O dito popular "tirar leite de pedra" é a pratica do pequeno agricultor bauruense que quer ser grande com a implantação do Complexo de Agricultura Familiar (CAF) em Bauru. A grandeza não está relacionada ao tamanho da produção, já que se trabalha com pequenas propriedades, mas com a qualidade, utilização de tecnologia e capacitação do pequeno produtor.
O CAF agregará valor aos produtos agrícolas de 133 famílias que integram a Associação Bauruense de Apicultores, Meliponicultores e Ambientalistas (Abama), com produtores de Bauru e região.
A busca de recursos para a criação do CAF dependia também de uma área para instalar o empreendimento produtivo. A Câmara Municipal avalia o projeto de lei em que a Prefeitura de Bauru propõe ceder uma área do município na avenida Lúcio Luciano para a Abama, próximo da unidade da Fundação Casa.
Neste lugar, a associação projeta instalar um grande centro de beneficiamento de alimentos in natura e de preparação do agricultor familiar. O exemplo do que é projetado vem da tilápia, que sai da linha de produção como filé e congelado em nitrogênio. Da mesma forma que a piscicultura pode se beneficiar, o processamento pode valorizar ainda mais o mel, seus derivados, frutas, legumes, verduras e granjeiros. O presidente da Abama, Guilherme Carlos de Oliveira Telles Nunes destaca que o produto sai do processamento embalado, atendendo as exigências de higienização e certificado.
No terreno de 10 mil m², os agricultores familiares pretendem instalar um centro de convenções, telecentro comunitário, área de lazer, docas, salas para atividades educacionais, laboratórios de alimentos, unidade de processamento para frutas, mel, própolis, cera, verduras, legumes, peixe entre outros produtos. A proposta de cessão da área é por 10 anos, renováveis por mais 10 anos.
A Abama tem como função agregar valor aos produtos, quebrar com o ciclo do atravessador e solucionar o gargalo de transporte e distribuição de alimentos.
Microbacias 2
A Abama atrelou o CAF ao Programa Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável Microbacias 2 - acesso ao mercado, pleiteando R$ 800 mil, mas podendo chegar a R$ 1,147 milhão.
O vice-presidente da Abama Marcos Augusto Gomyde destaca que a Associação também dará uma contrapartida. Os recursos do microbacias são disponibilizados pela parceria Banco Mundial (Bird) e governo estadual.
O programa é desenvolvido pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati). Ontem, o engenheiro agrônomo Marco Aurélio Parolin Beraldo deu mais um curso aos integrantes da Abama. Neste encontro, já foram definidos grupos de apicultura, do FLV (Frutas, Legumes e Verduras) e de piscicultura, em fase de formação.
Beraldo destacou que o curso do microbacias 2 auxilia o pequeno produtor de como agregar valor aos produtos, além de uma entidade obter acesso para aquisição de equipamentos para o beneficiamento dos produtos.
No dia 6 de julho, Bauru promove a 1ª Conferência Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional. O encontro será no auditório do Sesc-SP, unidade de Bauru, na avenida Aureliano Cardia, 6-75.
Bauru ?mata? os pequenos agricultores ?importando? produtos para a merenda
Um dos problemas combatidos pelos produtores associados da Associação Bauruense de Apicultores, Meliponicultores e Ambientalistas (Abama) é o atravessador. A agricultura familiar do município aguarda para este ano, que já está na metade, uma chamada pública para fornecer alimentos para a merenda escolar do produtor direto para a escola, sem o intermediário.
Segundo O presidente da Abama, Guilherme Carlos de Oliveira Telles Nunes, a Prefeitura de Bauru conta com cerca de R$ 8 milhões anuais em verbas federais para adquirir produtos para a merenda. Segundo dados da Abama, 70% desse valor vai para fornecedores de fora de Bauru. O problema é que a participação local com maior intensidade depende da organização do produtor local.
No ano passado, a Abama vendeu R$ 187.510,00 para a prefeitura. Em contrapartida, os dirigentes da Abama presenciaram um atravessador levar para São José do Rio Preto cerca de R$ 4,5 milhões em vendas para a merenda escolar da cidade.
Nas contas da Abama, o dinheiro poderia ficar na economia local, irrigando o comércio de insumos agrícolas para a lavoura, equipamentos para as pequenas propriedades e todo tipo de gêneros adquiridos no comércio da cidade pelas 133 famílias da agricultura familiar e que integram a Abama.
Por determinação de uma lei federal de 2009, 30% dos recursos repassados aos municípios pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), relativos ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), devem ser usados na aquisição de alimentos provenientes da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas. A aquisição pela prefeitura pode dispensar licitação, desde que os preços sejam compatíveis com os praticados no mercado local (lei 11.947, que converteu em legislação a medida provisória 455, de 2008, e também a resolução número 38 do FNDE).
O vice-presidente da Abama Marcos Augusto Gomyde comenta que os produtores estão ansiosos para a chamada pública. Ele esclarece que se cumprida a lei federal de 30% seria um excepcional incremento na economia das famílias.
Para Nunes, há vários aspectos que precisam ser observados além do econômico e do cumprimento da legislação federal pela Prefeitura de Bauru. Segundo ele, o conceito de agricultura familiar deve ser assimilado com urgência pela administração pública municipal. Ele cita como reflexo negativo a emissão de carbono provocada pela logística de transporte de alimentos consumidos em Bauru e que são "importados" de outras regiões do Estado e até do país. Outro fator citado pelos dirigentes da Abama é a expansão da monocultura canavieira e do pinus pela falta de perspectivas dos lavradores. Em decorrência, há um êxodo de famílias para a zona urbana ? movimento recorrente em todo o Brasil.
Gomyde destaca o perfil de propriedade pequenas de Bauru com grande potencial para a expansão da agricultura familiar. No programa da Conab/PAA Doação, os produtores da Abama atuam com o Mesa Brasil do Sesc em que fornecem mel para 76 instituições assistenciais. Os associados também fornecem para a merenda escolar de Bauru para 220 escolas das redes municipal e estadual, dentro do PNAE.