e se misturando àquelas sociedades em formação. Mas nem todos os indígenas vieram morar nas cidades contra a sua vontade. Em Bauru há várias famílias compostas por indígenas ou seus descendentes que decidiram levar uma vida comum de homem branco.
No lugar da oca, uma casa comum de tijolos. No telhado, telhas ao invés de palhas. Para comer, nada de caça, pesca ou plantações, e sim supermercados. Já na hora de dormir, as redes dão lugar às macias camas com colchões de espuma. Assim são as residências dos indiozinhos bauruenses entrevistados pelo JC Criança, que, assim como qualquer outra criança, adoram tecnologias, como ver desenho animado na TV, usar o computador e aparelhos celulares. Mas eles confessam que gostam muito de correr e brincar livres pelos campos das aldeias quando visitam os parentes.
Exemplo dessa rotina está na casa dos irmãos Allef, Wallace e Ághata Xarin Rodrigues de 10, 7 e 1 ano, respectivamente. Descendentes dos Caingangues e dos Guaranis, as crianças têm mãe índia e pai branco. Ana Xarin é a mãe dos meninos e diz que, embora sinta falta da vida na tribo, acha que é bom criar os filhos em uma cidade por ter mais comodidade e recursos. "Por outro lado, as cidades são mais perigosas e eles não podem ser criados soltos como em uma tribo", acredita.
Visita que ensina
E quando visitam os avós e os parentes na tribo onde a mãe nasceu, os irmãos Xarin aprendem um montão de coisas bacanas sobre a cultura indígena. "Aprendemos a passar palavras do português para as línguas de índio. As palavras que mais gosto são as de animais", diz Allef. Para o irmão Wallace, gostoso mesmo é correr pelos campos e brincar solto nas terras da aldeia. "E quando tem festa a gente usa os enfeites como colar e cocar.
É importante manter tradição mesmo vivendo nas cidades
Manter a tradição, a cultura e os costumes é importante e é possível para qualquer povo, independente de viver ou não em seu lugar de origem. E com os indígenas isso não é diferente.
"No caso dos índios, não só é possível viver na cidade, longe da aldeia, como também dá para manter viva a cultura e buscar fortalecer esses laços através do uso das tecnologias dos brancos. Um exemplo disso são os funcionários da própria Fundação Nacional do Índio (Funai), pessoas que foram viver nas cidades, não perderam sua cultura e passaram a conhecer e a dominar os aspectos da cultura da sociedade brasileira para servir como instrumentos de apoio na luta pelos direitos dos povos indígenas no Brasil", observa Márcio Oliveira de Castro Coelho, indigenista, historiador e especialista em antropologia.
Para você entender melhor o que Márcio explica, isso acontece da mesma forma que um brasileiro que vive muitos anos em Londres e não se torna um inglês. Um guarani vivendo em Bauru não deixa de ser índio. Ele será um bauruense, brasileiro, porém, guarani enquanto indivíduo.
Chama viva
Quem não deixa as tradições dos índios Teruá de lado são as crianças da família Camilo. Tudo começou quando os irmãos Eudoxio e Tainá Camilo vieram para Bauru e se casaram com dois irmãos brancos: Andréia e Joel Ferreira. Andréia e Eudoxio tiveram Leonardo Daniel Ferreira de Camilo, 3 anos. Já do casamento de Joel e Tainá nasceram Igor Augusto de Camilo Ferreira, 2 anos, e Isabele Vitória, 4 anos.
"O bisavó das crianças é o cacique de nossa tribo e acreditamos ser muito importante manter as tradições e os costumes indígenas vivos e juntos da sociedade moderna. Então, as crianças aprendem coisas da tribo e da cidade", afirma Eudoxio Camilo.
Esperto, Leonardo já sabe sobre sua origem e se orgulha de ser índio. Vestido para festa com os primos, ele conta que gosta muito das danças que aprende na aldeia e de correr livre por lá. "Tem uma dança que bate com os paus que acho muito legal".
Já os irmãos Isabele e Igor gostam de aprender a falar como os avós e parentes mais velhos. "Sei falar cachorro e outras palavras na língua dos Teruá", diz a menina.