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A escola e o teatro

Ney Vilela
| Tempo de leitura: 2 min

As escolas, nos últimos trinta anos, adotaram a curiosa estratégia da "fuga para o fu-turo": incapazes de apresentar um conteúdo programático atraente e útil para os seus alu-nos, apostam na modernização tecnológica para "preparar" os jovens a viver no mundo moderno. As escolas instalam, num frenesi alucinante, estruturas informatizadas e estações multimídia, para garantir que os jovens possam se adaptar convenientemente ao mundo do amanhã. O problema, no entanto, é outro: os jovens sabem ? melhor até que os professores ? se conectar à Internet; o que eles não sabem é falar com seus vizinhos...

Não adianta superequipar as instituições escolares com televisores, consoles, suportes e teclados interativos, porque a melhor maneira de se preparar alguém para o futuro consiste em valorizar a comunicação direta. E, nesta situação, a primeira forma de representação e de distanciamento em relação à realidade, construída pela humanidade - o teatro - é muito mais eficiente. Os jovens não precisam de preceptores para utilizar as ferramentas de uma cultura de comunicação informatizada; eles precisam ter o que falar e saber se expressar diretamente. Tudo de que os jovens precisam, está no teatro: aprender a se expressar utilizando os seus corpos; respeitar as regras de encenação; inventar as convenções indispensáveis para qualquer atuação; aprender a falar em público; criar uma realidade a partir de uma ficção; aceitar o desafio do tempo real. Eis algumas experiências absolutamente indispensáveis e que transcendem as possibilidades da cultura da "cibersociedade".

Não há qualquer relação entre ser um craque da Internet, conectar-se em redes e ser capaz de falar em público, decorar um texto, encená-lo, provocar empatia, suscitar a adesão e, o mais importante, criar emoção. E tudo isto se constrói com convenções simples, multimilenares, que dizem respeito ao deslocamento de alguns indivíduos em um cenário, sobre um palco que não precisa ter mais do que 100m². As instituições escolares, em vez de investir gulosamente em complexos de técnicas sofisticadas e caras, fariam melhor em reconstruir teatros. Os parques multimídias enferrujam rapidamente, abandonados por crianças que possuem equipamentos mais modernos em suas casas (ou por crianças que não têm como usar equipamentos semelhantes, no seu dia a dia). A escola não existe para rivalizar com a modernidade, mas deve levar o jovem a outro mundo (discursivo, cognitivo, simbólico). A escola deveria preferir a alteridade ao mimetismo, porque as melhores lembranças que temos das aulas estão ligadas às descobertas que fizemos. Escolas que se preocupam apenas com técnicas são incapazes de preparar alguém para o mundo. Não é demasiado lembrar: Shakespeare é mais sábio que Mark Zuckerberg; Prometeu Acorrentado é mais interessante que qualquer manual de informática e Paulo Autran emociona mais do que um joystick.


O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

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