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Música com palavrão vira debate escolar

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

É consenso entre os educadores o uso de músicas, extensivo a outras manifestações artísticas, no ensino para adolescentes, desde que sua utilização venha alicerçada em um contexto de aprendizado pertinente e com um grupo capaz de assimilar a intenção educacional.

Por trás desta visão há a certeza de que a escola não pode se ensimesmar e se esquecer das outras influências que o aluno tem na sua formação, como o grupo social, rádio, TV, imprensa, livros e Internet.

Após a repercussão de um caso ocorrido em uma escola estadual no Bauru I, divulgado pelo JC nesta quarta-feira, ontem a reportagem ouviu especialistas em educação sobre o recurso de usar em sala de aula letras com palavrões ou expressões apelativas ou depreciativas.

Não houve desaprovação, desde que o educador tenha a segurança de que tem o controle da situação. A professora da Universidade Sagrado Coração (USC) e doutora em linguística Érika de Moraes segue uma estratégia ainda mais ousada.

Como exemplo, ela indica a utilização de um rap, mesmo com palavrões, em contraponto com "A Tonga da Mironga do Kabuletê, composição do poeta Vinicius de Moraes e do cantor Toquinho.

A expressão que se transformou no título da música tornou-se amplamente conhecida e foi regravada por uma série de cantores. Trata-se de um xingamento em nagô ensinado a Vinicius por sua esposa na época (década de 70), a atriz baiana Gesse Gessy.


Vinicius de Moraes

Ele introduziu a expressão na composição para manifestar sua contrariedade ao regime militar (1964-1985). Para a linguista Érika, quando Vinicius dispara "eu vou é mandar você ?pra? tonga da mironga do kabuletê", ele não profere uma palavra chula porque não é de uso da língua portuguesa, mas acaba manifestando sua insatisfação.

A professora entende que a escola é um espaço para discussões e que a música é um bom material para isso, mesmo as que possuem palavrões. Porém, necessariamente tem que haver um sentido para propor essa discussão entre os alunos.

"É válido, desde que o professor não leve a música (à sala de aula) só por levar. Ele pode abordar outros aspectos e comparar com outros estilos", frisa. A educadora avalia que o estudante tem acesso a conteúdos na Internet, com os colegas, no rádio ou em outros meios.

A diretora do departamento de ensino fundamental da Secretaria Municipal de Educação, Elisabete Pereira, aprova o recurso no ensino fundamental. Ela cita que nas escolas da rede municipal é comum os docentes usarem música nas aulas.

Elisabete diz que a orientação é para utilização de composições que estejam de acordo com o objetivo pedagógico da aula e que se evite letras que dão margem para o estudante estigmatizar os colegas, ou com palavras que causem constrangimento. Ela lembra que os professores conhecem a maturidade de suas turmas no trato de determinados temas.

Quanto a palavrões, não há proibição explícita, mas há a recomendação para que não se utilize. Neste sentido, a secretaria garante a autonomia de escolha do educador. "Se o professor souber conduzir o debate, a responsabilidade desse trabalho é dele."

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Para Apeoesp, conteúdo da Rede
interfere na autonomia do docente


A situação que trouxe à tona o uso de uma música com palavrões foi a letra de "Estilo Vagabundo", do rapper carioca MV Bill, no conteúdo oferecido aos professores da rede estadual pela Secretaria de Estado da Educação na Rede São Paulo de Formação de Docentes (Redefor). A Redefor foi estabelecida em um convênio entre a secretaria com a USP, Unesp e Unicamp.

A diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Suzi da Silva, critica a interferência do governo estadual na autonomia do professor na preparação de suas atividades, com base na realidade da sua comunidade escolar.

Suzi destaca a qualidade de parte do conteúdo oferecido pela secretaria. Entretanto, a representante da Apeoesp avalia que os educadores gostariam de abolir certos conteúdos por entender que há inadequação.

"Existe uma cobrança muito grande para que ele utilize esse material. E acaba, muitas vezes, tendo problemas com os pais e alunos que não concordam e com a própria comunidade escolar."

Como educadora, Suzi avalia que os estudantes mantêm contato com músicas pesadas fora da escola e tiram suas conclusões, muitas vezes, de maneira errada e sem orientação. Ela é favorável à utilização de letras de música "polêmicas" em turmas em que se consiga trabalhar adequadamente.

Contudo, faz uma ressalva devido ao perfil dos estudantes. "O que a gente percebe hoje é que os alunos conseguem deturpar tudo o que ouvem, e a realidade na sala de aula é muito puxada. Se a gente conseguir trazer um material para trabalhar até mesmo esse assunto, seria mais viável para o tipo de aluno que nós temos hoje na escola", finaliza.

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