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Homo sapiens

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

A opereta sobre direitos humanos ecoa em prosa e verso através de rádios, jornais, livros e estatutos diversos, a deixar para cada um a livre interpretação e a conveniência da serventia. Porém, na busca incessante do desfrute de tantas benesses, o homem perdeu o fiel da balança e com ele adejou o equilíbrio que conduz à autossuficiência. Distanciou-se tanto da fonte de onde abrolha o bom senso que perdeu de vista o compromisso com a ética e a moral e, ambicioso, encarcerou as tecelãs da alma: a nobreza e a probidade. Apregoando a racionalidade e inteligência que o prioriza, o homo sapiens deixou esquecida nas dobras do tempo a excelência da própria sobrevivência. Pois, se realmente soubesse fazer uso da sabedoria não des-cumpriria a sagrada obrigação de respeitar o filho que deixou abandonado, sagraria o direito de viver do ser indefeso ainda no ventre materno, acataria raça, cor e credo de seus semelhantes, protegeria a natureza e trataria com igualdade os diferentes. Quando se torna imperativo o uso do poder coercitivo para o cumprimento da obrigação de fazer o que deveria ser inerente, instintivo e revestido de amor, significa que a humanidade perdeu a razão e se encontra em gravíssimo estado de degradação social.

O fato é que os verdadeiros valores restam esquecidos nas sombrias furnas do coração da humanidade: a humildade, o respeito, o zelo pela essência da alma, a paz interior, o amor ao próximo, o apreço à educação continuada desde o nascimento e a sagração à natureza. Carece ao ser humano deixar de buscar culpados para amortizar o elevado preço de seus fracassos e retomar o caminho que conduz ao cumprimento de suas obrigações.

Urge a alfabetização da alma do homem para que passe a observar o exemplo dos animais na luta pela sobrevivência: o lidar com as intempéries, a arte de construir ninhos e a ternura proporcionada aos filhotes. A verdade é que apesar de intitulados de irracionais, sem ferramentas, sem dinheiro, sem armas, os denominados irracionais, desempenham suas funções sem esperar que outros o façam.

O homem na sua faina diuturna a ostentar o véu da cegueira dos incautos, jaz a campear seus direitos debruçado sobre frágeis doutrinas, asilos de encanecidas ilusões. E, deveras ocupado em carregar o peso da soberba, subestima o poder da natureza que, forte e sagaz, vive a provar e comprovar a impotência do homo sapiens. Para abolir o azinhavre de tanta arrogância, nada melhor que um brocardo simiesco: "I am not a complete idiot, some parts are missing".


A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga e autora do livro: "A velha adormecida" - em edição

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