Pelo título do inteligente artigo "Nós fumos e vortemos", do amigo e abalizado jornalista Zarcillo Barbosa, no JC (22/05), na coluna "Opinião", fomos levados a crer que, neste domingo, faríamos a leitura de um interessante trabalho humorístico, irônico e até depreciativo em relação a quem fala "errado". Essa, é claro, não foi a intenção do Zarcillo. Brindou-nos, como sói acontecer em seus artigos, com uma opinião bem fundamentada sobre o livro didático de português "Por uma vida melhor", distribuído pelo MEC (Ministério da Educação), que "defende" os chamados "erros de português". Na esteira deste artigo do jornalista, pus-me a indagar se é certo falar errado. Lendo com atenção as suas argumentações, as quais endosso, reafirmo, sem fazer crítica ao estado de falência do ensino da língua portuguesa em nosso país, que há vários níveis de linguagem e, entre esses níveis, se destacam em importância o culto e o coloquial (ou popular, cotidiano, informal). Ao professor cabe ensinar as duas modalidades de linguagem, mostrando as características e as vantagens de uma ou de outra, sem deixar transparecer nenhum caráter de superioridade ou inferioridade, que em verdade inexiste. Isso não implica dizer que se deve admitir "tudo" na língua falada. Na realidade, o ambiente sociocultural é que determina o nível da linguagem a ser empregado. O vocabulário, a sintaxe, a pronúncia e até a entoação variam segundo o nível.
Um engenheiro não usará um mesmo discurso, ou um mesmo nível de fala, para colegas e para pedreiros, assim como nenhum professor utiliza o mesmo nível de fala no recesso do lar e na sala de aula. Daí, se alguém se comunica e se faz entender em seu grupo, não se pode afirmar que a linguagem usada é errada. Errado é não se fazer entender. Falar "errado" é, antes de tudo, não se adequar à situação, ao momento da comunicação. Os bons falantes da língua sabem quando usar uma linguagem mais informal ou quando procurar expressões mais cultas; quando falar bonito ou quando, inclusive, falar um palavrão! Quando usar o "internetês" e quando usar a escrita comum.
Ao invés de ficarmos polemizando se o problema da linguagem é "certo" ou "errado", deveríamos antes nos preocupar em ensinar aos alunos, sim, uma linguagem culta, uma "norma" prescrita pelas gramáticas e abençoada pelos meios de comunicação, a que eles podem e devem ter acesso pela e na escola, a fim de que sua participação na sociedade não fique ameaçada. Não basta conhecer apenas uma modalidade da língua; urge conhecer a língua popular, captando-lhe a espontaneidade, expressividade e enorme criatividade, para viver; urge conhecer a língua culta para conviver. O certo mesmo é que o nosso idioma é extremamente rico e dinâmico, por isso, cheio de segredos e sutilezas. A formosíssima língua portuguesa, de tantas e belas tradições, não merece nossa indiferença.
Parece-nos justificável a esperança de que um estímulo maior seja dado à carreira do professor. Professor valorizado, professor estimulado. Esperamos, ainda, daqueles que trabalham com amor e dedicação, no magistério, uma vigorosa e inteligente atitude não só na preparação dos nossos alunos do ponto de vista dos conteúdos curriculares, mas principalmente na educação para a cidadania.
O autor, Gino Crês, é professor e colaborador de Opinião