Hoje acordei desejando um dia diferente. Sem abandonar alguns hábitos agradáveis e importantes. Banho, escovar os dentes, desjejum com café e leite, pão e coalhada seca que faço todas as semanas. Em seguida, ler o jornal. É justamente neste momento em que começam os desejos de um dia diferente. O anseio de ler somente coisas boas. Sem notícias de drogas e seus traficantes. Sem assaltos, crimes e estupros. Sem informes de acidentes por negligência, e ladrões de capacetes com suas motos. Sem corrupção de políticos. Sem terrorismo nos países de povo fanático matando-se e matando em nome de Deus. Que deus é esse cultuado por pessoas cruéis e sanguinárias? Que deus impiedoso é esse que a obstinação estrábica criou? Queria um dia diferente sem homens abatendo e destruindo a Natureza. Sem temporais devastadores provavelmente provocados por mãos egoístas com os lucros nos desmatamentos. Queria a primavera com flores, o calor no verão, fartura de frutas no outono e o frio somente no inverno. Que tudo fosse como antigamente. Cada estação do jeitinho como era esperada. Hoje cada dia é diferente com novas ondas de bandidagens. Menos respeito social e profissional. Nas escolas, alunos agredindo professores. Nos lares, pais e filhos se desrespeitando. No trabalho, colegas traindo para se promoverem. Nas ruas, assaltos por facínoras insensíveis. Vontade de um dia diferente com alguém não largando o carrinho nos estacionamentos dos supermercados. Respeitando as vagas para idosos, inclusive no shopping. Aspiração de um dia diferente com todas as pessoas, mesmo não se conhecendo, cumprimentando-se ao se cruzarem nas ruas, avenidas e alamedas das vidas. A satisfação de ver as crianças sozinhas a caminho das escolas sem nenhum risco, e a volta tranqüila para a casa. A pretensão de que a educação prevaleça. Que os governos se preocupem mais com a família do cidadão aos seus interesses políticos e pessoais. Num sonho, o propósito de que governadores, vereadores, deputados e senadores, tenham dignidade e a sensibilidade de se entenderem eleitos para criarem leis em benefício da sociedade. Principalmente dos menos privilegiados. Que o consumidor não seja tão explorado pela propaganda, tornado-se comprador compulsivo sem imaginar o juro absurdo que paga. O desejo que os impostos não onerassem tanto o salário e os produtos necessários à sobrevivência. O feijão com arroz. Eu queria um dia diferente com as pessoas confiando cegamente umas nas outras. Que portas e janelas ficassem abertas. E a gente pudesse fazer caminhada a qualquer hora do dia ou da noite. A alegria de dar amor ao próximo e receber o seu amor. Eu queria um dia diferente em que a gente não tivesse receios, que o perigo não rondasse, e dormir em paz sem medos do dia seguinte. Queria que todos os rebanhos se unissem e caminhasse na mesma direção.
Queria que todas as pessoas, ao menos uma vez ao dia, voltassem os olhos para o céu, e vissem além das nuvens e das estrelas... Finalmente eu queria que um dia todos, no mundo inteiro, parassem por um curto momento as suas atividades, e meditassem no valor da vida, dos talentos recebidos, e descobrissem a força do amor, do poder e da honra. Quão tolo este sonho fantástico da minha cabeça. Se acharem que mereço, podem até me chamar de louco. Não vou nem discutir. Acho que terei esse dia diferente somente depois da minha passagem na Terra e se aqui eu tiver feitos para merecê-lo.
O autor, Munir Zalaf, é membro da Academia Bauruense de Letras, escritor, poeta e palestrante voluntário