Um dos entorpecentes mais devastadores de que se tem conhecimento, o crack, mais uma vez foi responsável por uma tragédia familiar. Na tarde de ontem, Marcelo Luciano de Oliveira, 37 anos, tentou matar a própria mãe e o irmão mais novo com uma faca, após um acesso de fúria dentro de sua casa, no Jardim Progresso, em Bauru. O drama só não foi maior porque o caçula conseguiu imobilizar o agressor e impedir que alguém se ferisse com gravidade.
Oliveira foi preso em flagrante por dupla tentativa de homicídio e encaminhado à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e, ainda na noite de ontem, seria transferido ao Centro de Detenção Provisória (CDP) da cidade. Embora abalados, o irmão M.D.O., 33 anos e a mãe A.T.B., 57 anos - que terão apenas as iniciais dos nomes reveladas a pedido da família - passam bem.
Segundo o irmão, Oliveira é alcoólatra e, desde os 13 anos, tornou-se usuário de entorpecentes. Quando começou a fazer uso de crack, passou a sair periodicamente de casa para viver dias nas ruas. Ontem, por volta das 14h, mais uma vez ele cumpriu o ?ritual? e retornou para a residência, localizada na avenida Venício Gandolfi. Ao entrar no imóvel, exigiu que a mãe lhe servisse outra comida que não a preparada no horário do almoço.
Como a mulher negou-se a cozinhar novamente, Oliveira então pediu para que ela lhe desse dinheiro. Após nova negativa, pegou uma faca e começou a ameaçá-la de morte. "Ele pediu R$ 10,00 para comprar crack e ela não deu. Ele disse que ia ?tocar o terror? na casa, como sempre fala, nessa linguagem de bandido", comenta o irmão, que não mora com a mãe e não estava no imóvel quando a discussão teve início.
"Minha mãe conseguiu ligar para mim na hora em que ele disse que iria pegar uma faca na cozinha. Ele estava drogado. Eu fui para a casa dela correndo", relembra. Quando chegou, M.D.O. tentou conversar com Oliveira, mas ele também passou a ameaçá-lo de morte, dizendo que iria aproveitar para "acertar contas passadas".
O caçula, entretanto, conseguiu imobilizá-lo e tomar a faca de suas mãos. Posto para fora do imóvel, o agressor passou a esmurrar insistentemente o portão, quando a família acionou a Polícia Militar (PM). "Antes da polícia chegar, eu abri o portão para evitar o tumulto que ele estava causando lá fora. Foi quando ele veio para cima de mim com uma garrafa de vidro quebrada na mão, me chamando para a briga e dizendo que ia me matar", conta M.D.O.
Ficha extensa
A PM chegou e também teve alguma dificuldade para conter Oliveira, que avisou aos policiais que eles morreriam contaminados por seu sangue, numa referência de que seria soropositivo. O agressor foi levado à DDM, onde sua ficha criminal é extensa.
"Ainda que não tenha nenhuma condenação, ele está respondendo por uma série de crimes, entre agressão, ameaça, descumprimento de medida protetiva pedida pela ex-companheira, dano, invasão e furto", enumera a delegada Priscila Bianchini de Assunção Alferes.
Os boletins de ocorrência, entretanto, não registram as inúmeras agressões já sofridas pela mãe, que nunca teve coragem de denunciar o próprio filho. De acordo com o irmão, ela nem mesmo queria que Oliveira fosse preso ontem, após quase tê-la matado a facadas.
"Acho que, se ela pudesse escolher, ia preferir morrer a ver ele na cadeia. Ela nunca prestou queixa nenhuma, mas apanhava muito, tentava esconder os ferimentos de mim. Não dava mais para continuar do jeito que estava", observa o caçula.
Oliveira responderá inquérito por dupla tentativa de homicídio e, se condenado, poderá permanecer preso de 6 a 20 anos por cada um dos crimes cometidos. Pelo fato do assassinato não ter sido consumado, a pena, no entanto, poderá ser reduzida de um a dois terços do total.
Outro caso
Neste mês, esta é a segunda tentativa de homicídio envolvendo mãe e filho em Bauru. No último dia 12, Wilma Mariano Leite, 36 anos, golpeou o próprio filho, Wagner Vinícius Leite de Oliveira, 19 anos, no abdome, utilizando um facão.
A agressão teria sido resultado de uma briga familiar ocorrida na residência em que ambos viviam, na Vila São Paulo.
A mulher disse que agiu em legítima defesa e que vinha sendo agredida há algum tempo pelo filho, que é alcoólatra e estaria desempregado. A vítima foi medicada no Pronto-Socorro Central e, no mesmo dia, recebeu alta.