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Homem do tempo do Brasil vive em Bauru

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

Em um tempo não muito distante, principalmente entre as décadas de 60 e 80, boa parte dos nordestinos, assolados pelo tempo que, ora era seco demais, ora trazia enchentes, não viam outra alternativa senão migrar para outras regiões do País, como as grandes cidades do Sudeste. Mas, mesmo com todo o sofrimento, resiste o bom humor característico. E foi em meio à alegria do forró de Campina Grande, na Paraíba, e do sofrimento daquele povo, que nasceu o personagem da história que você vai conhecer: João Carlos Figueiredo ou o "homem do tempo", como já é conhecido em Bauru.

Ter 17 filhos é muita coisa, certo? Não para a mãe de Figueiredo. Ele lembra que, certa vez em visita a Bauru, sua mãe preparou um delicioso almoço típico da Paraíba para os amigos do filho e, na ocasião, uma moça perguntou quantos filhos ela teve. Para a surpresa de todos, a paraibana respondeu com tristeza que Deus havia lhe dado somente 17 herdeiros.

"Eu e meus 16 irmãos nascemos em uma terra onde as pessoas já nascem sofridas, mas dançando. Fui o único deles a fazer um curso universitário. E para falar a verdade, nunca gostei de estudar, mas também nunca tirei da cabeça uma frase dita por meu pai. Ele dizia sempre que não existe salvação sem estudos. Levei isso a sério e corri atrás do prejuízo", conta o meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet).

Assim como boa parte dos nordestinos, foi a oportunidade de emprego que trouxe Figueiredo a São Paulo. "Embora sabedor do sofrimento do meu povo por causa do tempo, não foi isso que me levou à meteorologia. Fui me apaixonando aos poucos pela profissão", lembra o presidente da SBMet".

Segundo ele, tudo começou na década de 80, em plena Ditadura Militar e na Universidade Federal da Paraíba. Como a engenharia é um dos cursos de referência do Estado, o intuito era fazer esse curso, mais precisamente engenharia elétrica. "Não passei no vestibular e fui para o Rio de Janeiro viver com meus irmãos, onde passeei e trabalhei um pouco, mas a filosofia de meu pai sempre falava à minha mente e voltei para Campina Grande".

De volta à terra natal, Figueiredo estudou feito muito e decidiu prestar vestibular para meteorologia que, por ser um curso novo, teria menor concorrência. Depois, ele poderia transferir o curso, coisa que não aconteceu porque se apaixonou por aquela profissão que parecia ser promissora.

Já formado, o paraibano passou em um teste para um curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No início, não tinha nem lugar para dormir ou comer. "De lá eu fui para Brasília, onde sofri bastante pelo baixo salário inicial, mas estava aprendendo. Foi lá que conheci minha esposa, Rosa Márcia, assistente social da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). Até que um dia precisei escolher entre ir para São Paulo ou voltar para a Paraíba", relembra.


Da terra do forró para a cidade do sanduíche

Do trabalho com a meteorologia na Capital Federal, João Carlos Figueiredo escolheu a Capital de São Paulo para viver e trabalhar. No Estado, ele foi o primeiro meteorologista formado.

Porém, por problemas de saúde, a cidade de São Paulo já não se mostrava um bom lar. "Foi quando apareceu a oportunidade de vir para Bauru. Quando aqui cheguei, apaixonei-me pela cidade. Tive meus dois filhos em São Paulo, mas foram criados e educados aqui. São 30 anos de profissão e 23 anos na cidade".

Em 2011, o meteorologista foi eleito o presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet) com 97% de aceitação.

Segundo Figueiredo, muitas coisas marcam o seu trabalho com os bauruenses, uma delas foi uma ideia do radialista José Esmeraldo. Há alguns anos, todos os dias pela manhã, o meteorologista entrava no ar para responder perguntas dos agricultores. "Foi muito bom. Pena que durou pouco".

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Previsão até em padaria e supermercado


200 ligações em um único dia. Esse foi o recorde de atendimentos feito pela equipe do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet), João Carlos Figueiredo, às vésperas de feriados e às sextas-feiras são os dias em que as ligações são mais frequentes, principalmente se o dia apresentar vento forte, estiver nublado ou com chuva.

"Moro no Geisel e, sempre que chego, o padeiro diz: Chegou o homem do tempo e todo mundo começa a perguntar se vai chover, se vai esfriar. No supermercado é a mesma coisa. Hoje levo isso numa boa, mas nem sempre foi assim. Eu não gostava porque já trabalhava com isso e, no meu lazer, não queria saber de perguntas. Mas minha mulher me explicou que isso é importante e hoje gosto muito desse contato", revela Figueiredo.

E quanto às ligações para o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), elas são as mais variadas possíveis. Tem a dona Lurdes, uma cadeirante que mora no Núcleo Habitacional José Regino e que tem pavor de raios porque um dia acompanhou uma reportagem relatando a história de um raio que veio pela antena e pegou a pessoa assistindo à TV. E como ela gosta muito de ver novelas, Figueiredo diz que ela sempre liga para saber se dá tempo de ver o programa antes da chuva. "É uma de nossas ligações mais especiais".

Outras pessoas ligam por terem medo de vento. Mototaxistas querem saber quando a chuva vai parar para fazerem as entregas. Os assessores do governador ligam para perguntar se vai chover na hora de um evento ao ar livre... De acordo com o meteorologista, tem até vendedores que ligam para saber sobre a temperatura antes de decidirem o que é melhor vender em um jogo de futebol, por exemplo.

O mesmo acontece com quem vai cobrir telhados ou fazer asfalto ou com os engenheiros que pedem laudo meteorológico para justificar o atraso das obras. "São pessoas inteligentes que confiam e usam a meteorologia para ganhar dinheiro. Mas aqui isso ainda é pouco, nos Estados Unidos, isso é muito usado. Eles fazem isso há anos".

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