Nas últimas semanas, voltou à cena o assunto "Faculdade de Medicina" em Bauru, formando-se novamente uma verdadeira corrente em prol desse objetivo, que mais parece uma obsessão. Ser contrário à ideia chega a ser um sacrilégio, uma blasfêmia, uma falta de "bauruísmo" tamanha que ninguém até agora ousou criticar publicamente tal reivindicação. E tomem-se depoimentos de autoridades e lideranças das mais variadas matizes, algumas visivelmente constrangidas por se sentirem pressionadas a entrar nessa corrente pra frente.
O "apoio" do governador à ideia com certeza é uma manifestação do político-governador, mesmo assim muito vaga e escorregadia ? "vamos ver, depende mais do MEC" etc. ? que por certo não seria respaldada pelo médico-governador. O mesmo acontece com nosso representante na Assembleia Legislativa, que, pragmaticamente, deu seu aval ao pleito, deixando de lado, por certo, suas convicções de profissional da área.
E a classe médica bauruense como um todo, manifestou-se ou foi solicitada a fazê-lo em meio a esse "agora vai"? É claro que não. E se fosse ouvida, teria argumentos muito sólidos para não compartilhar dessa pretensa unanimidade. É, dirão alguns, mas eles estão defendendo seus interesses, temendo a concorrência futura. Pode ser que alguns realmente pensem assim, mas a grande maioria teria argumentos mais éticos, respaldados, inclusive, na posição oficial do Conselho Federal de Medicina, que é radicalmente contra a criação de novas faculdades no País. E mais ainda na região Sudeste. E muito mais no Estado de São Paulo, que já tem grande concentração desses profissionais, semelhante à verificada nos Estados Unidos ? 1 médico para pouco mais de 400 habitantes.
Na cidade de São Paulo tal índice iguala-se aos da Suécia, Alemanha e outros países superdesenvolvidos. Nas grandes cidades do Estado não deve ser muito diferente, mesmo naquelas desprovidas de uma faculdade de medicina, como a nossa. A que serviria, então, a criação de um curso de medicina em nossa cidade? Resolver o problema calamitoso da saúde pública em nosso município? É óbvio que não, como o Hospital Estadual não resolveu e a crise da AHB piorou ainda mais.
Talvez a mola propulsora desse movimento seja o provincianismo de nossa "elite", as picuinhas políticas de nossos representantes e suas batalhas incessantes por soluções equivocadas e inócuas, como o alvo paquiderme que repousa à margem da estrada do Rio Verde. Distantes apenas 100 km de duas das mais importantes faculdades de medicina do País, ambas instaladas em cidades menores que a nossa. Muito mais coerente seria orgulharmo-nos e valorizarmos nossas conquistas já consolidadas, como os câmpus da USP e da Unesp, o Centrinho, a USC e a ITE, que tantos profissionais brilhantes já nos deram nas mais diversas áreas do conhecimento.
Muito mais justo também, seria que os sempre escassos recursos destinados às universidades públicas, mesmo no Estado mais rico da Nação, fossem direcionados a regiões mais carentes e onde pudessem realmente fazer a diferença, como o Vale do Ribeira, por exemplo. Um pouco de altruísmo, de vez em quando, não faz mal a ninguém.
Luiz Alberto Coradi