Os conceitos expressos no título deste artigo são de Dominique Maingueneau, um dos mais atuais Analistas do Discurso. Alice Krieg-Planque, outra autora francesa, também teoriza sobre atividades profissionais que favorecem a destacabilidade de enunciados e, entre elas, sem dúvidas, está a imprensa. Um exemplo prático: uma manchete de abril de 2010 foi "Ministro da Saúde recomenda sexo contra hipertensão". No interior da matéria, o enunciado contextualizado: "Dancem, façam sexo, mantenham o peso, façam atividades físicas e, principalmente, meçam a pressão". Ou seja, sexo foi um dos itens recomendados pelo Ministro, não o principal (na construção do enunciado, medir a pressão tem peso maior), mas foi aquele destacado no título, pelo inusitado. Os títulos jornalísticos estão entre o que Cremilda Medina chama de Apelos Verbais. Até aí, nada grave, desde que o público entenda que esse funcionamento da imprensa pode favorecer a manipulação.
Foi o que ocorreu com a polêmica sobre o livro didático Por uma vida Melhor, aprovado pelo MEC. A partir de matéria do Portal IG, intitulada "Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado", o livro se tornou o novo Judas e apanhou de quase todo mundo. Boa parte da sociedade se indignou com o fato de um livro supostamente propor o ensino do "português errado". Frise-se aqui o óbvio: jamais alguma coisa parecida com "ensinar o português errado" foi autorizada pelo MEC ou dita pelo livro. O que os parâmetros curriculares propõem é reconhecer a variação linguística e, a partir disso, ensinar o português padrão. A imprensa basicamente leu e divulgou uma única página do bendito livro. Sabe o que o restante do livro traz? Inúmeros "exercícios que pedem a conversão de formas faladas ou informais em formas escritas e formais", segundo o professor Sírio Possenti, no excelente artigo "Analisar e opinar. Sem ler", publicado no Estadão em 22/05/2011. No entanto, quase todo mundo repetiu e polemizou não o livro, mas o discurso a que a imprensa deu destaque. E tamanha má interpretação é bem mais grave do que erro de norma padrão (prefiro este termo à "norma culta", por oposição à inculta).
Os estudos de variação linguística são antigos. Investiguem-se, no Brasil, as obras de Marcos Bagno e Magda Soares, por exemplo. Também recomendo fortemente que se leiam gramáticas. Frise-se: gramáticas, não manuais resumidos (uma sugestão: Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra). Assim, será possível entender melhor o funcionamento da linguagem. Não pretendo convencer ninguém a respeito da variação linguística em um pequeno artigo. Como linguista, por um lado, não me cabe julgar se uma forma de expressão é bonita ou feia, por outro, compreendo a língua como algo muito mais complexo do que um conjunto de regras de norma padrão. Parafraseando o professor Sírio Possenti, um botânico não deixaria de catalogar uma planta porque não a achou bonitinha. Como profissional, cabe-me utilizar e cobrar a norma padrão, oficial (meus alunos sabem que sou exigente com isso).
Também recomendo o texto "Jornalistas com deficit de letramento", escrito pelo professor Weden e veiculado no blog de Luis Nassif. Há outros artigos circulando e alguns que continuam brigando com o enunciado destacado, sem entender (por má fé? Por incompreensão?) que se trata de destacabilidade ou de um simulacro (um outro conceito de Maingueneau: para os curiosos, indico "Gêneses do Discurso", "Cenas da Enunciação" ou o mais recente "Doze conceitos em AD"). Espero ter contribuído um pouco, sem ter ofendido ninguém. Sugiro: leia o máximo que puder e tire suas próprias conclusões. Porque há mais coisas interessantes e aprofundadas para se estudar em relação à linguagem do que sonha a vã filosofia.
A autora, Érika de Moraes, é jornalista, mestre e doutora em linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, e docente da Universidade Sagrado Coração, Bauru - e-mail: erika.moraes@usc.br