Após iniciar uma troca de tiros com policiais militares na manhã de ontem, em Bauru, um rapaz de 17 anos morreu, no Jardim Solange. Ele foi atingido por dois tiros na região do abdome após ter disparado três vezes contra a polícia. Socorrido pela viatura da PM, morreu a caminho do Pronto-Socorro Central (PSC). O nome do rapaz está sendo preservado em respeito às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O confronto aconteceu por volta das 7h30, na quadra 1 da rua Major Pedro Júlio Oliveira. Segundo informações da polícia, várias denúncias anônimas indicavam o local como ponto de venda de drogas, especialmente crack. Mas a última delas preocupou ainda mais os policiais, pois indicava que o morador estava armado.
"(O caso) Passou a ser prioridade das equipes responsáveis por aquela área. Eles foram até o local e, depois de baterem à porta e avisarem que era a polícia, foram recebidos com tiros. O rapaz disparou três vezes, duas delas contra a porta de entrada da casa", diz o comandante da 3.ª Companhia da PM, capitão Renato Ramos.
As marcas de dois tiros feitos de dentro para fora da casa ficaram na porta de madeira surrada pelo tempo. Ela dava acesso a uma pequena sala que dividia espaço com a cozinha do imóvel onde estava o rapaz, onde tudo estava sobre o fogão. Restos de comida misturados a pacotes de salgadinhos vazios, pratos e copos sujos completavam a cena.
Foi nesse cenário, entre a porta do quarto e da sala/cozinha, que o rapaz foi atingido no abdome. Não morreu na hora. Foi desarmado e chegou a ser socorrido pela própria equipe da PM. Contudo, faleceu antes de receber atendimento médico.
Crack
Com uma ficha extensa no mundo do crime, o rapaz de 17 anos morto ontem foi mais uma vítima do crack. Usuário assumido da droga, segundo familiares, ele começou a traficar para sustentar o vício. Era filho de família humilde e largou os estudos após concluir a 7a série. Quando chegou em casa com uma arma foi repreendido, porém, não deu ouvidos ao pai, com quem vivia há sete meses.
"Ele morava com minha ex-mulher, mas ela não aguentou. Ele dava muito trabalho e ela tinha que cuidar das duas meninas também. Outro dia ele chegou com a arma aqui e nós discutimos muito. Eu fiz muitas tentativas de mudar a vida dele, mas ele não aceitou," lamentou o pai, cuja identidade também está sendo preservada.
Entre lágrimas, o pai afirmou que tinha avisado o filho várias vezes de que "essa vida marginal não levaria à coisa boa". "Eu saí para trabalhar e ele ficou dormindo. Eu sabia que ele usava droga, mas desconhecia que ele vendia. Queria arrumar um emprego para ele, ofereci a escola de informática, mas não deu certo."
Ainda segundo o pai, o rapaz esteve internado na Fundação Casa por 75 dias, mas não se recuperou. "Ele já tinha várias passagens pela polícia. Mentia muito. A gente nunca sabia quando ele estava falando verdade ou inventando uma nova história. A mãe dele tentou também ajudá-lo, mas não teve jeito", lamentou.
Amigos relatam envolvimento com drogas
O rapaz de 17 anos morto na manhã de ontem após iniciar uma troca de tiros com a PM tinha várias passagens por atos infracionais, como ameaça e lesão corporal. De acordo com o delegado plantonista da Polícia Civil Ronaldo Divino, a investigação sobre sua morte levará em conta a conclusão de laudos periciais e está sob responsabilidade da Delegacia de Investigações Gerais (DIG).
Dois amigos de infância do rapaz, que preferiram não se identificar, sabiam que ele era usuário de entorpecentes há algum tempo.
"Ele fazia uso de drogas já faz tempo e chegou a abandonar os estudos por causa disso. A gente tinha uma convivência normal com ele, era nosso amigão, uma pessoa muito ?gente boa?. Não ficamos sabendo se ele tinha envolvimento com tráfico", contaram os amigos.
A vizinhança, contudo, suspeitava de que o jovem fizesse tráfico de drogas. "Ele mudou com o pai para esta casa recentemente, não faz nem um ano que residiam por aqui. Apesar de não conhecer a família nem ele, eu sempre observei uma forte movimentação na casa", disse uma das vizinhas, que pediu para não ter seu nome divulgado.
"A gente sempre reparou que havia muita gente entrando e saindo da moradia onde o rapaz vivia, mas ele nunca causou problema com os vizinhos. Sábado passado vimos uma viatura da polícia encostar na casa dele, mas acho que não encontrou nada. Acho que desde este dia esse rapaz já estava sendo investigado", comentou outra moradora do Jardim Solange.
Armas e celulares
Quatro cômodos de alvenaria sem acabamento num terreno que abriga uma casa nos fundos. Poucos vizinhos em uma rua de terra com alguns buracos que dificultam o acesso. Assim é a casa onde tudo aconteceu na manhã de ontem, no Jardim Solange.
No quarto onde o rapaz dormia, havia uma cama de casal e roupas sujas espalhadas pelo chão. Entre o quarto e a sala que divide espaço com a cozinha, uma poça de sangue onde ele caiu, já baleado. No canto esquerdo da sala, o computador estava ligado. Após o rapaz ser encaminhado pela PM para o Pronto-Socorro Central, policiais entraram na residência. Encontraram uma arma aparentando ser artesanal, tipo garrucha, cinco celulares - cada um de uma marca -, 28 pedras de crack e munições calibre 38. Como a arma exigia um calibre maior, foi feita uma adaptação com fita isolante a fim de que a ?garrucha? pudesse ser usada.
A arma usada para os três disparos feitos contra os policiais foi apreendida. O revólver calibre 32 de numeração raspada, possivelmente era produto de furto ou roubo. A arma, com capacidade para seis tiros, tinha três cartuchos deflagrados.
Estresse extremo
Todo confronto gera estresse, e quando o policial percebe que sua vida está em risco, passa por um estresse extremo. "Todos são retirados da rua ao mesmo tempo em que é instaurado um inquérito policial. Após as exigências de praxe, como entrega da arma para a perícia etc, eles (os policiais envolvidos na ocorrência) passam por uma equipe de psicólogos que avalia a situação", explica o capitão Renato Ramos, comandante da 3.ª Companhia da Polícia Militar (PM).
Segundo ele, para essas situações os policiais são treinados pelo método Giraldi de preservação da vida. "No caso de hoje (ontem) eles usaram a experiência e as técnicas aprendidas. Infelizmente não houve negociação, porque foram recebidos a tiros." A avaliação psicológica vai determinar quanto tempo o policial envolvido em situações extremas pode ficar afastado do trabalho. "Todos sofrem um impacto psicológico muito grande nessas situações", diz Renato Ramos.