Dona Maria de Lourdes (nome fictício) mora há 58 anos em uma propriedade rural ao lado de um presídio, que por questões de segurança não vamos dizer qual, na região de Bauru. Ela chegou antes ao local e ninguém perguntou a ela se deveriam instalar ali duas penitenciárias compactas, cada uma com mais de mil presos. A partir de então, os vizinhos mais próximos da idosa passaram a ser 2.700 presos. Hoje, ela mora na área de segurança.
A chegada dos presídios, amplamente comemorada pelos políticos locais à época, não encontrou eco na vida da família que estava acostumada a uma vida simples e tranquila na propriedade que produz café e outras culturas.
"Passamos a viver um pesadelo", confessa. A rotina da família mudou desde a inauguração das penitenciárias, em 2006. Vieram os presos e as visitas e, pela primeira vez na vida, a idosa passou a se preocupar com um item que não fazia parte de sua agenda.
"Eu vivia próximo a uma cidade com pouco mais de mil habitantes. Tanto na área urbana quanto na rural, a população dormia de janelas abertas durante os períodos mais quentes do ano. A vida era simples, mas sossegada. A chegada dos presídios marcou o fim dessa era."
A mulher confessa que passou a viver apreensiva porque não sabe bem o que pode acontecer com ela e a família se algum dia os presos se rebelarem. "No ano passado, foram duas fugas daqueles presos que ficam trabalhando do lado de fora."
Para a idosa, encontrar presos no quintal da casa não estava previsto e o susto foi grande. "Corri para dentro da casa e fechei as portas. A polícia veio atrás e foi muito complicado para a gente. Ficamos presos dentro de casa. Foi no período da manhã. Escutei um agente penitenciário gritando para o ladrão voltar."
Até o sono tranquilo das noites na propriedade rural foram alterados. "Temos cinco cachorros e quando eles latem durante a madrugada, acordamos muito assustados. Logo pensamos em fuga de presos. A gente escuta muito barulho vindo dos presídios."
A idosa lembra ainda que a lagoa de tratamento de esgoto do presídio é outro item que incomoda. "Quando chove, o cheiro fica insuportável. Temos que fechar as portas da casa e, mesmo assim, é muito difícil."
Estresse de metrópole
Não bastasse ter mais de 2 mil presos como vizinhos, a família de Maria de Lourdes sofre com as visitas deles. Nos finais de semana, as visitas chegam de madrugada e, sem poder entrar no presídio, se acomodam no acostamento da rodovia, muito próximo da propriedade rural.
"Teve um final de semana que abriram a porteira e ficaram embaixo de uma árvore. Quando foram embora, deixaram um rastro de sujeira. Tinha muito material descartável, tanto de comida quanto de bebida. No final de semana seguinte, colocamos cadeado na porteira."
Horas de pânico
O neto de dona Maria de Lourdes estuda em Bauru e toda noite faz a viagem de ônibus. Desce do coletivo no trevo que fica nas proximidades da propriedade rural. Porém, um pequeno atraso do neto, assusta toda a família.
A mãe do jovem, Joana (nome fictício), conta que enquanto o filho não entra em casa, ela não dorme. "Outro dia, o ônibus quebrou e ficamos apavorados. Ele desce do ônibus e anda cerca de 50 metros para chegar em casa. Nós tememos que algo aconteça nesse pequeno trajeto"
Convivência difícil
Joana tem uma filha de 8 anos que frequenta a escola da cidade. A convivência com filhos de presos, que se mudaram para lá, também é motivo de preocupação para ela. "A filha do preso ameaçou minha filha. Ela domina as situações e ameaça as demais dizendo que o pai dela é preso. Todas as crianças ficam com medo. Durante uma discussão com a minha filha, ela disse que o pai dela iria sair da cadeia e ia pegar minha filha."
A mãe confessa que ficou assustada e apreensiva. "As crianças dos presos estão morando aqui no município e a gente percebe que elas têm um discurso diferente. Falam coisas e situações que nossos filhos desconhecem. Ameaçam outras crianças, está muito difícil."
Fuga fez morador ir para casa do cunhado
Há 23 anos, seu José (nome fictício) mudou-se de Reginópolis para o sítio da família no mesmo município, área rural. A partir de 2004, ganhou novos vizinhos, cerca de 1.800 presos. Em dois momentos, ele e a família experimentaram momentos de pânico. "Em uma das fugas, o ladrão veio parar no meu quintal. Nós nos refugiamos dentro da casa e, posteriormente, fomos dormir na casa do irmão de minha mulher."
O morador não foi avisado que presos tinham fugido do presídio. "Desconfiamos porque o helicóptero começou a sobrevoar. Ouvimos um guarda correndo pelo meio do mato, gritando volta ladrão. Os cachorros latiam muito e nós ficamos muito assustados."
A mulher dele, Maria (nome de fictício), sente insegurança. "A gente fica acuado, sem saída. Não temos arma em casa e não sabemos o que pode acontecer. Uma vez, atiraram na porta de casa. Eu acho que tem poucos guardas para muitos presos. Eu vejo cerca de dez presos trabalhando do lado de fora do presídio e um único agente tomando conta. Se os presos resolverem fugir, ele não dará conta."
Moradores da Nova Balbinos têm como paisagem as penitenciárias
Mesmo morando a cerca de um quilômetro das penitenciárias compactas I e II de Balbinos (73 quilômetros de Bauru), os moradores do bairro Nova Balbinos temem a presença dos detentos. Até para falar com a reportagem do JC eles relutam e só aceitam quando é garantido o sigilo da identidade.
A filha de 5 anos da moradora Célia (nome fictício), só vai para o quintal da casa com os irmãos sob os olhares atentos da mãe. "Eu temo que um deles apareça por aqui e pegue a menina", confessa.
Segundo ela, apesar da distância, cerca de um quilômetro, o trajeto foi feito rapidamente pelo meio do mato que separa o bairro dos presídios. "É um pulinho se o cara vier pelo matagal, eu vejo o prédio daqui. Por isso, no final da tarde, recolho tudo do quintal. Não deixo nem roupa no varal, porque quando eles fogem querem tirar o uniforme de preso para fugir. A gente não tem nada de muito valor, mas qualquer coisa que eles levarem vai fazer falta."
O pior período para a dona de casa são as saídas temporárias em datas comemorativas como Dia das Mães, Pais, Natal e Ano-Novo. "Redobro a atenção. Eles ficam soltos e a gente nem imagina o que pode acontecer. Nesses períodos, a família sai de casa junto, especialmente se for no período noturno."
Ela lembra que há menos de 10 anos os moradores de Balbinos não se preocupavam com a segurança. "A cidade não tinha bandidos, agora são quase três mil para uma população de pouco mais de mil. Três presos para cada habitante, praticamente. Já imaginou se eles resolvem fazer uma rebelião e fogem? Eles vão dominar a cidade."
Sem problemas
Uma moradora de 33 anos, que preferiu não se identificar, discorda da opinião de Célia. "Eu moro aqui há três anos e não tive problemas. Os presídios não alteraram a minha rotina. Acho até que estamos mais seguros, porque toda hora a polícia passa para lá e cá."
Na opinião dela, se houver fuga de presos eles irão para bem longe. "Eu não acredito que eles irão se refugiar por aqui. Pegam a rodovia e vão embora."
Em Pirajuí, há quem sinta-se seguro com os presídios
Na cidade de Pirajuí (58 quilômetros de Bauru), os presídios ficam distantes quatro quilômetros da área urbana. Mais próximo das penitenciárias, há propriedades rurais de pequeno porte, especialmente onde os moradores passam os finais de semana.
Cerca de um quilômetro dali, em uma chácara, está sendo construída uma casa de veraneio. Segundo os pedreiros, o imóvel pertence a um morador de Pirajuí que pretende levar a família para passar os finais de semana por lá. De acordo com os trabalhadores que também moram na cidade, naquela área não há registros de furtos ou roubos.
Uma moradora de uma propriedade rural daquela região, distante cerca de dois quilômetros, que não teve sua identidade revelada por questões de segurança, confessa que se sente segura no local, mesmo porque, as viaturas policiais passam várias vezes pela estrada vicinal Prefeito Anibal Haman, distante apenas 100 metros de sua casa.
"Quando os presos fogem, não querem ficar aqui perto, porque aqui a polícia logo acha. Eu fico tranquila a qualquer hora do dia ou da noite. Nunca tive problemas, mesmo quando teve rebelião."
Outras dez famílias vivem em uma gleba de terra doada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Um dos moradores que vive no local há três anos, que prefere não ter a identidade revelada, diz que nunca teve problemas desde que mudou para o local. "As penitenciárias não representam perigo para nós. Estamos a cerca de três quilômetros delas."
Mesmo no período noturno, quando os cães da propriedade começam a latir, ele não fica inseguro. "Moramos todos pertos. Tenho celular para ligar para a polícia. Acredito que se tiver fuga de presos, eles vão desaparecer e nem vão pensar em ficar por aqui."
Segundo ele, que produz pimentão, berinjela e abobrinha, nunca sumiu nada da propriedade, nem mesmo produtos ali cultivados. "Nem tudo é recolhido. As plantações são abertas, exceção apenas para a estufa de pimentão, que fica fechada."
Próximo da vicinal
A Vila Esperança, em Pirajuí, é a área urbana mais próxima das penitenciárias. Fica ao lado da vicinal Prefeito Anibal Haman. É por ali que passam todas as viaturas policiais e da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) que vão para os presídios.
Já uma moradora que mora bem próximo da vicinal explica que o trânsito de veículos oficiais é muito grande, tanto durante o dia quanto à noite. "Eu me sinto insegura. Tenho medo das fugas. Uma vez isso aconteceu e me tranquei dentro de casa. Acho que os presos, quando fogem, querem vir para a cidade e por certo passarão pela lateral de minha casa."
A residência não tem alarme e nem cerca elétrica. Conta apenas com a guarda de três cães de médio porte. "Quando os cachorros latem à noite, logo penso que pode ser um preso em fuga. Vivo assustada."
Sitiantes dividem-se entre os que têm medo ou indiferença
As penitenciárias de Reginópolis (70 quilômetros de Bauru) estão distantes quatro quilômetros da cidade, porém rodeadas de propriedades rurais onde vivem pessoas simples, trabalhadoras e que perderam o sossego ao perceber que na vizinhança estão recolhidos 1.867 homens condenados por crimes dos mais diversos. Para alguns dos moradores das imediações, a instalação da unidade prisional virou um pesadelo, mas para outros, não mudou a rotina.
O caseiro de uma das propriedades rurais especializadas no cultivo do pimentão, que não terá sua identidade revelada, diz que ser vizinho de homens envolvidos com o crime não altera sua rotina. "Sigo minha vida normal. Estamos distante cerca de um quilômetro do presídio e nunca tivemos problemas. Moro aqui há 10 anos e não vivemos situações de pânico nenhuma vez."
A segurança dele é feita por quatro cães de pequeno porte. "Eles avisam a chegada de qualquer estranho na propriedade, funcionam como alarme. As vezes eles latem a noite, mas não fico assustado pensando que possa ser um preso em fuga."
O vizinho mais próximo dele fica a um quilômetro pelo menos. "Nunca precisei recorrer a ele por causa da unidade prisional. É difícil eu ver meus vizinhos, tenho muito trabalho. As poucas vezes que nos encontramos foi no centro urbano."
O caseiro confessa que não dá para esquecer que ao lado tem presos. "Especialmente quando o vento sopra em direção ao sítio. Nessas ocasiões ouço o burburinho dos presos conversando, rezando, cantando. Já teve uma rebelião e eu escutei só o barulho. Quando teve fuga, os guardas vieram avisar."
Situação contrária vive a família de outro caseiro que mora ao lado do primeiro. A mulher dele, em data não muito distante, foi surpreendida com a chegada de viaturas policiais e a presença de um fugitivo da cadeia. "O preso passou no meu quintal e se embrenhou no canavial. Eu fiquei assustadíssimo, corri para dentro de casa e me tranquei."
A fuga aconteceu durante o período diurno. "A polícia estourou o cadeado da porteira e foi atrás do fugitivo. Fiquei com medo de sobrarem tiros. A polícia conseguiu recapturar o preso."
A partir do episódio, a caseira passou a ficar mais atenta. "Durante a noite os cães latem e remetem a fuga de presos. Muitas vezes ouço barulho de carro. Em um dos dias, ouvi o carro e olhei. Duas pessoas desceram e nós acendemos as luzes e acionamos a polícia. Eles foram embora. Eu acredito que possam ser pessoas envolvidas com presidiários."
O irmão dela, que também trabalha na propriedade rural, teme virar refém de uma hora para outra. "Na época da instalação fizemos um abaixo-assinado com quatro mil assinaturas, mas não resolveu nada. Quando os políticos querem, eles fazem, não pensam no que isso vai prejudicar as pessoas, moradores e trabalhadores."
Para ele, além dos riscos de fuga, a presença de mais de mil homens confinados gera uma quantidade enorme de esgoto e isso prejudica o rio Batalha. "O rio passa aqui perto. Nos finais de semana, os moradores iam para lá se divertir. Desde a instalação, há mau cheiro e ninguém mais pode brincar na água. Temos medo de ficar doente."