"Seo Tchitche", seo Chico - ou Primo -, era, na verdade, o bondoso e meigo senhor Francisco Biajoni, idoso sapateiro de fala mansa e macia que conheci quando moleque. Piracicabano, conterrâneo de meu pai, diziam-se primos em segundo grau e eram muito amigos. Em nossas famílias, todos eram primos ou primas, mas os dois patriarcas usavam mais o seu boca-de-burro, para eles um tratamento mais carinhoso.
Seu Tchitche tinha banco cativo na jardineira que demandava para Barracão e Araribá, por volta dos anos de 1950, e a garrafa era a sua companheira. Pescava no rio Batalha, trecho Cedro-Água do Paiol. E todos os sábados, às 14h, com sol ou chuva, nuvens negras ou ventania, ele a tomava, na avenida Pedro de Toledo. Infalível, ia sempre sozinho, escolhia uma turma e a acompanhava. Todos gostavam dele por seus modos educados, muito legal, ponderado. No lugar escolhido para acampamento, parava para um minuto de bate-papo, depois descia para o rio, dia ainda claro, e só aparecia na manhã seguinte.
Porém, pouco antes da meia-noite, já meio chumbado, começava com gemidos, que viravam gritos e pedidos de socorro, pois lobisomem, demônios e capetas rodeavam-no, prestes a atacá-lo. E gritava, enxotando-os energicamente.
Uma vez em que ele nos acompanhou, acampamos no pasto, acima do mato. Pouco depois desceu sozinho. Às tantas da noite, começou a gemer e a enxotar demônios, capetas e lobisomem e pedia ajuda, pelo amor de Deus. Seus gritos convincentes deixou-me nervoso e preocupado, pois eu desconhecia esse seu procedimento. Pedi que alguém me ajudasse a ir socorrê-lo. Os colegas riram e mandaram-me não ligar, pois era sempre assim, por causa da bebida. Será que só eu não sabia disso? Não me contive, e para acabar com a dúvida, peguei o gasômetro e fui procurá-lo. Encontrei-o cem metros rio abaixo, no escuro. Reconhecendo minha voz, implorava que eu, primo, o socorresse, por misericórdia. Tinha uma perna atolada num buraco com lama, à beira do rio, e a outra estirada sobre a água. A garrafa do lado. Segurava o caniço compenetrado na pesca, mas o anzol iscado estava dois metros acima do rio, enroscado em um galho. Livrei-o do buraco (ele bem que podia sair sozinho), acendi seu gasômetro e desenrosquei a linha. Não quis mudar de poço. Joguei seu anzol iscado na água e fui saindo. Ainda o vi, sentado no chão e "bicando" a garrafa. Depois ficou abençoando o primo de bom coração, todo choroso. Após meia hora de silêncio, começou um repeteco de "Piracicaba, que eu adoro tanto", que foi longe dentro da noite.
No acampamento, perto da fogueira, o sarro dos colegas. Não te falei? Se você for na onda do "Seu Tchitche" vai ter serviço o resto da noite e não pega um bagre. É sempre assim. Sorri e concordei, enquanto ele começava, de novo, a enxotar capetas e demônios. "Seu Tchitche", quem diria?... Aprendi!
Adalto Dias Giafferi Prado, é pescador e contador de histórias.