O psicólogo e diretor da Sociedade Brasileira de Resiliência George Barbosa diz que o processo de ajudar, como na ação voluntária libera um hormônio que melhora os vínculos entre pessoas. Ser resiliente é saber enfrentar situações adversas e de estresse elevado com habilidade de enxergar, compreender e tomar decisões apropriadas. Há cuidados que precisam ser tomados por quem procura uma atividade voluntária.
Qual a importância de desenvolver um trabalho de voluntariado, no campo pessoal e no profissional?
George Barbosa - A importância está em desenvolver o altruísmo entre as pessoas. Quanto menor o espírito voluntário, menor o altruísmo para com outras pessoas.
Quais os impactos físicos e psicológicos da atividade?
George Barbosa - Um espírito em ação voluntária contribui para o equilíbrio entre o hormônio que consome reservas do corpo (cortisol) e o que potencializa tais reservas (DHEA). Essas pessoas se tornam mais positivas em suas ações, arrojadas, fortes e, por que não, corajosas.
Existe um processo químico quando uma pessoa ajuda outra?
George Barbosa - O envolvimento aumenta a produção de oxitocina - hormônio essencial para elevar a qualidade dos vínculos entre as pessoas. Isso melhora os níveis de noradrenalina, substância que modula a memória e a atenção. Mesmo com idade elevada, pessoas envolvidas em atividades voluntárias preservam atenção e memória.
No caso de quem vai a campo, qual a necessidade de se preparar para encarar situações extremas?
George Barbosa - Para saber como falar e atuar. Em várias ocasiões de desastres a ação mais importante não é tocar a outra pessoa, mas transmitir um relato fiel da situação encontrada. Ou desenvolver a resiliência em quem é ajudado. Isso requer treino. É preciso capacitar o voluntário para que ele não desenvolva um quadro de Estresse Pós-traumático. Em catástrofes e guerras, é um cuidado é fundamental.
O que pode acontecer a quem se submete a uma atividade desse tipo sem preparo psicológico?
George Barbosa - A adesão a uma visão minimalista da vida, a adesão de forma radical a uma ideologia ou religião. É comum vermos pessoas com fraco senso de discernimento e intolerantes com diferenças.
Qualquer pessoa está apta a todo tipo de voluntariado?
George Barbosa - Creio que existe um perfil específico psicológico para diferentes tipos de trabalhos. Pessoas com determinadas vulnerabilidades não deviam se envolver com certos tipos de voluntariado. Por exemplo, filhos de alcoólatras devem evitar o trabalho com alcoolistas, pelo risco de desenvolverem um papel de codependentes. É necessário um treino constante para que isso não aconteça.
Há uma teoria que defende que quem faz voluntariado está, na verdade, pensando em si mesmo. O ser humano precisa disso por rendição?
George Barbosa - Precisar, não precisa. Mas não há dúvida de que a atividade desse tipo desenvolve o senso de humanidade, o altruísmo, além de valores morais.
Para ser voluntário
No site do Médicos Sem Fronteiras, há requisitos que revelam se você está preparado ou não para se candidatar aos projetos da organização. Veja alguns pontos importantes:
1 ) Ser um profissional formado e com experiência
2) Atuar nas áreas de Medicina, Enfermagem, Administração, Finanças, Logística, Laboratório e Análises Clínicas, Farmácia, Psicologia, Antropologia ou Sociologia
3) Falar pelo menos mais um idioma, além de português. Inglês e francês são os mais pedidos. Mas árabe e espanhol também são desejados
4) Ter disponibilidade para ficar no mínimo 12 meses no exterior
5) Ter experiência pessoal ou profissional fora dos grandes centros urbanos
6) Ter interesse e ou experiência com pessoas que vivem em condições difíceis, sofrem violações de direitos humanos e/ou são vítimas de conflitos e catástrofes naturais
7) Estar disposto a viver e a trabalhar em condições difíceis, estar em países em que possa haver um conflito ou outra situação grave e ficar até 12 meses longe da família
Andar com cães e escrever cartas: isso também é voluntariado
Atividade voluntária não precisa ser extrema ou envolver grandes deslocamentos e situações difíceis. Há diversas instituições que precisam de ajuda em serviços simples e que se adequam a agendas apertadas. O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de São Paulo, tem o programa Cãominhada, em que voluntários levam os cães abrigados para passeios. Em média, 50 "passeadores" previamente inscritos realizam a atividade todos os domingos, das 10h às 12h. A Cãominhada envolve ainda uma palestra para orientações. O projeto diminui o estresse dos animais e os torna mais dóceis.
E até quem não se dispõe a sair de casa pode fazer voluntariado. O Instituto de Projetos Sociais (InPróS) desenvolve o projeto Correspondentes, que consiste na troca de correspondências com crianças e adolescentes em situações de risco. "Nas cartas, crianças expõem seus sentimentos. É um exercício de reflexão que auxilia na reconstrução da história de vida desses jovens", diz a gestora do InPróS, Cirlene Carvalho. Hoje, 517 pessoas participam do Correspondentes. O projeto engloba 50 serviços, entre eles instituições de acolhimento e o Centro da Criança e do Adolescente (CCA). Desde o início do projeto, em 2004, foram trocadas mais de 20 mil cartas.