Para se estabelecer como produtor agrícola é necessário paciência e vontade para superar constantes desafios. Os primeiros, inclusive, aparecem logo no início, acoplados à busca de informações sobre técnicas e métodos de cultivo. Mas não param por aí. Até a colheita é preciso jogo de cintura para lidar com pestes, doenças, intempéries, falta de mão de obra qualificada, entre outras coisas.
Na hora de vender, mais uma etapa: a difícil negociação com as fábricas e mercados a respeito do valor do produto, que nem sempre considerado justo por pelo menos uma das partes.
Quando questionados sobre o motivo para tantas dificuldades, a resposta está, na maioria das vezes, na ponta da língua do produtor: falta de incentivo e desinteresse por parte do governo.
A reclamação faz sentido. Contudo, será que existe alguma forma, que dependa dos próprios produtores, de tornar as dificuldades da vida no campo um pouco mais amenas?
Para Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru, Otaviano Alves Pereira, engenheiro agrícola da Secretaria Municipal da Agricultura e Abastecimento (Sagra), e José Carlos Zito Garcia, titular da Sagra, a resposta é sim.
Na opinião deles, uma boa alternativa é a formação de associações ou cooperativas de produtores que tenham foco na busca de informações, troca de experiências e discussão de estratégias de mercado que possam amenizar as dificuldades.
"Unidos os produtores ganham força e poder. Eles vivenciam os mesmos problemas e juntos podem encontrar soluções inteligentes, muitas delas fruto da troca de informações e experiências", defende o secretário.
Para Maurício, as cooperativas podem ajudar, especialmente, na etapa final da produção, que é a venda. Segundo ele, a ideia é que os produtores se unam para brigar com mercados e indústrias por preços mais justos, que compensem, pelo menos, os gastos.
"As cooperativas podem valorizar o trabalho do produtor local, estabelecer regras no mercado. Penso que essa organização é fundamental", avalia o presidente do sindicato.
Otaviano concorda com Zito e Maurício, porém afirma que sente resistência por parte dos produtores em participar das associações e cooperativas. Para ele, falta engajamento.
"O produtor precisa entender que o associativismo é uma extensão de seu trabalho, em que ele vai adquirir informações, conquistar mercado, descobrir como manter a qualidade do produto, entre outras coisas. Ele não deve encarar as reuniões como perda de tempo", frisa o engenheiro agrícola.
Hidroponia é alternativa
Apesar de ser uma técnica relativamente antiga, a hidroponia ainda é novidade e desperta receio entre parte dos agricultores e consumidores de Bauru. A estranheza está no fato da planta ser cultivada na água, sem contato algum com o solo.
A técnica, que recebeu este nome pela primeira vez em 1935, consiste em semear em uma espuma fenóica, específica para isso, regá-la com água, e esperar que nasçam os brotos. As mudas formadas são transferidas para uma pequena canaleta, chamada maternidade, por onde corre uma solução aquosa de nutrientes, os mesmos encontrados no solo. Já na fase de desenvolvimento, as plantas são passadas para uma canaleta maior, onde permanecem até a colheita. O processo dura entre 28 a 60 dias para ser completo.
A diferença é que na hidroponia não existe tempo ruim: a planta é capaz de produzir o ano todo, com regularidade.
Silmara Simonagio, proprietária da Folha Fresca, é adepta da técnica há 10 anos. Ela aderiu a hidroponia quando ainda morava em um sítio em Juqueí, distrito de São Sebastião, litoral de São Paulo.
"Lá, as condições de cultivo na terra eram muito ruins e a hidroponia era a melhor alternativa", explica.
Ela e o marido vieram para Bauru em 2002 e, como optaram por morar em uma chácara, mantiveram a atividade. Atualmente, o casal tem 14 estufas, de diferentes tamanhos, que produzem alface, agrião e rúcula.
Mas até chegarem ao estágio que se encontram hoje, Silmara e o marido tiveram de superar muitos obstáculos, especialmente a falta de mão de obra qualificada, de informação e até mesmo o preconceito.
"Para ingressar na hidroponia, é preciso pelo menos o conhecimento básico, que é saber dosar a quantidade de nutrientes e ter um olhar clínico apurado para avaliar se as plantas estão crescendo sem problemas. Mas conhecimento só é adquirido com experiência. Até que você o conquiste, é necessário um suporte técnico, coisa rara na cidade", explica.
Além disso, a falta de mão de obra qualificada para dar manutenção nas estufas também é um obstáculo a ser superado. Segundo Silmara, até mesmo técnicos particulares são artigo de luxo no mercado.
Somado a tudo isso, ainda existe o preconceito típico da falta de informação. Isso porque há quem acredite que os alimentos cultivados por meio da hidroponia são menos ricos em nutrientes.
"O que não é verdade. Os nutrientes são os mesmos do solo e ainda permanecem mais tempo em contato com a planta. Isso porque, quando o cliente leva o produto para casa, ele vai com a espuma base, que mantém a alimentação da planta com os nutrientes por até três dias", explica.