Vazias. Esta é a melhor palavra para descrever o cenário encontrado na gibiteca e nas sete bibliotecas municipais que estão espalhadas pelos bairros de Bauru. Nestes espaços, milhares de livros alocados em dezenas de prateleiras reinam, silenciosos, à espera de visitantes ávidos por vasculhar cada uma de suas páginas em busca de conhecimento. Porém, os visitantes raramente aparecem e, quando aparecem, são velhos conhecidos.
O esvaziamento das bibliotecas municipais foi notado pela Secretária Municipal de Cultura (SMC) há alguns anos. Elson Reis, titular da pasta, aponta que a debandada geral de usuários aconteceu do dia para a noite e acredita que a mudança foi fruto de uma combinação de fatores que tem como personagem principal a internet.
O secretário, que trabalhou no local por muitos anos como diretor da divisão de bibliotecas, recorda que, até meados de 2005, as mesas e livros eram motivo de disputa entre os frequentadores da biblioteca.
"Tanto as bibliotecas quanto as ramais eram supermovimentadas. Muita gente vinha fazer pesquisa, emprestar livros e estudar aqui. A queda no movimento foi repentina", destaca.
Desde então, a SMC vem tentando reverter o quadro mas, até o momento, não obteve sucesso.
A principal mudança destacada por Elson está no perfil dos usuários do local, grupo que antes eram composto, em sua maioria, por estudantes em busca de material para pesquisa escolar. Segundo ele, parte deste público foi transferido para as bibliotecas escolares, que passaram a ser artigo obrigatório nas escolas da cidade. A outra parte aderiu à pesquisa em sites de busca.
"Atualmente, a Internet facilitou muito o trabalho dos estudantes. Antes eles precisavam encontrar o livro certo, buscar nele as informações, copiar à mão, e só depois montar o trabalho. Hoje é tudo instantâneo, pelo computador", compara.
A Internet também abocanhou uma grande parcela do grupo que costumava frequentar a biblioteca nas horas vagas. Neste caso, os livros de literatura e gibis foram trocados por jogos on-line, salas de bate-papo, informações instantâneas em sites de notícias e horas a fio destinadas às mídias sociais, como orkut, facebook e twitter, por exemplo.
Mas não é só da Internet a culpa pelo fato dos bauruenses terem deixado às moscas a biblioteca central e as ramais localizadas no Núcleo Presidente Geisel, Vila Falcão, Jardim Progresso, Vila Tecnológica, Jardim Ouro Verde e no distrito de Tibiriçá. A desatualização do acervo também contribuiu para o abandono.
De acordo com informações da própria SMC, há dois anos o município não realiza a compra de novos livros. O último pedido foi feito pela Biblioteca Central em setembro de 2009, mas até o momento os exemplares não foram adquiridos.
A justificativa para demora tem fundamentos burocráticos. Elson Reis explica que até pouco tempo os livros eram considerados patrimônio permantente do município, o que significa que, para adquiri-los, era preciso realizar licitação e pregão, para somente depois concluir a compra.
Neste compasso, best sellers como Crepúsculo e as últimas edições de Harry Potter ainda não figuram no acervo da biblioteca.
Ensaio de mudanças
Frente à debandada geral de usuários ocorridas na Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, no Centro, e nas seis ramais espalhadas pelos diversos bairros de Bauru, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) começa a ensaiar algumas mudanças. Com elas, o município pretende aumentar em 50% o número de usuários das bibliotecas até o fim do ano.
A primeira está nas formas de atrair e incentivar o público bauruense a frequentar as bibliotecas. Para isso, o município estabeleceu parceria com escolas da cidade e deu início ao projeto "Por dentro da biblioteca", que promove a visita de estudantes ao local todas as segundas-feiras.
Além disso, a divisão de bibliotecas também firmou parceria com a Universidade Estadual Paulista, que disponibiliza estudantes de artes e pedagogia para desenvolver oficinas culturais e literárias com os visitantes.
"É uma forma fácil e barata de atrair usuários para a biblioteca. Penso que com essa aproximação fica mais fácil despertar nas crianças e jovens o gosto pela leitura", explica Nilson Batista Junior, diretor da divisão de bibliotecas de Bauru.
Outra novidade é o plano anual de aquisição de livros, que pretende renovar com regularidade o acervo municipal. Para este ano o investimento previsto é de R$ 10 mil e corresponde a 121 novos títulos, que contabilizarão cerca de 250 exemplares. O problema é que os volumes ainda não tem data marcada para chegar à cidade.
Já a mudança mais ousada - o projeto Telecentro, que prevê a instalação de dez computadores em cada biblioteca - , deve ser desenvolvida em parceria com o governo federal.
A ideia é informatizar as bibliotecas e proporcionar aos seus frequentadores um ambiente interativo, onde possam aprender a usufruir do conteúdo dos livros e agregar informações com o uso da Internet.
De acordo com a SMC, os computadores já chegaram à cidade e o município já realizou parte da seleção dos monitores, mas ainda falta o governo federal encaminhar o mobiliário e a verba para o início das atividades.