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Caramujo agrava situação da dengue

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 6 min

Exóticos, invasores e aparentemente inofensivos. Os caramujos gigantes africanos não somente incomodam moradores que, muitas vezes, são surpreendidos pela visita nada agradável do molusco. Difíceis de serem eliminados, esta espécie, cujo nome científico é Achatina fulica, vai além de um problema ambiental, causando outros transtornos à comunidade.

Essa praga pode também contribuir para agravar a situação da dengue, passando a se tornar um entrave à saúde pública. E a forma incorreta de manusear esses caramujos de grande porte só piora o quadro da epidemia. Até ontem, a prefeitura contabilizou 1.896 pessoas infectadas pela doença em Bauru neste ano.

O molusco representa um perigo no combate à dengue porque carrega nas costas uma grande concha, que demora muito tempo para se degenerar quando ele morre. Assim, quando chove, a casca acumula água, servindo de criadouro para o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue.

"O caramujo fica um período de sua vida recluso em sua concha, principalmente em períodos de seca. Mas, em épocas chuvosas, ele sai para explorar o ambiente. Quando morre, a concha permanece no local, com grande possibilidade de virar criadouro para o mosquito da dengue", explica o biólogo da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) Anderson Lucindo.


Exemplos


Moradores residentes na quadra 14 da rua José Ferreira Marques, na Vila Universitária, podem servir de exemplos que ajudam a relacionar caramujos com a dengue. A vizinhança convive com três terrenos que apontam ser problemáticos. Neles, são avistados caramujos gigantes frequentemente.

Apesar de tentarem se livrar dos moluscos, que ficam ao meio do mato alto e muito entulho, três moradores da rua citada estão com suspeita de dengue, sendo que um deles já confirmou a doença por meio de exame.

"Há um certo tempo, o terreno ao lado da minha casa recebia manutenção, mas de uns tempos para cá, acabou ficando abandonado. Os caramujos acabam se disseminando facilmente", alega a aposentada Edimari da Silva Beteto, 62 anos, mostrando o recente exame do filho com a confirmação da doença.

O aposentado Antônio Lozano, de 80 anos, também suspeita que foi vitimado pelo mosquito Aedes aegypti. Ao lado da casa dele, que fica na quadra 14, há outro terreno, com mato bem alto, lixo e caramujos.

"Eu estou me sentindo fraco, tenho um pouco de febre e estou aguardando o resultado do exame, mas também suspeito que esteja com dengue", comentou. "Já matei vários caramujos, mas eles sempre aparecem. Fora que o pessoal joga lixo nos terrenos, não respeita", criticou.


? Serviço


Em casos de presença de caramujos em terrenos, faça a reclamação ao Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) pelo telefone (14) 3281-7034.


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Terrenos


Coletar alguns caramujos gigantes corretamente apenas ameniza a invasão desses moluscos. O combate à praga depende da limpeza correta de terrenos e da conscientização de toda a população. Assim, os responsáveis por terrenos particulares só reforçam o quadro de epidemia da dengue quando deixam de cumprir com a obrigatoriedade de manter a área do terreno limpa, que é de sua responsabilidade. E, mais uma vez, a população, quando deposita entulhos nos terrenos, agrava o cenário de abandono e acúmulo de lixo nessas áreas.

"Além de não ter predador natural, o caramujo africano se prolifera de maneira muito rápida, em lugares propícios, como terrenos baldios. A disposição de lixo também facilita a disseminação desses moluscos, já que eles se alimentam de resíduos orgânicos", alerta o biólogo da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) Anderson Lucindo.

Portanto, a melhor forma de combater a praga é cortando suas condições de procriação. "O caramujo, que é herbívoro, deposita seus ovos próximo aos alimentos, em vários tipos de vegetação, como folhas, mato ou verduras e também restos de alimentos. Ou seja, ele busca se reproduzir onde há condições favoráveis. Por isso, é preciso evitar lixo em terrenos e mato muito alto", enfatiza Anderson.

O ideal, dessa maneira, é que cada proprietário mantenha seu terreno limpo, carpindo o matagal periodicamente e depositando os caramujos através de luvas em sacos de lixo.

O chefe de seção do Centro de Controle de Zoonozes (CCZ), José Rodrigues Gonçalves Neto, concorda. "Os caramujos são encontrados mais facilmente em matagais. Muitos desses locais ficam abandonados, servindo não só para a infestação do caramujo, mas de baratas, ratos, escorpiões, cobras e acúmulo de entulho. Assim, os proprietários de terrenos particulares precisam ser responsabilizados", aponta.

Ele alega que a prefeitura recebe reclamações de terrenos baldios que acumulam mato e sujeira. Em meio a um total de cerca de 16 mil reclamações de toda natureza registradas pelo CCZ em 2010, 59 se referiram especificamente à presença de caramujos. Durante os 3 primeiros meses de 2011, foram registradas 27 reclamações dessa natureza.

Posteriormente às reclamações, a prefeitura realiza vistorias no local denunciado e, se constatar irregularidades quanto à limpeza, faz a notificação do responsável. "A partir daí, o proprietário tem um prazo de cerca de 15 dias para resolver o problema. Se não resolver, fica sujeito a receber penalidades, tais como multas, que vão de R$ 150,00 a R$ 3.500,00", explica José Rodrigues.

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Segundo CCZ, recolha manual do
molusco é melhor forma de controle


A morte natural dos caramujos invasores deixa no ambiente sua casca, ou concha, que acaba virando um verdadeiro entulho. Porém, a forma inadequada de combater esta praga pode contribuir ainda mais com a proliferação do Aedes aegypti. A maioria das pessoas, sem orientação, acaba destruindo os moluscos e jogando-os, com o caracol, nos matagais.

Dessa maneira, aumenta as chances das larvas se abrigarem nessas conchas. Ou, então, outros moradores decidem jogar produtos químicos sobre o molusco, que podem contaminar o meio ambiente.

Os procedimentos errôneos demonstram pouco entendimento quanto ao manuseio adequado dos caramujos. "A melhor forma de fazer o controle desse animal, que se reproduz com muita facilidade, é manualmente, mas tomando os devidos cuidados, já que a pele do animal pode conter certos tipos de vermes, causadores de doenças, tais como meningite e angiostrangilíase abdominal ", orienta o biólogo da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) Anderson Lucindo.

O chefe de seção do Centro de Controle de Zoonozes (CCZ), José Rodrigues Gonçalves Neto, que também é médico veterinário, recomenda os cuidados especiais no momento de manusear este molusco, por se tratar de um transmissor de parasitas.

"O CCZ orienta a população a fazer a catação desses moluscos com as mãos protegidas por luvas ou sacos plásticos, evitando assim o contato direto. Na verdade, não só o caramujo africano pode transmitir doenças, mas qualquer outra espécie de caramujo, já que o animal pode ter contato, no solo, com fezes e urina de animais", frisa José Rodrigues.

Este procedimento pode ser realizado nas primeiras horas da manhã ou à noite, horários em que os caramujos estão mais ativos. Períodos chuvosos também contribuem para que a praga saia de sua "casa". Durante o dia, geralmente, os caramujos africanos se escondem para se proteger do sol e calor.

Após fazer a recolha deles, o morador deve jogá-los em um saco de lixo e deixá-lo disponível para a coleta. "Assim, os animais vão ser recolhidos e destinados ao aterro sanitário, podendo ser compactados ou enterrados", completa o chefe do CCZ.

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