Sem dispor de materiais básicos como gaze, luvas e máscaras, o Hospital de Base (HB) de Bauru suspendeu todas as cirurgias agendadas na unidade para esta semana. Apenas operações de urgência e emergência estão mantidas. Quem depende do procedimento, mas não corre risco de morte iminente, terá de aguardar por tempo indeterminado.
A decisão tomada pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB) escancara, mais uma vez, a grave crise financeira vivida pela entidade, que administra o HB e a Maternidade Santa Isabel. Por falta de repasses extras por parte do governo do Estado, os procedimentos eletivos tiveram de ser desmarcados para garantir a manutenção do atendimento de urgência ao menos até o fim do mês.
"Se o hospital continuasse a trabalhar em sua capacidade máxima, a partir do dia 28 ficaríamos sem estoque de alguns insumos e teríamos de deixar de receber também os pacientes que não podem esperar por atendimento", afirma o presidente do conselho técnico de intervenção da AHB, Aparecido Donizeti Agostinho. De acordo com ele, a suspensão das cirurgias eletivas foi uma medida preventiva para garantir uma "sobra" maior de materiais e evitar que o HB paralise por completo suas atividades.
O presidente explica que as 11 operações cirúrgicas previamente agendadas foram desmarcadas ainda na semana passada para evitar transtornos a pacientes que viessem ser avisados na última hora sobre o cancelamento. A estimativa, entretanto, é de que outras 70 operações que poderiam ser agendadas ao longo desta semana deixem de ser realizadas em áreas como cardiologia, cardiocirurgia, urologia, cirurgia de cabeça e pescoço, ginecologia, bucomaxilo e ortopedia.
"O cancelamento será feito semanalmente. Caso tenhamos uma manifestação do Estado, esperamos voltar à normalidade já a partir da semana que vem. Sabemos e contamos com o compromisso da Secretaria (de Estado da Saúde) de não deixar o hospital fechar, mas ainda não tivemos nenhuma resposta", considera Agostinho.
De acordo com a diretora Regional de Saúde de Bauru, Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira, o Estado irá repassar R$ 1,6 milhão à AHB até o dia 31 de maio. Este seria o valor mensal necessário para manter o hospital em condições mínimas de funcionamento, conforme apontado por consultoria realizada por equipe da própria Secretaria de Estado da Saúde entre março e abril deste ano.
O último repasse extra, de R$ 3 milhões, teria sido remetido à associação em fevereiro deste ano e foi suficiente para sustentar os atendimentos sem interrupções até a semana passada. Segundo Agostinho, a secretaria já teria sido informada de que, a partir do próximo mês, a falta de recursos financeiros do hospital também poderá comprometer o atendimento de urgência da unidade.
"Estamos com baixos estoques de todos os materiais, desde luvas, gaze, máscaras, próteses, órteses e medicamentos. Nós trabalhamos com um orçamento bem restrito e tínhamos a expectativa de que esta situação se resolvesse até abril. Infelizmente, não temos mais condições de nos manter", destaca.
Em visita ao Jornal da Cidade, Doroti garantiu um novo repasse até o final de maio e lamentou a decisão da AHB, lembrando que o Estado nunca deixou de socorrer o HB. Também salientou que a associação não depende apenas da secretaria para sobreviver, já que recebe mensalmente cerca de R$ 3,7 milhões provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e de outros convênios. Entretanto, as despesas da entidade somam R$ 5,5 milhões ao mês.
"O hospital não vive apenas dos nossos aportes. A associação tem o direito de se precaver, mas trabalhamos em parceria e precisamos que este pacto funcione diante de situações imprevistas. Mas não é o que está acontecendo", argumenta, dizendo lamentar o prejuízo que a suspensão das cirurgias causará à população.
Maternidade
Além da falta de recursos para manter o Hospital de Base, a AHB tenta evitar que os pediatras da Maternidade Santa Isabel, a única que atende pacientes pelo SUS na região de Bauru, paralisem suas atividades no próximo mês. Sob ameaça de suspender o atendimento, os profissionais cobram a contratação de novos médicos para completar as escalas de plantões.
A falta de médicos estaria gerando "janelas" constantes nas escalas e, não raro, os plantonistas estariam estendendo sua jornada de trabalho. Ainda que a remuneração não fosse um problema, a informação é de que a AHB teria oferecido aumento para convencer os profissionais a permanecer na maternidade até que a contratação de médicos for possível.
"Temos uma dificuldade muito grande em encontrar profissionais qualificados (para trabalhar nas UTIs da maternidade), mas esperamos conseguir resolver temporariamente o problema ainda nesta semana. As negociações estão adiantadas", disse o presidente do conselho técnico de intervenção da AHB, Aparecido Agostinho.