São cerca de 15 horas de viagem divididas entre ônibus, avião, barco e automóvel. Na bagagem, em meio a equipamentos cirúrgicos, roupas, objetos pessoais e brinquedos, vão o objetivo e o sonho de construir sorrisos nos rostos de crianças e adultos do Estado do Amazonas. É assim que a "Missão Fala Sorriso" se prepara e segue, duas vezes ao ano, para a cidade de Careiro Castanho, onde realiza cirurgias labiopalatais na população carente da região
Tudo começou em 2008 quando o cirurgião plástico Antônio Assunção decidiu colocar em prática o velho sonho do trabalho filantrópico. Durante a consulta em uma paciente portuguesa, membro da Organização das Nações Unidas (ONU), o médico se prontificou a operar pacientes angolanos em seu país de origem, ação que ficou para trás depois que a voluntária da ONU encontrou médicos dispostos a fazer as cirurgias na própria Angola. Porém, o desejo em realizar um trabalho voluntário não se aquietou.
"Trabalhei por 20 anos no serviço público tratando de fissura labiopalatal e, quando pedi demissão, senti-me mais livre e com tempo para fazer trabalhos filantrópicos. Porém, não sabia por onde começar", conta Assunção. Semanas depois da consulta e depois de saber da disposição do cirurgião plástico, a voluntária da ONU mandou um e-mail ao médico com o contato de um pastor de uma igreja evangélica no Estado do Amazonas. E assim, a saga do cirurgião plástico deu seus primeiros passos.
Por trás dessa atitude voluntária há, para o cirurgião, um sentimento de gratidão pelo seu sucesso profissional. Por outro lado, o patriotismo também se faz presente com o intuito de proteger a Amazônia que, na opinião do "médico sem fronteira" está, em muitos aspectos, abandonada.
"Fiquei sabendo que os americanos estavam por lá realizando trabalhos filantrópicos, mas filantrópicos entre aspas, já que havia apenas um profissional sênior, enquanto os outros eram residentes. Em uma das minhas conversas com um vereador de Manaus, fiquei sabendo que um médico argentino, que integrava esse grupo americano, foi impedido de operar depois de destruir o terceiro palado. Nos Estados Unidos nós não podemos sequer aplicar uma injeção sem fazer um batalhão de exames e, enquanto isso, eles vêm fazer "experiências" em nossos compatriotas pobres. Com o palato destruído, a pessoa nunca mais fala normalmente e a autoestima fica muito abalada. Temos conhecimento para fazer essas cirurgias e decidi que não podia ficar de braços cruzados assistindo a espetáculos horrendos."
Anori
Com objetivos traçados, o cirurgião plástico, uma enfermeira e uma instrumentadora foram para o município de Anori, a 24 horas de barco de Manaus. "Fomos apenas em três porque a igreja com a qual fizemos contato se encarregou de fornecer o local para operarmos, um anestesista e todo o material anestésico necessário", lembra Assunção.
Porém, ao chegar em Anori, veio a primeira surpresa desagradável: a unidade de saúde não era um hospital e sim uma unidade mista sem as condições para a realização de uma cirurgia. Não havia os equipamentos necessários, médico anestesista ou mesmo as drogas anestésicas. "Voltamos frustrados a Bauru, mas com o objetivo ainda vivo".
?A beleza do lugar é surpreendente?, diz cirurgião
A "Missão Fala-Sorriso" voltou da última viagem a Careiro Castanho há cerca de 20 dias. Como na região em questão os rios são as estradas, eles têm momentos de beleza indescritível durante o percurso (veja o trajeto percorrido pela equipe no quadro ao lado). O hotel em que se hospedam por dez dias, duas vezes ao ano, embora apresente acomodações simples e muitos insetos, tem a floresta amazônica como vizinhança.
"Somos acordados com uma sinfonia de pássaros e vamos dormir com o coaxar de sapos e rãs, coisas que eu adoro. A comida é bem simples e caseira, mas tudo bem feito e gostoso e a natureza é de encher os olhos", diz, encantado, o médico Antônio Assunção, que afirma se sentir realizado e bem mais próximo da medicina com o trabalho filantrópico realizado no Amazonas.
E como não podia deixar de ser, os insetos e os animais fazem parte das muitas histórias que a "equipe sem fronteiras" tem a contar. Antes de começar a operar, por exemplo, o grupo precisa "caçar" os pernilongos da sala com raquetes elétricas. "Isso sem falar na grande quantidade de rãs. Outro dia, nossa instrumentadora levou um susto quando uma rã pulou em seu tórax no lavabo do centro cirúrgico. Seria cômico se não fosse trágico", finaliza, com bom humor, o cirurgião plástico.