Mais do que uma necessidade, o uso de calmantes como o clonazepam se transformou em moda. De certa forma e por motivo incógnito, ao longo dos últimos anos os transtornos psiquiátricos ? assim como os medicamentos desenvolvidos para combatê-los ? ganharam uma estranha aura de glamour.
No senso comum, qualquer tristeza temporária se transforma em depressão. E, diante de qualquer situação de ansiedade, sempre há algum ?amigo? por perto para receitar aquele remedinho milagroso. Há, inclusive, grupos que trocam ansiolíticos entre si.
"Quando um está sem, o outro empresta. Todos têm receita médica, mas nem sempre o remédio está à mão. Se alguém tem um pico de ansiedade e precisa, sempre tem um para ajudar", comenta uma jovem bauruense.
O público adulto com menos de 35 anos de idade, aliás, é crescente entre os usuários de clonazepam. Em redes virtuais de relacionamento, é possível encontrar centenas de alusões ao Rivotril, o ansiolítico tarja preta mais vendido no País.
Uma das páginas, por exemplo, conta com mais de 4 mil simpatizantes, a maioria deles jovens, que deixam registradas verdadeiras declarações de amor ao medicamento, referindo-se a ele como "pílula mágica", "gotas de paz", "mundo maravilhoso por um preço baixo" e "o melhor medicamento que poderiam ter inventado".
No mundo real, uma jornalista de Bauru, de 28 anos, que preferiu manter-se no anonimato, também conta que não vive sem o clonazepam. Hoje, ela se diz menos dependente, mas há dois anos precisava lançar mão do ansiolítico todas as noites para conseguir dormir.
"Por causa do estresse do dia a dia e das exigências profissionais, tive síndrome do pânico. Comecei a tomar antidepressivo junto com o clonazepam. Até hoje tomo, mas só uso o ansiolítico em situações de emergência", revela.
O recurso do medicamento, segundo a jornalista, é utilizado cerca de duas vezes por semana, numa dosagem considerada baixa, de 0,25 miligramas. "Uso quando sinto pânico para dirigir ou por estar em aglomerações. Já fui totalmente dependente mas, hoje, só o fato de saber que tenho o remédio guardado na bolsa, sempre à mão em qualquer evento ou ocasião, já me deixa mais tranqüila", justifica.
Dependência psicológica
De fato, mais do que o vício químico, o clonazepam provoca dependência psicológica, principalmente quando ministrado em baixas dosagens, segundo explica a psiquiatra Florance Kerr-Corrêa, professora do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. "Para muitos indivíduos, funciona como uma bengala. Se fica sem, é como se perdesse uma perna. A simples falta do medicamento já deixa a pessoa ansiosa e sintomas como insônia acabam sendo exacerbados", afirma.
Mas especialistas revelam que a popularização do clonazepam entre grupos mais jovens é uma realidade recente. Até há alguns anos, principalmente mulheres entre 45 e 65 anos com um balanço de vida afetiva ou profissional negativo eram as amigas íntimas do ansiolítico.
"Este perfil ainda é o mais comum, embora homens e jovens também usem. Na verdade, os médicos acabam prescrevendo mais para as mulheres de meia idade porque entendem que, para elas, é mais difícil pensar a vida sem o medicamento", observa a psiquiatra.
A psicóloga Vera Lúcia de Paula Rodrigues, diretora da Divisão Municipal de Saúde Mental, comenta que, na rede pública, não é raro encontrar mulheres de idade mais avançada que passaram toda a vida à base de clonazepam. Elas costumam ir às unidades básicas de saúde quando o remédio acaba e o único objetivo é sair da consulta médica com uma nova receita.
Quando o grau de dependência alcança este estágio, a suspensão do uso do ansiolítico ? ainda que recomendada - torna-se uma tarefa quase impossível. "São senhoras que tomam benzodiazepínicos (classe a qual pertence o clonazepam) há mais de 30 anos e chegam às unidades dizendo que vieram buscar a receita. Nestes casos, a dificuldade para fazer o desmame desta medicação é bastante grande", confirma.
Se usado adequadamente, o clonazepam não é vilão
Quando os critérios para sua utilização são respeitados, o clonazepam pode ser bastante eficaz no tratamento da ansiedade generalizada, situação em que o paciente dorme mal e se sente angustiado, preocupado, nervoso e irritado. Nesses casos, no entanto, o remédio, sozinho, não resolve o problema.
O tratamento depende também da associação de outros recursos, como antidepressivos, psicoterapia e atividade física. O mesmo vale para o tratamento de doenças como síndrome do pânico, fobias e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
"Como monoterapia, o clonazepam é útil apenas para aplacar ansiedades episódicas, como alguém que precisa viajar de avião e tem medo. Para tratamento de quadros mais graves, precisa quase sempre ser associado a outros medicamentos, mas por tempo determinado", considera o psiquiatra Evandro Luís Pampani Borgo.
O médico explica que os antidepressivos demoram alguns dias até começar a agir, enquanto o clonazepam tem efeito imediato. Por este motivo, sua principal função é ser uma ponte temporária até o início da ação, no sistema nervoso, dos medicamentos contra a depressão.
Mas, por causarem dependência, os ansiolíticos não devem ser ingeridos por períodos prolongados e sem o rigoroso acompanhamento médico. O vício, segundo estimativas, pode se instalar a partir dos seis meses de uso.
Se a ingestão for prolongada e em doses elevadas, a interrupção brusca pode provocar crises de abstinência, com sintomas que vão desde insônia, irritabilidade excessiva, tremores e alucinações. "Depois de alguns dias, a pessoa pode sofrer até mesmo convulsões", completa a psiquiatra Florance Kerr-Corrêa, professora do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.
Ansiedade e tristeza ?do bem?
Por trás do aumento galopante nas vendas de clonazepam está a crescente incapacidade das pessoas ? e até dos próprios médicos ? em lidar com um dos sentimentos mais inerentes ao ser humano: a ansiedade. Embora desagradável, ela funciona como instrumento de auto-proteção ou de motivação para enfrentar temores e ameaças.
"O contrário da ansiedade é a apatia. A ansiedade é importante para a vida e só é considerada patológica quando paralisa, causando um sofrimento que impede a pessoa de executar suas tarefas cotidianas", considera a psiquiatra Florance Kerr-Corrêa, professora do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.
Mas, diante das pressões e da competitividade do mundo contemporâneo, emoções normais e importantes para a mente, como tristeza ou mesmo a ansiedade, são eliminadas porque incomodam ou atrapalham a produtividade. Neste contexto, o clonazepam funciona como uma solução imediata para os problemas.
"Antigamente, as pessoas se permitiam sentir dor. Uma viúva, por exemplo, passava meses vestida de preto para elaborar seu luto. Hoje, o mundo imediatista não permite mais às pessoas viver o fracasso ou a espera. Elas simplesmente tomam remédios", destaca a psicóloga Vera Lúcia de Paula Rodrigues, diretora da Divisão Municipal de Saúde Mental.
Doenças mascaradas
O uso indiscriminado e prolongado do clonazepam não representa riscos apenas pelo vício que provoca, mas também por poder mascarar doenças psíquicas graves como a esquizofrenia e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Sem o diagnóstico correto e com os sintomas minimizados pela ação do remédio, o paciente certamente irá retardar a procura pelo tratamento adequado.
Para a psicanalista Luciana Guareschi, o ansiolítico não tem poder de cura e apenas resolve, de maneira paliativa, os sintomas imediatos do paciente. "Só que, se usado por períodos prolongados, eles não surtem mais o mesmo efeito e os sintomas voltam a aparecer, mas de maneira mais intensa. Se a pessoa tinha fobia, passa a ter pânico. Se tinha pânico, passa a ter anorexia", observa.
Atendimento de saúde precário
incide na indicação excessiva
Outro motivo que leva à indicação excessiva de clonazepam é a precariedade do atendimento de saúde, sobretudo na área mental. Há falta de psiquiatras no país, assim como de ambulatórios e leitos hospitalares nesta especialidade.
Os médicos formados, segundo apontam especialistas consultados pelo JC, nem sempre estão preparados para tratar os pacientes de maneira holística e atacam os problemas relatados por eles apenas pontualmente. Sem o diagnóstico correto, os indivíduos, consequentemente, acabam não recebendo o tratamento adequado para suas mazelas.
"Existe uma dificuldade de escuta por parte dos profissionais porque a medicina atual não os treina para isso. O tratamento dado ao paciente é dissociativo, fragmentado e, normalmente, restrito à prescrição de remédios. Diante de uma demanda excessiva, a solução mais fácil é dar uma receita", avalia a psicóloga Vera Lúcia de Paula Rodrigues, diretora da Divisão Municipal de Saúde Mental.
Quando o paciente chega ao consultório com enxaqueca, gastrite, taquicardia, dores musculares ou qualquer outra queixa que possa ter alguma relação com ansiedade, frequentemente recebe uma receita de clonazepam. Mas nem sempre é um psiquiatra que a prescreve. O JC, ao longo da semana passada, recebeu relatos de pacientes que obtiveram o ansiolítico com cardiologistas, ortopedistas e até mesmo endocrinologistas.
"Ginecologista, dermatologista, qualquer especialidade médica, hoje em dia, receita este tipo de medicamento, o que não deveria acontecer. O grande problema é que a indústria farmacêutica influencia muito no que os médicos vão prescrever para seus pacientes", argumenta a psicanalista Luciana Guareschi.