Há duas semanas, o compositor Ed Motta postou comentários ofensivos a mulheres e músicos em sua página no Facebook, além de chamar os brasileiros de "povo feio" e se considerar membro de uma "cultura superior". As frases foram duramente criticadas nas redes sociais e o burburinho gerado se transformou em notícia. Passada a repercussão, Motta reconheceu a gafe. Não sabia que sua página estava aberta a todos os usuários e pediu desculpas a quem tivesse se sentido atingido.
Desde que as redes sociais se popularizaram, as gafes virtuais se tornaram uma constante. São inúmeros os casos de funcionários que foram demitidos de suas empresas porque postaram comentários infelizes ? muitas vezes críticas a respeito do próprio empregador ? no Twitter. As celebridades também se tornaram alvos de chacota por postarem verdadeiras pérolas nas redes sociais.
A verdade é que as comunidades virtuais ainda são uma novidade e pouca gente sabe lidar com elas de maneira adequada. Neste contexto, o terreno torna-se fértil às gafes. "A rede é capaz de potencializar a comunicação. O problema é que muitas pessoas usam as ferramentas disponíveis para extravasar seus problemas. Numa situação de estresse ou raiva extrema, as chances de dizer algo impróprio é muito grande", analisa Paulo Milreu, especialista em mídias digitais e presidente da Associação Centro-Oeste Paulista das Agências Digitais (ACOPADi).
Além de potencializar, Milreu destaca que a internet tem o poder de eternizar uma palavra ou frase mal colocada. No Twitter, por exemplo, os usuários tem a possibilidade de replicar, em fração de segundos, o que é postado no microblog. Feito isso, o autor perde completamente o controle sobre o que escreveu.
"Mesmo que ele apagar o post na página dele, não vai conseguir apagar o retweet que outros usuários possam ter dado. E o nome dele vai continuar associado àquela mensagem. É um caminho sem volta", explica o especialista.
Um caso emblemático foi o da jornalista Glenda Kozlowski, que postou no Twitter uma frase com a palavra "cinismo" grafada erroneamente com a letra "s". Avisada momentos depois por usuários sobre o erro, a correção veio tarde. A mensagem já havia ganhado a Internet.
"Centenas de usuários retuitaram o post e a gafe ficou famosa na época", lembra o professor de redes sociais Murilo Ronchesel. De acordo com ele, as comunidades virtuais se transformaram em uma extensão dos indivíduos e das relações que eles mantêm com seus pares. Por este motivo, devem ser utilizadas com parcimônia, principalmente para que o emprego não seja colocado em jogo.
"Qualquer posicionamento impensado pode prejudicar a imagem da pessoa na vida real. As empresas, infelizmente, ainda não toleram comentários que possam depor contra elas. A liberdade de expressão é um bem que deveria ser preservado, mas as pessoas precisam pensar duas vezes para não correrem o risco de sofrer algum tipo de retaliação", ensina.
Torpedos também geram ?saia justa?
A popularização dos aparelhos celulares e dos torpedos ilimitados ofertados pelas operadoras transferiu as gafes também para as mensagens telefônicas. Assim como no mundo real, não é raro encontrar quem já tenha enfrentado uma "saia justa" após enviar um SMS (Short Message Service) para o destinatário errado.
A estudante Yholanda Garcia, 15 anos, foi vítima desta armadilha há pouco mais de um mês. Ela planejava uma festa de aniversário para o namorado quando decidiu enviar um torpedo para a irmã dele, avisando que todos os preparativos já estavam prontos.
"Escrevi uma mensagem dizendo a data em que faríamos a surpresa, avisando que eu já tinha conversado com ele e que ele não estava desconfiando de nada. Só que, na hora de enviar, mandei para ele", lamenta. Com a descoberta do aniversariante, a festa foi cancelada.
A mesma situação foi vivida pela auxiliar administrativa Ana Carolina Vargas, 24 anos, no ano passado. Responsável por coordenar a festa de uma amiga, na véspera do evento ela enviou uma mensagem à aniversariante.
"Ia avisar outras duas amigas de que tinha dado tudo certo, porque ela estava acreditando na nossa mentira. Na hora que percebi que tinha enviado para a pessoa errada, comecei a chorar igual criança", lembra.
A amiga que seria homenageada ainda tentou contornar a situação, se oferecendo para fingir para os demais convidados de que não sabia de nada. "Eu estraguei tudo, fiquei arrasada. Mas hoje dou risada, porque acaba sendo engraçado", conta.