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Bauru é pouco digital, mostra pesquisa

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Ranking divulgado na semana passada deixou os bauruenses com uma falsa sensação de orgulho. A cidade foi apontada como a 25.ª mais digitalizada do Brasil. Entretanto, a pesquisa, que envolveu apenas 75 municípios, evidencia outra realidade: Bauru está muito longe de ser considerada "digital". Entre seis níveis que apontam crescentemente o grau de digitalização, Bauru ficou no segundo. A carência digital é comprovada pelas repartições públicas, que correm "atrás do prejuízo" (leia mais abaixo).

O trabalho, realizado pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) e pela Momento Editorial, classificou as cidades em seis níveis de digitalização. Segundo o pesquisador e coordenador para Cidades Digitais, Marcos de Carvalho Marques, o levantamento visa analisar o nível de urbanização digital e verificar questões como a infraestrutura de digitalização dos municípios.

A pesquisa foi feita a partir de categorias que focavam não somente a infraestrutura tecnológica - presença de equipamentos primários, banda, cobertura geográfica, entre outros -, mas também a disponibilidade de serviços digitais ? eficiência de sites - e recursos de acessibilidade, por exemplo, para pessoas com deficiências físicas ou analfabetas.

Após responder questionários e cruzar os dados com Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Bauru foi classificada como "Telecentro". Esta é a segunda pior classificação na escala que, de forma crescente de digitalização, compreende os níveis "Básico", "Telecentro", "Serviços Eletrônicos", "Pré-Integrado", "Integrado" e "Pleno".

"O que pesou para essa classificação foi a inexistência de locais públicos bem equipados e com acessibilidade. A banda de Internet disponibilizada à população também foi um problema", explica o pesquisador Marcos de Carvalho Marques.

Para Paulo Milreu, especialista em mídias digitais e presidente da Associação Centro-Oeste Paulista das Agências Digitais (ACOPADi), Bauru investe pouco na digitalização. "O atendimento ainda é arcaico em repartições públicas e também em várias empresas. Se percebo isso ao meu redor, imagine na periferia ou mesmo onde o cidadão menos privilegiado participa e se relaciona com outros?".

Um dos maiores entraves à digitalização é a banda larga. Ou melhor, segundo Paulo Milreu, "banda estreita". "Ainda estamos sofrendo na mão de poucos fornecedores corporativos e ainda sem uma clara intenção de melhorar esse cenário. Se nos voltarmos à população em geral teremos um situação ainda mais caótica. Vivemos com uma banda larga que em países evoluídos é considera banda estreita".

Questionado se a "popularização" de computadores contribui para a uma maior digitalização de Bauru, o especialista afirma que isso ocorre parcialmente, porém, complementa que não é mais necessário pensar em "inclusão social", mas sim "educação digital".

O prefeito Rodrigo Agostinho concorda que ainda falta muito para que a cidade seja considerada digitalizada. "Entendemos por cidade digital aquela que ofereça muitos serviços por esse meio. Estamos tentando completar esse processo dentro da própria prefeitura. Fizemos um investimento pesado, porém, é aquele em infraestrutura, que não aparece".

Agostinho também aponta outro problema na digitalização da prefeitura: vários sistemas "não conversam" entre si. Como ponto positivo, ele ressalta que o site do Executivo já oferece uma série de serviços, porém, reconhece que grande parte da população os desconhece.

Paulo Milreu discorda da "acessibilidade" do site municipal, afirmando que, na verdade, é "um site nada amigável e onde o foco não é o cidadão comum". "Hoje o cidadão está muito presente nas redes sociais se posicionando. E onde está o governo? Está lá no seu site. É necessário que o homem público compreenda esse novo cidadão e participe com ele, mas onde ele está. A informação precisa ser melhor democratizada", completa o especialista.


Saúde


Quando se fala em digitalização/informação, uma das principais novelas em Bauru é a da Secretaria Municipal da Saúde. Unidades Básicas de Saúde ainda vivem na "era da ficha", o que complica o acompanhamento de pacientes.

O secretário Fernando Monti promete o capítulo final desse enredo para o segundo semestre deste ano. "Estamos analisando um programa usado em Maringá (PR). Parece que esse será o caminho. Com isso, iremos organizar o sistema de saúde e poderemos acompanhar melhor o paciente".

Entretanto, Monti já afirma que possivelmente só haverá integração entre as unidades do município, uma vez que o software não "conversará" com instituições de esferas estaduais, como o Hospital Estadual.


Fórum


No Fórum de Bauru também não há digitalização dos processos. Segundo o juiz diretor, Mauro Ruiz Daró, existe a informatização, mas não o processo digital.

"Temos a rede interligada, porém, os processos ainda são todos feitos no papel. Alguns atos ficam na Internet para que os advogados tenham acesso, mas não são todos".

O magistrado afirma que somente alguns cartórios modelos na Capital são digitalizados e que não existem planos para expansão. "Existem estudos sobre como isso agilizaria e tornaria mais rápido. Entretanto, não há nada concluído".

Para o especialista em mídias digitais Paulo Milreu, a digitalização tornaria os processos mais rápidos, pois haveria uma melhor gestão de procedimentos e uma análise mais detalhada da informação que está parada.


Câmara


A Câmara Municipal também é outra repartição que busca a modernização. Segundo o diretor administrativo da casa, Roberto Cândido Munhoz, há um concurso em andamento para a contratação de funcionários de informática, cuja expectativa é de que estejam trabalhando até o final do ano. Também há processos de compras de equipamentos.

Por meio do site, pode-se acompanhar apenas tramitação de processos, uma vez que não é possível que sejam visualizados na íntegra. O especialista em mídias digitais Paulo Milreu afirma que, assim como o site da prefeitura, a página do Legislativo não é destinada ao cidadão e "olha para si mesmo".

A digitalização de grande parte dos arquivos já foi feita e, segundo Roberto Munhoz, podem ser acessados pelo site. Porém, o diretor administrativo informa que parte ainda não foi digitalizada por conta do imenso volume gerado ao longo dos anos.

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Telecentro? Por enquanto, só no nome


Apesar de Bauru ter sido classificada na pesquisa no nível "Telecentro", por enquanto esse nome não reflete a realidade da cidade. Apesar de ter sido contemplada pelo Governo Federal com 51 Telecentros Comunitários, nenhum está funcionando ainda.

A expectativa era de que os nove primeiros começassem a funcionar em março e os outros 42 restantes até junho. "Vejo esse atraso como natural. Tudo que envolve dinheiro público é assim", argumenta o diretor da seção municipal de elaboração de projetos, captação de recursos e convênios da prefeitura, Francisco Maia.

Com isso, ele prevê que os nove primeiros telecentros sejam instalados dentro de 40 dias e o restante até o final do ano. Hoje, de acordo com Maia, a cidade conta apenas com três telecentros.

Eles atenderão a demanda nos bairros mais afastados do Centro. Cada um terá 11 computadores e dois monitores contratados para acompanhar os usuários.

As unidades serão gerenciadas pela Secretaria Municipal de Cultura e o espaço deverá ser utilizado também para a realização de cursos e atividades que estimulem e levem mais conhecimento e cultura à população beneficiada.


Educação


A Secretaria Municipal de Educação garante ter avançado no processo de informatização. Entretanto, o "correr atrás" ainda continua. Mesmo com computadores em todas as escolas da educação infantil e instalação de laboratórios no ensino fundamental, ainda falta digitalizar todo o arquivo existente.

A secretária Vera Casério afirma que já há uma rede única e uma central de vagas que, provavelmente, estarão completas até o fim do mês. O próprio prefeito Rodrigo Agostinho reconheceu que esse é um importante problema solucionado, uma vez que muitas mães solicitavam vagas em diferentes unidades, gerando duplicidade de informações.

A Secretaria de Educação informa que um software de gestão educacional irá reunir os dados de todos os alunos. "Agora, vai ficar mais rápido. Antes, o pai pedia o histórico e precisávamos de três ou quatro dias para fazer tudo à mão", relata, dando a dimensão da precariedade anterior.

Porém, o caminho ainda é longo. Segundo Vera Casério, o trabalho de capacitação nesse software está sendo realizado na quarta escola, de um total de 77.

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