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Pesca e sensibilidade

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Eu sempre observava aquelas cenas típicas de domingo, na Vila Falcão, na Bela Vis-ta... e me batia um sentimento enorme de solidão, de fim, de alguma coisa que eu não sabia explicar. Agora eu vejo essas mesmas cenas e me identifico com elas. Aquela tranquilidade simples já me agrada e eu percebi que é desse tipo de coisa que vale à pena se aproximar na vida.

Um lugar simples e bonito que eu conheço é um pesqueiro que existe em Piratininga. Vou quase todo dia lá, depois do trabalho, mas não pesco nunca. Nunca pesquei. Eu só vou até lá e fico observando os pescadores. Descobri que a pesca é algo extremamente espirituoso. Tanto a profissional quanto a esportiva devem requerer uma alta dose de astúcia e sensibilidade.

Agora eu entendo por que aquelas pessoas conseguem passar tanto tempo paradas, em silêncio, à espera da mordida do peixe. Faz parte do desafio, é um momento importante do jogo.

Hoje em dia, quando o barulho é cultuado como símbolo de status e poder, descambando para toda sorte de demonstrações hedonistas e narcisistas, deveríamos aplaudir os pescadores, que se recolhem dentro de si próprios por longos momentos, à espera de um peixe perfeito.

Só um homem evoluído pode entender a dinâmica de uma pescaria. As estratégias do pescador para com o peixe exigem talentos que são importantes para um homem de negócios, um estadista e, por que não, um sedutor. É preciso esperar a hora, cansar o peixe, antever seus movimentos.

Outro esporte muito nobre é a equitação. Só se dá bem nesse esporte quem consegue a melhor comunicação com o cavalo. É preciso ser paciente, para identificar o momento de reclamar, de fazer carinho, de ser duro, de ser amável... é uma arte.

Prova disso é que o homem só chegou onde está por conta de sua relação com os cavalos. No passado, montar com maestria poderia ser uma garantia de vida.

A pesca também já garantiu a vida de muita gente, desde tempos imemoriais. As culturas de países como Irlanda e Grécia são especialmente impregnadas de tradições, mitos e costumes da pesca.

O trabalho mais perigoso que existe atualmente é ser pescador de crustáceos nas ilhas Aleutas, naquela ponta do Alasca. Pelo menos foi o que eu vi no canal 33.

O mar é tempestuoso e mata muitos pescadores, mas o salário é altíssimo. O pessoal já vai sabendo que pode morrer, mas que se não morrer, "encosta o burro na sombra". Eu só iria se não tivesse nada a perder.

Quando eu morava na praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, só comia peixe. Combinava com o ambiente e era muito barato. Os pescadores faziam arrastão na frente da minha casa e sobrava até camarão de graça depois.

Poderíamos nos esforçar para que a história e as tradições de nossas relações com os peixes fossem preservadas, colocadas em evidência, valorizadas. Uma vez, lá no sul, eu peguei um barco e fui até São José do Norte, do outro lado da saída da Lagoa dos Patos para o mar. É uma cidadezinha histórica isolada, cheia de pescadores. Eu tinha que fazer uma pesquisa sobre mitos e lendas dos pescadores para a aula de Antropologia. Falei com um monte deles e ninguém tinha lenda alguma para contar.

"-Aqui o negócio é o mar e o dia-a-dia", disse um deles no bar, em frente ao ancoradouro. Naquele momento, eu me dei conta de que a cultura da pesca é algo em extinção. E agora percebo que também é algo que deve ser admirado.

Obs: o parlamento de Uganda está votando, esta semana, uma lei que pune o homossexualismo com a pena de morte. Gostaria, portanto, de parabenizar nossos juízes do STF, que votaram a favor do ponto de vista dos homossexuais. Ao contrário do que muitos estão dizendo, não se trata de privilegiar os direitos de uma minoria sobre os direitos da maioria não homossexual. A lei não obriga ninguém a ser gay e nem destrói os fundamentos da família tradicional. Devemos ver o posicionamento do Poder Judiciário como um avanço da liberdade contra o pensamento reacionário. Esta é uma das raras oportunidades em que podemos ter orgulho das pessoas que decidem os rumos de nosso país.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião

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