Polícia

?Queremos trazê-los de volta à vida?

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 3 min

Para a titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, não é fácil se libertar do crack ou de outras substâncias. O tratamento e reinserção social de dependentes químicos dependem de uma luta diária, que exige esforços do poder público.

"Queremos trazer esse pessoal de volta a uma vida normal, ao cotidiano. Percebemos, durante as abordagens, que muitos deles já passaram por projetos da prefeitura. Mas a luta é diária para largar o vício", expôs Darlene.

"Não é uma tarefa fácil, tanto para os usuários quanto para o poder público. O dependente tem que desejar fazer um tratamento, tem que aceitar sair desta vida. O trabalho da Sebes no enfrentamento ao crack visa incentivar esses dependentes, mostrar a eles que é possível mudar de vida", ressaltou.

Conforme avalia, muitos dos dependentes fazem uso dos entorpecentes de forma coletiva e isso dificulta o distanciamento do vício.

"Alguns aqui já até passaram por comunidades terapêuticas, mas têm amigos que continuam a usar. Eles acabam se unindo e um estimulando o outro", enfatizou Darlene, que se mostrou preocupada com a nova droga, o oxi, que tem efeitos mais devastadores que o crack e já chegou em Bauru.

"É difícil parar. Eu frequentei uma comunidade terapêutica e até estou trabalhando de carteira assinada. Mas, às vezes, tenho recaída e dá vontade de usar o crack", disse M., um dos usuários atendidos pela Sebes encontrado na cracolândia na operação de ontem.

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?Gasto quase todo o meu dinheiro com crack?


P., de 27 anos, há dois anos é dependente químico de substâncias entorpecentes. Contorcendo-se todo, logo após ter feito uso do crack ontem, ele relatou ao JC um pouco de sua história.

"Comecei com bebida, depois conheci a maconha e experimentei o crack em seguida. Eu abandonei minha família", contou.

Apesar de já ter tentado tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD), P. diz que sente dificuldade em largar o vício. "Muitos julgam quem usa, acham que é vagabundo, que não tem vergonha na cara, mas é difícil se libertar da dependência da droga", comentou. "Fiz o tratamento no Caps-AD por um mês, mas achei fraco. Queria ir para um lugar longe daqui", disse.

P. faz trabalhos de limpeza ou como servente e toda semana aparece um "bico", conforme contou ele. Infelizmente, todo o "salário" vai logo embora. "Eu gastei quase R$ 100,00 em um só dia com pedras de crack. O dinheiro era do último trabalho que fiz. Só restou uns R$ 30,00", relatou.

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?Não conheço nada a não ser a cracolândia?


C., de 50 anos, contou à reportagem que foi abandonado quando criança pela família, que não conheceu até hoje e da qual não tem notícias. "Eu só me lembro que nasci na Febem. De lá eu saí com 17 anos e já virei usuário de drogas", contou.

Para alimentar o vício, C. admitiu que já praticou assaltos. "Depois dos 18 (anos) eu fiz um assalto seguido do outro. Praticava os crimes para manter o vício. Já estive preso e cerca de poucos dias saí. Desde então, eu moro aqui (na cracolândia), não conheço nada, só conheço aqui, que também é outra prisão. Mas recomeçar a vida com 50 anos? É difícil, desanima. Nem documento eu tenho", disse.

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?O crack é um refúgio para meus problemas?


B., de 52 anos, há três anos frequenta a cracolândia. Para ela, a droga é uma válvula de escape para problemas. Ela, que já tem uma filha casada, conta seu drama. "Eu sou usuária de crack e há três anos estou nessa vida. Quando não consigo resolver algo, recorro ao crack, ele é um refúgio para os meus problemas", contou. "Mas eu tenho controle. Não me distanciei da minha família, eles sabem que eu uso a droga só quando estou com problemas", relatou B. "O problema maior que eu enfrento é em relação a emprego. Não tem como eu arrumar, não consigo, mesmo com 22 anos de cozinheira", desabafou.

"Eu sinto depressão quando eu uso (o crack), mas é difícil de largar. Vicia, a química fica no sangue", comentou.

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