Bairros

Frio e chuva dobram busca ao Albergue

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Para aqueles que moram há anos nas ruas, ir a um albergue não significa apenas trocar a calçada por um colchão e um cobertor. Muitos não procuram o local justamente por saber que irão se deparar com regras de conduta e de higiene já abandonadas há muito tempo. Entretanto, as baixas temperaturas e o frio podem mudar esse pensamento. Em Bauru, a procura no Albergue Noturno do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) dobra de acordo com o clima. Demanda que será melhor atendida com a inauguração da nova unidade no próximo dia 1.

Segundo Márcia Chelin, que atua como assistente social do atual albergue, o clima frio de ontem confirmou esse aumento na procura. Por volta das 21h30, o local já abrigava 23 pessoas. Na última terça-feira, o frio e a chuva fizeram com que 27 pessoas procurassem as instalações do albergue.

"Nossa média normal é metade desse número. É normal ter um aumento de cerca de 80% na procura em dias frios e chuvosos e até mesmo que essa quantidade dobre", relata a assistente social.

Ela explica que o frio "força" os moradores de rua a procurar o albergue, uma vez que muitos têm resistência em se abrigar no local. "No verão, eles preferem ficar livres. Aqui tem uma série de regras que precisam seguir. Eles não podem chegar drogados e nem embriagados e muitos não querem isso".

Outro obstáculo encontrado é a hora do banho. Os moradores de rua somente ganham o jantar e o direito a uma cama após se banharem. "Muitos vão embora. Preferem ficar na rua a se banhar. Dizem que já tomaram banho. Porém, no frio, grande parte deles acaba ficando, mesmo precisando tomar banho", explica Márcia Chelin.

O Albergue Noturno atende tanto homens quanto mulheres, que ficam em quartos separados. Crianças e adolescentes somente são acolhidos acompanhados de um adulto responsável.

A assistente social afirma ainda que o frio, muitas vezes, vence - temporariamente - até o vício nas drogas. "Pelo tempo que estou aqui, já pude verificar que 70% estão nas ruas pelo envolvimento com entorpecentes, principalmente o crack. Muitos chegam aqui em situação de total desespero. Nos momentos de lucidez, elas se deparam com o intenso frio e nos procuram pedindo ajuda", completa Márcia Chelin.

Chamado também de Casa de Passagem, o objetivo do albergue é exatamente esse: ser transitório. Entretanto, a assistente social afirma que muitos tentam fazer do local moradia permanente.

"O nosso objetivo é que eles sejam reinseridos na sociedade. Mas muitos tentam ficar no albergue de modo permanente. Há aqueles que realmente só estão de passagem pela cidade e, após providenciarmos a passagem, vão embora. Porém, muitos ficam mais que uma noite", conta.

É o caso de Ivone Marins dos Santos, de 58 anos, que está há três meses no abrigo. "Meu marido me deixou e vendeu tudo que eu tinha. Já meu filho está preso Ele foi pego usando pedra (crack). Não tinha ninguém e nem onde ficar. Então, eu vim para cá. Aqui a gente pelo menos não passa esse frio da cidade".

O abrigo noturno é responsabilidade do Ceac, porém, mantém parceria com a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). Assim, além das pessoas que procuram o abrigo diariamente, há aqueles que estão sendo acompanhados pelo Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas).

O Albergue Noturno Centro Espírita Amor e Caridade fica na rua Sete de Setembro, 8-30, Centro de Bauru. O telefone é o (14) 3366-3232. A capacidade do abrigo é para aproximadamente 30 pessoas.

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Novo prédio será inaugurado em julho


Após exatos dois anos de construção, o novo Albergue Noturno do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) será inaugurado no próximo dia 1. Localizado na quadra 7 da rua Inconfidência, próximo à rodoviária de Bauru, a instalação terá capacidade para aproximadamente 70 pessoas.

"Funcionará do mesmo jeito que o atual. Receberemos todo tipo de pessoas, tanto homens quanto mulheres. As crianças e jovens precisaram estar acompanhadas por um responsável", explica o tesoureiro do Ceac, Nelson da Silva Bastos.

Ele informa que, no novo albergue, haverá um quarto feminino, três masculinos, banheiros com aquecimento solar, um grande refeitório, pátio coberto e várias outras alas nos fundos do imóvel.

"São aproximadamente mil metros quadrados com capacidade para 70 pessoas. Começamos com recursos próprios, mas fomos ganhando colaboradores. Construímos algo que vai ser suficiente para suprir a demanda de Bauru. Com certeza, é um grande ganho para a cidade", diz Bastos, otimista.

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Sonho comum é ter um lar


Enrolados nas cobertas cedidas pelo albergue, as histórias dos moradores de rua que procuram o local são diferentes, porém, todos têm algo em comum: a esperança de voltar a ter um lar.

É esse sonho que mantém Valdácio Camargo, 41 anos. Após uma traição, o antigo pedreiro deixou com a ex-esposa a casa que construiu com as próprias mãos e, há cerca de três anos, foi morar na rua. "Tenho dois filhos, uma menina de 14 anos e um menino de 12. Meu maior sonho é poder ter uma casa para que eles voltem a morar comigo", afirma, emocionado.

Valdácio conta que procurou o albergue após uma cirurgia que fez no braço. "Nesse frio, dói demais. Por isso vim aqui. Mas quero, em breve, ir embora para tentar reconstruir minha vida".

Ir embora é o que fará hoje Cristian Orência de Andrade, 27 anos. Ele, que é de Foz de Iguaçu (PR), saiu de casa há 15 anos após a morte dos pais. "Eu já andei quase o Brasil inteiro. Vim a Bauru procurando trabalho, mas não encontrei nada. Amanhã (hoje), vou para São José do Rio Preto".

Questionado sobre o que ele mais queria na vida, faz coro ao restante dos moradores de rua do albergue. "Queria um lar. Ainda acho que vou conseguir ter minha casa e construir minha família", finaliza Orêncio.

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