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Lapsos políticos

Telma Gobbi
| Tempo de leitura: 3 min

Lapso, intervalo de tempo ou erro, conforme nosso amigo dicionário define. Entretanto, temos que ter a mente aberta para as outras utilizações da palavra a exemplo como ato falho que pode ocorrer a qualquer um e a qualquer tempo. Que ocorra um ato falho, um lapso freudiano ou parapráxis, erro na fala, na memória ou em uma ação física causada pelo inconsciente de uma pessoa debilitada na sua atividade cerebral podemos aceitar, mas não de uma pessoa ativa em posição legisladora no nosso país com o intuito de omitir parte tão importante da história, o impeachment do ex-presidente Collor, isto é inaceitável.

A explicação do senador José Sarney é de que a renúncia do presidente Fernando Collor deveria ficar fora da história política do Brasil, pois foi um "acidente" no passado brasileiro. "Eu não posso censurar os historiadores que foram encarregados de fazer a história. Mas acho que talvez esse episódio seja apenas acidente que não deveria ter acontecido na história do Brasil", disse, mas aconteceu.

Este ato falho, como queiram determinar o impeachment do presidente Fernando Collor, talvez seja o momento em que os brasileiros tiveram a maior lucidez política de todos os tempos e entenderam que o governo é do povo e para o povo e não um ato umbilical. O povo tem as decisões em suas mãos e não deve de forma alguma ficar na posição passiva aceitando desmandos e roubalheira explicita sem se posicionar.

Nosso senador José Sarney esqueceu de colocar na galeria do tempo do Senado a morte do presidente eleito Tancredo Neves, um lapso do destino que cerceou a pessoa eleita de fato para assumir a posição presidencial delegada pelo povo brasileiro. Sua posse como presidente tem destaque e atributos festivos, com a foto de nosso senador José Sarney realizando o juramento à constituição ao se tornar presidente, por um lapso do destino.

Outros atos falhos e bizarros da nossa política analisados friamente e de forma lógica podem revelar o verdadeiro e profundo significado de omissões da nossa história, como referenciado por nosso senador ao ser indagado sobre o impeachment, de seu antigo desafeto e agora aliado Fernando Collor, disse "não é marcante", por pura conveniência este fato é inconveniente e por pura conveniência muitos outros fatos são maquiados para cair no esquecimento.

Alguns atos falhos de nosso cenário político devem ser reavivados em nossa memória. Nos anos 70; o caso da Eletrobrás, caso das grandes mordomias dos ministros no governo Geisel, anos 80; escândalo da mandioca, caso Abi-Ackel, CPI da corrupção, anos 90; escândalo do INSS, FGTS, escândalo da SUDENE, anos 2000; escândalo da quebra do sítio do painel eletrônico do Senado, caso Daniel Dantas, escândalo do Propinoduto, escândalo do mensalão, escândalo dos dólares na cueca, escândalo do caseiro Francelino. Mas são todos atos falhos e não merecem recordação, é apenas "acidente".

Devemos também aceitar como "acidente do destino" a multiplicação dos pães de nosso amigo Palocci, pois é muito fácil multiplicar por 20 nosso patrimônio, basta saber um pouquinho de matemática à brasileira, pois estas multiplicações, somas, divisões e ou subtrações podem ter resultados inesperados como no livre do MEC onde "dez menos sete é igual a quatro" e talvez seja este o motivo de não conseguirmos entender as explicações do ex-ministro, mas arcamos com as contas destes lapsos.

A autora, Telma Gobbi, é médica e colaboradora de Opinião

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