De três anos para cá, o número de eucaliptos plantados na zona rural de Bauru aumentou consideravelmente. Ao todo, a cultura já ocupa uma área de 5 mil hectares, o equivalente a sete campos de futebol do tamanho do Estádio Alfredo de Castilho, o campo do Noroeste.
O motivo deste avanço a passos largos é aparente e justificável. É que a região de Bauru tem duas grandes empresas que dependem do eucalipto para exercerem suas atividades e elas estão arrendando ou comprando terras dos produtores da cidade para o plantio de sua matéria-prima principal.
A proposta é atrativa aos olhos do produtor por vários motivos. Entre eles, o lucro. Cada alqueire de terra arrendado para o plantio de eucalipto vale R$ 1.300,00 por ano. Limpo. Sem nenhum gasto. Considerando que o pequeno produtor pode ter até 20 alqueires de terra, seu lucro anual com eucaliptos seria de R$ 26 mil por ano, quase R$ 2.200,00 por mês, valor três vezes maior que o obtido com a criação de gado.
Sérgio Togashi é um dos agricultores que, após 26 anos de lavoura, cedeu à oferta e arrendou suas terras para o plantio de eucalipto. O principal motivo, segundo ele, foi a garantia de renda.
Ele conta que o contrato prevê o arrendamento das terras por sete anos, prorrogáveis por mais sete, totalizando 14 anos. A mão de obra, o combate a pragas e erosões e o corte das árvores ficam por conta da empresa que arrendou as terras.
"Não tem erro, o dinheiro é garantido. Muito diferente da agricultura de frutas e verduras, em que a gente produzia e no fim das contas não sabia nem se ia conseguir vender", justifica.
Os produtores de Bauru são os mais assediados com a proposta porque a cidade tem ótima localização logística e fica a menos de 150 km de distância das indústrias de transformação da matéria prima, o que justifica o valor pago pelo transporte.
Percebendo o possível estabelecimento da monocultura e as ameaças que o cultivo de eucalipto pode trazer para a terra, como as erosões, po
r exemplo, sete cidades do Estado já proibiram o plantio da árvore.
"É preciso ficar atento. O arrendamento para eucalipto é um ótimo negócio para o produtor, que tem lucro garantido sem nenhum trabalho. Porém, em breve, a zona rural de Bauru se transformará em uma grande floresta", alerta Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru.
Os grandes também sofrem
Quem visitou a Fazenda Shangri-lá há pelo menos cinco anos, custa a acreditar nas mudanças que encontra ao retornar ao local atualmente. Antes, pés de lichia, laranja, café ou macadâmia ocupavam os 1.200 hectares da propriedade. Hoje, não existem mais lichias, cafés, nem macadâmias. As laranjas resistiram. Ainda são exportadas para o Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, mas estão em apenas 200 hectares das terras. O restante foi tomado pelos eucaliptos.
De acordo com José Nilton Campilho, gerente da fazenda, as mudanças na propriedade rural foram acontecendo gradualmente, ditadas pela necessidade.
"O grande produtor também passa por dificuldades. Aqui, por exemplo, tínhamos cerca de 100 funcionários, hoje temos apenas 20 e os mantemos com muito custo. É difícil encontrar mão de obra especializada e pessoas dispostas a viver no campo", aponta o gerente.
Além disso, os baixos valores pagos pelas frutas desanimaram os proprietários. José Nilton conta que em 2009 a fazenda foi obrigada a vender a caixa de laranjas por R$ 6,00 as indústrias para não ter cem por cento de prejuízo, já que o custo da produção da caixa é de R$ 11,00.
De uns anos para cá, a alternativa encontrada pelos proprietários da fazenda foi arrendar a maior parte das terras para a produção de eucaliptos. O contrato firmado com uma grande empresa da região é cômodo para o produtor, que não precisa pagar funcionários nem gastar com produtos para manter o local.
"A renda é boa e o produtor não tem trabalho nenhum. Creio que os donos da fazenda só mantém a plantação de laranja por amor a terra, visto que as dificuldades são muitas", avalia.
Orgânicos lutam para ganhar espaço
Geração saúde. Assim são chamadas as pessoas que valorizam a prática de atividades físicas e o consumo de alimentos saudáveis, com a menor quantidade possível de agrotóxicos e, de preferência, não-industrializados.
É pelo hábito desse grupo de pessoas que cada vez mais os alimentos orgânicos, produzidos sem auxílio de venenos para combater pestes, hormônios ou qualquer outra técnica química, ganham espaço no mercado.
Mas o número de adeptos da técnica ainda é incipiente. De acordo com os produtores de orgânicos, a maioria dos consumidores busca, preferencialmente, por preço baixo.
Marcelo Bueno Gaio concilia as atividades de advogado com a rotina de produtor de alimentos orgânicos há dez anos. Em seu sítio, pés de rúcula, couve, espinafre, chicória, cenoura, pimentão, tomate cereja e outras 15 variedades colorem o solo e as estufas.
Ele iniciou o plantio de alimentos orgânicos por recomendações médicas, apenas para consumo próprio. Com o tempo, a produção assumiu proporções maiores e, atualmente, ele fornece produtos para diversos supermercados da cidade.
Na opinião dele, a falta de informação e consciência são grandes entraves para que a cultura de orgânicos se torne predominante no mercado.
"Quem entra neste ramo tem de ser apaixonado pelo que faz, já que o trabalho é superdesvalorizado. Nos primeiros meses a produção é pequena e, depois, existe dificuldade em vender a produção. As pessoas acham caro e por isso não se importam de comer alimentos sem qualidade", critica.
Mas os orgânicos não se restringem somente às hortaliças. Adagmar Grimm Streger, por exemplo, produz leite e ovos orgânicos há dez anos. Para isso, alimenta as vacas e galinhas somente com rações específicas, não utiliza hormônios nem venenos para combater doenças e, quando necessário, faz o tratamento dos animais com homeopatia.
Além de viver com base em uma rotina de cuidados que consome quase todo o seu dia, Adagmar, no início, precisava lidar com compradores que não aceitavam o valor de seus produtos.
"Vendo a caixa de ovos grandes a R$ 4,50 e as pessoas acham caro. Muitas preferem comprar produtos mais baratos, de granjas de dão tanto hormônio para as galinhas que elas mal aguentam andar de tão gordas que ficam", reclama ela, que ressalta que, para ser considerado um produtor de orgânicos é necessário selo de qualidade.
Com muita paciência, assim como Marcelo, Adagmar conquistou sua fatia no mercado e hoje, a produção de suas galinhas muitas vezes não é suficiente para abastecer sua fiel clientela.