Nova York - O presidente americano, Barack Obama, defendeu ontem a criação de um Estado palestino com base nas fronteiras de antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967.
É a primeira vez que ele defende que as negociações de paz entre Israel e palestinos sejam realizadas sob esses termos.
Depois do conflito de 1967, Israel anexou Jerusalém Oriental, as colinas de Golã (reivindicadas pela Síria), a faixa de Gaza e a Cisjordânia.
O seu antecessor, George W. Bush, dizia que um retorno às fronteiras pré-1967 "não era realista??.
"Eu sei que esses passos sozinhos não vão resolver o conflito. Duas questões emocionais e dolorosas persistem: o futuro de Jerusalém e o destinos dos refugiados palestinos", disse Obama, em seu discurso mais abrangente sobre o Oriente Médio, depois da morte de Osama bin Laden e da queda dos governos da Tunísia e do Egito.
Para chegar a esse acordo, Israel terá que ceder o controle de Jerusalém Oriental e retirar os assentamentos na Cisjordânia.
A proposta de Obama aconteceu às vésperas do encontro dele na Casa Branca com o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que já rebateu, dizendo que ela deixaria setores da população "sem defesa??.
O presidente disse ainda que o compromisso dos EUA com a segurança israelense é "inabalável" e que os palestinos não conseguirão sua independência enquanto o Hamas (grupo que controla Gaza) não reconhecer o direito de Israel de existir.
Ele criticou também a proposta do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de levar a questão da criação do Estado para a Assembleia Geral da ONU, em setembro.
Síria
Obama também aumentou a pressão contra o governo sírio. Segundo ele, o ditador Bashar Assad deve liderar uma transição para a democracia ou "sair do caminho". Anteontem, os EUA já tinham congelado os ativos de Assad e de alguns dos seus principais assessores.
Para o americano, a Síria tem buscado a assistência do Irã nas "táticas de supressão" aos protestos da população por democracia.
Porém, sinalizou que os EUA ainda estão dispostos a dialogar com Assad caso ele negocie com a oposição.
O presidente defendeu a ação dos EUA e de países aliados na Líbia, onde havia "a perspectiva de um massacre iminente??.
Disse ainda que o ditador Muammar Gaddafi "inevitavelmente" vai deixar o cargo, que ocupa há quase 42 anos.
Em um momento inesperado, Obama criticou o Bahrein, aliado dos EUA no Oriente Médio e onde o governo local também tem respondido com violência aos protestos.
Porém, nem a Jordânia nem a Arábia Saudita (outros importantes aliados) foram mencionados.
Israel rejeita saída, e palestinos mostram ceticismo com fala
Jerusalém -O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse na véspera de uma viagem a Washington que a visão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de um Estado Palestino com as fronteiras de 1967 deixaria Israel "indefensável."
"A viabilidade de um Estado Palestino não pode vir em detrimento da existência de Israel", disse ele em nota oficial antes de voar para os Estados Unidos para um encontro com Obama.
Respondendo ao discurso de Obama, Netanyahu disse que ele espera que Washington permita ao país manter os principais assentamentos além das fronteiras de 1967 na ocupada Cisjordânia em qualquer acordo de paz com os palestinos.
Autoridades israelenses mostraram surpresa com o linguajar no discurso de Obama. Quando questionado se Netanyahu tinha sido informado de antemão do discurso, um diplomata disse: "Sem comentários." Alguns repórteres israelenses que acompanham o primeiro-ministro preveem um encontro tempestuoso.
Netanyahu disse que espera "ouvir a reafirmação do presidente Obama dos compromissos assumidos pelos EUA para Israel em 2004" - uma alusão à carta enviada pelo então presidente George W. Bush sugerindo que a nação judaica pudesse manter os blocos de assentamentos como parte de qualquer acordo de paz."Este compromisso está relacionado com Israel não precisar voltar para as fronteiras de 1967", acrescentou Netanyahu. Tal fronteira, disse Netanyahu, seria "indefensável."
Palestinos
Entre os palestinos, que recentemente fecharam um acordo de reconciliação entre suas duas principais facções, Fatah e Hamas, as reações foram de desconfiança.
Para o secular Fatah, que há 18 anos negocia com Israel, a menção às fronteiras de 1967 foi um avanço vago.
"Faltou dizer qual será o papel dos EUA para fazer com que Netanyahu aceite essa ideia", disse Nabil Shaat, um dos principais dirigentes do Fatah.
Abbas agradece
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, saudou os esforços de Obama para renovar as conversas de paz com Israel que entraram em colapso no ano passado e programou uma sessão "de emergência" de autoridades palestinas e árabes para definir os próximos passos, disse um assistente sênior.
Saeb Erekat, um ex-negociador chefe de paz, disse: "Abbas expressa o seu agradecimento pelos esforços contínuos feitos pelo presidente Obama com o objetivo de retomar as conversações na esperança de chegar a um acordo final."