No livro "Era dos Extremos", o historiador Eric Hobsbawm escreveu sua interpretação da história do século XX, de um modo extremamente profundo e encantador. Hobsbawm tem uma teoria interessante sobre a Segunda Guerra Mundial. Ele pensa que a guerra não pode ser entendida simplesmente como a luta entre os Aliados e o Eixo. Deve ser vista como a luta entre a visão de mundo inaugurada pela Revolução Francesa e a visão dos que reagiram a esse mundo após a catástrofe da Primeira Guerra - e após a Revolução Russa de outubro de 1917.
O pensamento reacionário culpou a nova visão liberal do mundo - a democracia, a ciência e a razão - por ter desenvolvido o ambiente propício para a revolução industrial e, consequentemente, para a revolução dos proletários. Segundo os reacionários, a revolução industrial permitira a fabricação dos armamentos modernos, que foram responsáveis pela destruição sem precedentes da Primeira Guerra.
A reação ao progresso e à modernidade tinha bons argumentos. Os países que detinham o discurso ideológico liberal não agiam de acordo com seu discurso fora de suas fronteiras. Com o desejo de enriquecer rapidamente com a novidade industrial, a burguesia e os governos dos países do Atlântico Norte tomaram a maior parte do mundo como colônias e subjugaram uma imensa porção da humanidade, tornando-a serva de seus interesses.
O medo de que os ideais da revolução russa se espalhassem mergulhou quase toda Europa numa onda de regimes ditatoriais de direita, que prometiam um "novo" mundo, sem os problemas que o século XIX trouxe. Para isso, alguns desses regimes recorreram à limpeza étnica e à tentativa de exterminar populações inteiras.
Hobsbawm vai mais além em sua análise. Segundo ele, os dois pensamentos que disputaram a guerra - o do progresso e o da reação ao progresso - eram visões de mundo que norteavam vidas em todos os países presentes no conflito mundial. Ou seja, o pensamento progressista não era exclusivo dos Aliados e nem o reacionário, exclusivo do Eixo.
Quando falo disso em aula, projeto no telão uma foto de um desfile da Klu Klux Klã, em frente ao Congresso dos Estados Unidos, na época da guerra. Também mostro a foto de uma capa da revista Time de 1939, em que aparece um Hitler festejado como o "Homem do Ano" anterior. Lembro, também, que Winston Churchill- o grande líder do "mundo livre" anti-fascista - declarou, antes de a guerra começar, que Mussolini fizera um bom trabalho na Itália, detendo o forte partido comunista italiano.
É interessante como, mesmo depois de tanto tempo, convivemos com as mesmas duas visões de mundo, que ainda se embatem na disputa sobre romper ou não as fronteiras dos conceitos que mantêm a sociedade como ela é.
E é incrível como geralmente é simples definir qual é o lado do progresso em questões como a união homoafetiva, o desarmamento, a pena de morte, a redução da maioridade penal, a reforma agrária (apesar da politicagem nociva no MST) e as cotas para pessoas negras nas universidades públicas. É fácil saber de que lado está o pensamento racional, científico e liberal; e onde está o pensamento reacionário. Concordo que é difícil manter-se sempre do lado do progresso, pois todos temos um pouco de reacionários em nosso espírito. Mas uma pessoa esclarecida sabe que o certo a fazer é, pelo menos, perseguir o progresso.
Quando se persegue uma visão de mundo progressista, o outro e sua vontade devem ser sempre levados em consideração, mesmo que tenhamos, sim, que voltar aos nossos princípios e começar tudo de novo. É uma questão de humildade - de uma humildade racional -, que nada tem a ver com aquela humildade que os jogadores de futebol e as celebridades dizem ter.
Na verdade, trata-se de uma questão de inteligência. Pois pensar assim é perceber que, a longo prazo, o mundo será melhor quando todas as bandeiras tiverem sido desfraldadas e todas as pessoas viverem do modo que bem entenderem, respeitando o limite que a existência do próximo impõe.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador do Opinião