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Abuso contra criança: 1 a cada 4 dias

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

O corpo violado, a infância dilacerada, o silêncio perpetuado por anos, o medo. As marcas deixadas por abusos sexuais praticados contra crianças e adolescentes são muitas - e muitas vezes eternas -, mas este tipo de crime ainda está longe de ser erradicado da sociedade.

A cada quatro dias, em 2011, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru recebeu ao menos uma denúncia desta natureza, num total de 29 inquéritos instaurados até o mês passado. A média é a mesma registrada na cidade em anos passados, mas três vezes superior aos casos de abuso envolvendo adultos.

Atualmente, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) acompanha a superação do trauma de outros 63 menores violentados, ainda que seja incalculável a quantidade de ocorrências que permanece desconhecida, sob a égide do temor e da vergonha. Para lançar luz sobre o tema, neste mês a pasta realizará uma campanha de conscientização e estímulo à denúncia (leia mais abaixo).

Segundo a titular da Sebes, Darlene Tendolo, a maioria das vítimas tem até 12 anos e são oriundas de famílias de baixa renda, ainda que crianças e adolescentes cujos pais tenham melhores condições financeiras também sejam vítimas deste tipo de violência. "Os casos ocorridos no seio familiar da classe média e alta praticamente não chegam ao nosso conhecimento. A humilhação é muito grande e, como forma de tentar superar aquele constrangimento, elas acabam preferindo não se submeter a todo o processo judicial necessário", analisa.

Quase como uma regra, parentes ou pessoas próximas têm ciência ou fortes suspeitas de que a criança está sendo violentada, já que o abusador costuma ser alguém conhecido da família e abusar da vítima dentro do ambiente doméstico. "O agressor mais comum é o pai ou padrasto. Neste ano, o perfil dos autores foi este em praticamente todos os casos", aponta a delegada titular da DDM, Flávia Ueda.

Mas, mesmo quando a denúncia é feita, a investigação e a condenação do criminoso é um processo lento e nem sempre bem sucedido. Não há dados de quantas das notificações recebidas pela DDM acabaram em punição efetiva dos culpados, mas a delegada observa que os entraves para a comprovação do crime favorecem a liberdade dos agressores.

Esta situação ocorre porque as provas físicas, como as evidências de uma penetração forçada, por exemplo, nem sempre podem ser obtidas. "Normalmente, os casos acontecem quando a vítima está sozinha. Como não há testemunhas, temos apenas do depoimento da criança como prova, além de alguns laudos, caso haja lesões ou hematomas", argumenta a delegada.

Vítima aos 4


Como exemplo desta dificuldade em colocar o autor dos abusos atrás das grades, Darlene cita o caso de uma criança de apenas 4 anos que está sendo acompanhada pela rede de assistência da prefeitura. Ainda que todos os indícios levem a crer que ela tenha sofrido abuso, o suposto agressor ainda permanece nas ruas.

"Temos certeza de que ela está sendo vítima de violência. Mas não temos o flagrante ou provas concretas, porque a criança é muito pequena e os próprios pais tentam convencê-la de que não houve nada", completa.

Como agravante para a obtenção da materialidade do abuso, somam-se ainda a demora para o crime ser denunciado e o fato de a vítima, temerosa e em conflito psicológico, mudar sua versão do ocorrido após o primeiro depoimento prestado na delegacia.

Por esse motivo, embora as penas previstas sejam severas, a maioria dos agressores continua nas ruas. As vítimas, por sua vez, podem demorar anos até conseguirem retomar suas vidas. Pelo tempo prolongado ao qual geralmente permanecem submetidas aos abusos.

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Acompanhamento


Quando um caso de abuso chega ao conhecimento da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) ou da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), um profissional capacitado para lidar com o assunto visita a casa da vítima para verificar a veracidade da denúncia. Se constatada a procedência da violência, um boletim de ocorrência é registrado e, paralelamente às investigações, o atendimento no Centro de Referência Especializados da Assistência Social (Creas) é iniciado.

Em casos extremos, enquanto o agressor não for preso, a criança e a mãe podem ser abrigadas em instituições de acolhimento da cidade. "São casos, principalmente, quando o autor dos abusos é alguém que mora junto com a vítima, como o pai ou padrasto. O abrigamento, nestes casos, é necessário para cessar os abusos e livrar a vítima de pressões psicológicas que possam dificultar o processo de investigação", explica a titular da Sebes, Darlene Tendolo.

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Campanha


Na semana do dia 16 a 21 de maio, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) promove a Campanha de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, com parceria de diversas organizações, empresas e entidades de Bauru. O evento, que é realizado anualmente, contará com uma extensa programação em toda a rede de ensino e de assistência social do município.

Durante toda a semana, serão ministradas palestras para estudantes, professores, usuários e funcionários dos Centros de Referência da Assistência Social (Cras) e Centros de Referência Especializados da Assistência Social (Creas). No dia 18, também será promovida passeata no Calçadão da Batista de Carvalho com distribuição de panfletos e abordagens nas ruas em parceria com o Conselho Tutelar.

Já no dia 19, haverá ações informativas em parceria com a Defensoria Publica e, no dia 21, a Sebes realiza pit stops simultâneos em vários pontos da cidade para panfletagem junto aos motoristas, com apoio da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e Polícia Militar (PM).

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DDM terá sala especial
para receber as crianças


A partir desta quarta-feira, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru passa a contar com um novo espaço, especialmente pensado para receber crianças. Trata-se de uma sala dentro da unidade que funcionará como uma espécie de brinquedoteca, onde os pequenos poderão permanecer durante o tempo em que suas mães estiverem prestando depoimento.

O espaço, lúdico, também será usado para que as crianças possam relatar episódios de violência vividos por elas. A intenção é que a brinquedoteca proporcione maior conforto às crianças e faça com que elas se sintam mais à vontade para descrever detalhes de eventuais abusos sofridos, o que poderá facilitar o trabalho de investigação da polícia.

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Sebes destaca importância
de denunciar os casos


Para combater o abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes, a participação da população no enfrentamento do problema é fundamental. Por esse motivo, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) pede para que as pessoas que conheçam vítimas deste tipo de crime denunciem através do telefone (14) 3227-8624 ou (14) 3234-1090. A preservação da identidade do denunciante é garantida.

De acordo com a titular da Sebes, Darlene Tendolo, pais e educadores devem estar atentos à rotina de crianças e adolescentes, supervisionar o que elas fazem na Internet e verificar possíveis sinais de violência caso haja mudanças bruscas de comportamento. Se houver suspeitas de que possam estar sendo vítimas de abuso, o ideal é fazer a denúncia e incentivá-las a contar o que se passou sem externar julgamento, além de garantir proteção.

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O que é


O abuso sexual é toda situação em que uma criança ou adolescente é usado para satisfação sexual de pessoas mais velhas, com uso de poder, medo e coação do agressor sobre a vítima. Pode acontecer até mesmo sem que haja contato físico.

Desde agosto de 2009, formas de abuso sexual como sexo oral forçado e mesmo carícias praticadas mediante violência ou ameaça também passaram a ser considerados estupro. Antes, estupro era a violência sexual praticada contra mulher apenas quando havia "conjunção carnal".

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