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?Aprendi a viver um dia de cada vez?

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

Felipa (nome fictício escolhido pela entrevistada) convive com o vírus da aids há 25 anos. Ela foi uma das primeiras pessoas de Bauru a ser contaminada. Descobriu que estava com o vírus quando foi trabalhar em São Paulo. Na época, o Hospital Emílio Ribas estava fazendo exames e ela decidiu entrar na fila.

Quando o resultado ficou pronto, veio o choque. Deu positivo. Imediatamente, ela se lembrou da transfusão de sangue que fez em Bauru, quando teve uma hemorragia durante a gravidez. "Eu fiquei quase louca. Tive síndrome do pânico. Comecei a fazer tratamento médico, mudei minha alimentação, comecei a tomar vitaminas de todos os tipos. Mas o principal, decidi esquecer aquele exame e achar que ele estava errado, que era tudo uma mentira e viver minha vida normalmente", relembra.

E ela viveu assim até 2005, quando teve uma pneumonia e foi internada com muitas dores. No hospital, teve parada cardiorrespiratória. "Fizeram todos os tipos de exames, me deram 17 tipos de antibióticos e não descobriam o que era. Até que um médico da junta médica decidiu fazer o exame de HIV. Foi quando descobriram o que eu tinha", relata.

Além do vírus, encontraram também uma bactéria hospitalar dentro do organismo dela. "Fiquei 17 dias em coma induzido. Quando acordei, o médico falou que minha vida ia mudar, que eu teria de tomar remédio, mas eu não compreendia porque ele falava aquilo. Como eu estava entubada, não consegui perguntar nada", diz.

Quando o marido chegou, ela pediu um pedaço de papel e perguntou o que tinha acontecido. "Ele me falou mais um monte de coisas e continuei sem entender nada." Felipa conta que, até então, o marido dela não sabia do exame anterior, feito no Hospital Emílio Ribas. "Ele só me contou sobre o resultado do exame quando tive alta. Ele chamou a psicóloga e me contou. Eu não acreditei, mas era verdade, aí eu pirei."

Ao contrário da primeira vez, Felipa não conseguiu fazer de conta que nada estava acontecendo. Por causa do nervosismo, seu metabolismo se descontrolou completamente e ela engordou muito, chegando a pesar 106 quilos. "Eu tinha dores de cabeça horríveis, mal estar por conta dos remédios. Achei que iria morrer."

Ela voltou para Bauru, onde continuou o tratamento. "Durante um ano e meio só chorei. Eu morria de medo de morrer, não por mim, mas pelas pessoas que me amavam. Eu via como estavam preocupadas comigo, a alegria delas quando saí do hospital. Até hoje tenho as cartas que meus filhos escreveram para mim. Eu fiquei totalmente perturbada. Achava que tinha recebido minha sentença de morte", conta.

Até que um dia ouviu poucas e boas da médica que cuidava dela. "Ela me deu uma prensa e eu fiquei morrendo de raiva dela, prometi nunca mais voltar ao consultório dela, mas quando cheguei em casa comecei a pensar em tudo o que ela tinha me dito e conclui que ela estava certa", comenta.

"Ela me mostrou que existem coisas muito piores na vida. Eu tinha minha família, não me faltava nada, mas foram dois anos terríveis que não desejo para ninguém."

Com ajuda das médicas, aos poucos, ela foi vendo que não era o fim, que se tivesse amor à vida poderia viver bem e por muito tempo. "Aprendi com elas a viver um dia de cada vez e fazer com que esse dia fosse sempre lindo. O amanhã não existe, só existe o hoje", ensina.

No último dia 24 de agosto, ela parou de tomar o coquetel por dois motivos. Primeiro porque ela estava se sentindo muito mal com os efeitos colaterais. Segundo porque os resultados dos exames eram animadores, acima da média. E continuam animadores. O último exame foi feito no dia 24 de março. O resultado ficou pronto no mês passado. "A tendência quando tira o remédio é o CD4 baixar, mas o meu subiu", diz, feliz da vida. CD4 são células importantes na defesa do organismo contra as doenças.

"O próximo exame está marcado para este mês e tenho certeza que será ainda melhor", afirma. "Minha carga viral está muito baixa. O vírus está indetectável. Hoje, sou a pessoa mais feliz do mundo", garante.

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Cura da doença ainda está distante


A aids, uma doença ainda sem cura, transformou o mundo, gerou investimento financeiro exemplar, uma mobilização em larga escala e avanços médicos espetaculares.

Em 1983, uma equipe francesa isolou o vírus transmitido pelo sangue, secreções vaginais, leite materno ou sêmen, que ataca o sistema imunológico e expõe o paciente a "infecções oportunistas" como a tuberculose ou a pneumonia.

Os 30 anos de aids que fizeram milhões de vítimas, também foi uma época de grandes êxitos. Em 1996, com o desenvolvimento dos antirretrovirais, a doença mortal passou a ser uma enfermidade crônica.O Fundo Mundial, criado em 2002, já distribuiu 22 bilhões de dólares em subsídios e um "programa de urgência" foi organizado nos Estados Unidos.

"A aids mudou o mundo. Uma nova relação social foi criada entre os países do norte e do sul de maneira que nenhuma outra doença já tinha provocado", destacou Michel Sidibé, diretor da Onuaids.

A sua maneira, os doentes participam também na luta e se transformam em "pacientes experts", que relatam aos especialistas sua experiência, definem as necessidades e anotam os efeitos indesejáveis dos tratamentos, segundo Bruno Spira, presidente da associação Aides.A aids tem matado menos, no entanto ela não desaparece. Pelo contrário, o número de pessoas infectadas tem aumentado nos últimos anos, exigindo mais pesquisas, mais tratamentos e mais dinheiro.

Por enquanto, apenas uma em cada três pessoas que necessitam de tratamento tem acesso às drogas. Ainda pior é que para cada duas pessoas que iniciam o tratamento, cinco outras pessoas são contaminadas.Os esforços agora são direcionados para a prevenção com novos métodos: a circuncisão (pesquisas ainda não conclusivas); gel microbicida para mulheres e o tratamento de doentes que diminui em mais de 90% as chances de transmissão do vírus.

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?Emagreci 10 quilos em 7 dias?


Vitor (nome fictício) andou por muitas cidades e estados diferentes. Tornou-se um errante pelo mundo depois de ver a maior parte de seus amigos tombar, um a um, vítima do vírus HIV. Ele saiu do Paraná, passou pelo Estado de São Paulo e foi até o Rio de Janeiro.

Foi na Cidade Maravilhosa que os sintomas de que algo não corria bem com ele também começaram a surgir com mais intensidade. Preocupado, procurou um laboratório para fazer o exame de HIV. Embora tivesse quase certeza de que também era uma das vítimas da aids, não teve coragem de encarar isso de frente.

"Quando fui buscar o resultado do exame, cheguei até a porta do laboratório, virei as costas e fui embora. Fiquei com medo de saber a verdade", admite. E a doença foi se agravando.

Vitor deixou Rio de Janeiro e seguiu de volta em direção às terras paulistas. Ele parou em um albergue de Bauru e quis saber se havia algum lugar que desse apoio aos portadores de HIV. Voluntários não souberam informar e mandaram-no para Lençóis Paulista, para um lugar que não era apropriado para o tipo de tratamento que ele necessitava. Lá, sua saúde entrou em colapso.

"Minha imunidade baixou muito e eu tive um quadro grave de diarreia. Emagreci dez quilos em uma semana", relembra. As pessoas do abrigo o aconselharam a fazer o exame para saber se era aids e para depois começar a se tratar.

"Pensei, não tenho família mesmo. Então, tanto faz tanto fez. Fiz um teste rápido de HIV e o resultado foi positivo." Apesar de já desconfiar de que era portador do vírus, a notícia o deixou arrasado. De Lençóis, foi encaminhado para Bauru, onde iniciou tratamento em uma casa de apoio às vítimas da aids e onde encontrou novamente a vontade de viver.

No entanto, a discriminação sofrida perante a sociedade tem sido, segundo ele, a principal barreira para uma reabilitação completa. "Nós somos maltratados. As pessoas não sentam do nosso lado. É isso que mata a gente", reclama.

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