"Comunicamos o falecimento do aluno Marcos Kazui M. Soga, 4 anos, da turma da professora Rose - Tarde". Foi com esse pequeno cartaz afixado no portão da creche municipal Gisele Marie Savi de Seixas Pinto que a morte da provável terceira vítima de dengue hemorrágica em Bauru foi informada aos moradores do Parque Viaduto. Ontem, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou, conforme o JC adiantou na edição de ontem, as duas primeiras vítimas fatais da doença na história do município.
O caso do garoto ainda não foi confirmado e está sob investigações técnicas da prefeitura. Entretanto, os sintomas são bastante compatíveis à dengue hemorrágica. Segundo a mãe de Marcos, Rosimeire Macedo Soga, 32 anos, o filho começou a sentir os primeiros sintomas no sábado.
"Ele brincou durante a manhã toda e, por volta das 16h, teve uma febre muito forte de mais ou menos 40 graus", conta. Então, ela levou Marcos ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI), onde ele foi medicado e liberado. "Já tinha suspeita de dengue, mas também tinha o de outras doenças, como meningite".
No domingo, Marcos teve uma melhora, porém, na segunda-feira, o quadro agravou bastante. De acordo com a mãe, ele vomitou várias vezes, teve diarreia e reclamava de muita dor no corpo - todos sintomas convergentes com os da dengue hemorrágica.
"Na noite de segunda, levamos ele no posto de saúde da Vila Falcão. De novo, ele foi medicado e liberado". Como o estado da criança não melhorava, na noite seguinte, eles resolveram chamar uma ambulância. "Ele já estava em estado grave. Só conseguia falar uma coisa para nós: ?água?", complementa a mãe, evidenciando mais um sintoma da dengue hemorrágica: sede exacerbada e boca seca.
Socorrido, Marcos Soga foi conduzido novamente à emergência do PAI. De lá, ele foi levado até a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Estadual (HE) na quarta-feira. "Ele só piorava. Quando estava internado, começou a aparecer os sangramentos no nariz e na boca. Ele tinha ainda uma mancha vermelha, como se fosse uma picada de mosquito, e estava com a barriga bem inchada", relembra Rosimeire, querendo esquecer.
Ainda segundo ela, na madrugada de ontem, o filho morreu. O resultado do exame confirmou que ele estava com dengue. O corpo foi velado no local onde a família reside, uma residência humilde na quadra 5 da rua Edilson Alves de Carvalho, no Jardim Vila Celina. Ainda no final da tarde de ontem, Marcos Kazui Macedo Soga foi sepultado no Cemitério Jardim Redentor.
Confirmação
Apesar de a causa da morte do garoto de 4 anos não ter sido confirmada como dengue hemorrágica, todos os indícios conduzem ao fato. O exame de laboratório do garoto já indicou que ele estava com dengue, porém, está sendo feito um estudo para comprovar que essa foi a causa circunstancial do óbito. Já em relação aos dois outros casos revelados pelo JC, a Secretaria de Saúde os confirmou no final tarde de ontem.
"Nos dois casos de adultos, foi feita a sorologia positiva para dengue, mas não era possível concluir definitivamente que os óbitos ocorreram por causa da dengue, o que foi investigado por meio da coleta do conjunto de informações médicas, para averiguar as circunstâncias dos óbitos, a classificação clínica e a eventual presença de condições agravantes (co-morbidades). Após a investigação ficou confirmado que os óbitos ocorreram por dengue hemorrágica", declarou, em nota oficial, o secretário de Saúde, Fernando Monti.
Ainda no mesmo comunicado, ele disse que o "o mesmo procedimento foi adotado em relação ao caso da criança", no qual "a sorologia foi positiva para a dengue, e o caso está sendo investigado".
Primeiras mortes
Com a confirmação emitida ontem pela secretaria municipal de Saúde, 2011 fica marcado como um triste ano na história bauruense. Foram as primeiras mortes causadas por dengue na cidade.
A primeira ocorrência foi registrada há exatamente 15 dias. A vítima era um homem adulto, morador da Vila Garcia, que esteve internado no Hospital Estadual (HE) do dia 14 até 21 do mês passado, quando morreu. Segundo o que a reportagem apurou, era um homem de 67 anos e a morte ocorreu durante a madrugada. O nome não foi divulgado.
O segundo óbito ocorreu esta semana. A comerciante de 47 anos Fátima Aparecida Pereira da Silva, moradora do bairro Pousada da Esperança 1, morreu anteontem no Hospital de Base (HB) depois de uma semana do aparecimento dos primeiros sintomas.
Hospital de Base
Ao contrário do que foi divulgado na edição de ontem, a comerciante de 47 anos Fátima Aparecida Pereira da Silva, segunda vítima de dengue hemorrágica em Bauru, não morreu no Hospital Estadual (HE). A paciente foi internada e morreu no Hospital de Base (HB).
Cuidados podem ajudar a barrar
o avanço da epidemia na cidade
Com a epidemia crescente, algumas estratégias podem ser seguidas pelos moradores. Uma delas são as velas, incensos e vaporizadores com essência de citronela, que são imbatíveis para ?espantar? o mosquito Aedes aegypti.
Outro ponto que pode ajudar no problema é a planta crotalária, que atrai muitas libélulas predadoras do mosquito transmissor. Desse modo, indica-se plantar citronelas e crotalárias em ambientes abertos como chácaras e cemitérios, evitando ecossistemas fechados.
Entretanto, ao mesmo tempo que ajudam, as plantas podem ser inimigas. Por isso é importante ter atenção redobrada com as bromélias. A planta necessita de água constantemente e, assim, o ideal é trocar essa água lavando a planta ao mesmo tempo com uma máquina de alta pressão ou mangueira que tenha um esguicho mais forte.
Outra medida ? essa menos usual ? é colocar borra de café no lugar de areia em pratos de vasos de plantas. Uma pesquisa feita na Universidade Estadual Paulista (Unesp) comprova que mata as larvas do mosquito. Entretanto, segundo Flávio Tadeu Salvador, diretor substituto do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru, essa não é a melhor indicação.
"Nós abolimos essa medida de colocar areia em pratos de vasos com plantas pelos seguintes motivos: o vaso é preto e dificulta ver as larvas, a areia também pode juntar água e acumular umidade, o que se torna o ambiente perfeito para o mosquito da dengue. Então, se a pessoa tem o prato em xaxim ou samambaia, nós recomendamos que eles sejam furados", completa.
Sem fim
E a epidemia, que só faz crescer, parece não ter fim. Ontem, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou o registro de mais 95 casos autóctones da doença na cidade. Assim, Bauru já totaliza agora 2.458 ocorrências, sendo 2.547 autóctones e seis importados.
Além de tomar medidas para evitar a proliferação do mosquito transmissor (veja quadro ao lado), a Secretaria de Saúde alerta para que todas as pessoas que voltarem de viagens ou mesmo as que permanecerem na cidade, ao apresentarem sintomas da doença, procurem pela Unidade Básica de Saúde mais próxima para realização dos exames e tratamento.
As equipes da Vigilância Ambiental permanecem com a operação Fura-prato em todas as regiões.
Mãe e avó também tiveram dengue
Marcos Kazui Soga morava com a mãe, a avó e mais três irmãos em uma casa bastante simples na Vila Jardim Celina. Bastante desolados com a morte do garoto de apenas 4 anos, eles fizeram outra constatação muito perturbadora: "a dengue está tomando conta de todo o bairro".
A mãe do menino, Rosimeire Soga, conta que, além de vários vizinhos, a família é um perfeito exemplo da epidemia. "Eu tive dengue há uns 20 dias. Fiquei bastante ruim".
Com 55 anos, a avó do garoto, Maria Aparecida Duarte Macedo, também foi atingida pela dengue. Os sintomas que ela apresentou 15 dias atrás foram ainda mais preocupantes, uma vez que convergem com a forma mais grave da doença. "Tive muita febre e dor no corpo. Era uma sensação terrível. Meu nariz ficou sangrando três dias. Fiz o exame e ele confirmou que eu estava doente. Foi Deus que me salvou", completa.
Segundo a família, as três outras crianças - com 5 meses, 5 anos e 7 anos de idade - também já apresentaram sinais da doença, porém, felizmente, não evoluíram. Livre mesmo da epidemia somente o pai de Marcos Soga. "Ele está no Japão há três anos. Já dei a notícia. Ele ficou muito abalado. A maior tristeza era não poder ver o filho antes de ser enterrado", conta Rosimeire, bastante desolada.