Ciências

Que castrem ou vacinem o mosquito!?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Encantado o amigo relata que no charmoso interior da Europa encontrou uma cidadezinha florida e organizada que logo na entrada exibia uma charmosa placa com os dizeres: esta cidade é limpa porque não sujamos.

Uau! Que exemplo. Já pensou casas sem criadores de mosquito da dengue? E se as prefeituras limpassem os logradouros públicos como ruas, parques e jardins! Imaginem as empresas e condomínios controlando os espaços com organização, limpeza e higiene. Sem essa cultura não teremos uma cidade limpa.

Faça um exercício: caminhe cinco quadras ao redor de sua casa, não importa o bairro ou cidade. Fique atento e tenha olhar fotográfico. As ruas são sujas; perceba o que têm sobre o piso das calçadas, no pavimento das ruas, nas cantos dos muros, no interior dos terrenos, nos jardins e quintais das casas. A sujeira impera absoluta! A entrada social das casas, apartamentos, condomínios, supermercados, shoppings, igrejas e órgãos públicos deveria ser pelos fundos, quintais, depósitos ou áreas de serviços. Quem sabe seria diferente.

O vento leva e trás minúsculas partículas e formas visíveis e invisíveis de vida como carrapatos, pulgas, muitos insetos, parasitas, fungos, bactérias e vírus. Tocamos, respiramos e comemos tudo isto e quanto mais contatamos estas partículas, maior a chance de doenças e suas conseqüências. É impossível nos livrar destas partículas, mas em ambientes sujos estão em maior número e variedade. O vento acaricia sua pele, o ar leva a energia do oxigênio e o alimento mata sua fome, mas têm partículas nocivas e a quantidade depende de nós.

No corpo temos 100 trilhões de bactérias, por mais limpo que sejamos. Alguns ficam preocupados pois sem o contato com a sujeira não se desenvolveria a imunidade natural. Despreocupem-se, temos ainda outros trilhões de vírus, fungos e parasitas como parte de microbiotas das cavidades naturais, mucosas, pele, cabelos e unhas. Não precisamos de ambientes sujos para se desenvolver imunidades naturais.

Enquanto não podemos sonhar com a cidade limpa, a ciência procura nos ajudar a se livrar de alguns inconvenientes como a dengue. Já que não conseguimos eliminar os criadouros por falta de vontade individual e coletiva, poderemos "castrar"o mosquito da dengue e deixá-los estéreis ou inférteis.

Na Universidade de Queensland na Austrália, os pesquisadores liderados pelo geneticista Scott O?Neill desenvolveram um método para controlar a dengue que já chegou para valer nos EUA. Em laboratório criam o Aedes aegypti e coletam seus ovos para inocularem a bactéria Wolbachia pipientis. Esta bactéria é inofensiva para os humanos, mas quando infecta o mosquito o deixa imune ao vírus da família Flaviviridae, o agente da dengue que transmite para o homem. Todos os mosquitos gerados a partir de ovos vacinados pela inoculação desta bactéria transmitem a imunidade adquirida para todos os seus descendentes.

Embora possa parecer cena de filme, agentes de saúde soltam 40 mosquitos imunizados contra o vírus da dengue a cada 4 casas de bairros da cidade, o que corresponde a 6 mil insetos por semana. Os mosquitos imunizados pela bactéria cruzam com os que ainda não estão imunizados no ambiente natural. Depois de alguns meses quase todos os mosquitos filhos descendentes adquirem imunidade ao agente da dengue. Os resultados preliminares são promissores. O procedimento será repetido em outros países a começar pelo Vietnã.

Em Oxford, na Inglaterra, os cientistas da empresa Oxitec modificaram geneticamente os mosquitos machos da dengue deixando-os estéreis ou inférteis diminuindo em grande escala a população de insetos causadores da doença. Em uma das ilhas Cayman no Caribe liberaram mais de 3 milhões de mosquitos inférteis ou "castrados" e o cientista Luke Alphey relata que houve uma redução de 80% na quantidade de Aedes aegypti. Apesar dos benefícios alguns grupos estão preocupados com os efeitos colaterais desta modificação genética no ecossistema. A empresa e cientistas estão negociando para realizar testes no Brasil, Malásia e Panamá: se em sua cidade ou bairro soltassem estes mosquitos castrados geneticamente, você ficaria preocupado ou preferiria o risco de contrair a dengue?

Se um destes dois métodos funcionarem ficaremos livres da dengue mas, infelizmente, continuaremos com ruas, terrenos, logradouros, praças e terrenos mal cuidados e poderemos colocar uma placa em cada entrada: esta cidade não é limpa porque sujamos e nem limpamos. q

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