Ranking divulgado na semana passada deixou os bauruenses com uma falsa sensação de orgulho. A cidade foi apontada como a 25.ª mais digitalizada do Brasil. Entretanto, a pesquisa, que envolveu apenas 75 municípios, evidencia outra realidade: Bauru está muito longe de ser considerada "digital". Entre seis níveis que apontam crescentemente o grau de digitalização, Bauru ficou no segundo. A carência digital é comprovada pelas repartições públicas, que correm "atrás do prejuízo" (leia mais abaixo).
O trabalho, realizado pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) e pela Momento Editorial, classificou as cidades em seis níveis de digitalização. Segundo o pesquisador e coordenador para Cidades Digitais, Marcos de Carvalho Marques, o levantamento visa analisar o nível de urbanização digital e verificar questões como a infraestrutura de digitalização dos municípios.
A pesquisa foi feita a partir de categorias que focavam não somente a infraestrutura tecnológica - presença de equipamentos primários, banda, cobertura geográfica, entre outros -, mas também a disponibilidade de serviços digitais ? eficiência de sites - e recursos de acessibilidade, por exemplo, para pessoas com deficiências físicas ou analfabetas.
Após responder questionários e cruzar os dados com Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Bauru foi classificada como "Telecentro". Esta é a segunda pior classificação na escala que, de forma crescente de digitalização, compreende os níveis "Básico", "Telecentro", "Serviços Eletrônicos", "Pré-Integrado", "Integrado" e "Pleno".
"O que pesou para essa classificação foi a inexistência de locais públicos bem equipados e com acessibilidade. A banda de Internet disponibilizada à população também foi um problema", explica o pesquisador Marcos de Carvalho Marques.
Para Paulo Milreu, especialista em mídias digitais e presidente da Associação Centro-Oeste Paulista das Agências Digitais (ACOPADi), Bauru investe pouco na digitalização. "O atendimento ainda é arcaico em repartições públicas e também em várias empresas. Se percebo isso ao meu redor, imagine na periferia ou mesmo onde o cidadão menos privilegiado participa e se relaciona com outros?".
Um dos maiores entraves à digitalização é a banda larga. Ou melhor, segundo Paulo Milreu, "banda estreita". "Ainda estamos sofrendo na mão de poucos fornecedores corporativos e ainda sem uma clara intenção de melhorar esse cenário. Se nos voltarmos à população em geral teremos um situação ainda mais caótica. Vivemos com uma banda larga que em países evoluídos é considera banda estreita".
Questionado se a "popularização" de computadores contribui para a uma maior digitalização de Bauru, o especialista afirma que isso ocorre parcialmente, porém, complementa que não é mais necessário pensar em "inclusão social", mas sim "educação digital".
O prefeito Rodrigo Agostinho concorda que ainda falta muito para que a cidade seja considerada digitalizada. "Entendemos por cidade digital aquela que ofereça muitos serviços por esse meio. Estamos tentando completar esse processo dentro da própria prefeitura. Fizemos um investimento pesado, porém, é aquele em infraestrutura, que não aparece".
Agostinho também aponta outro problema na digitalização da prefeitura: vários sistemas "não conversam" entre si. Como ponto positivo, ele ressalta que o site do Executivo já oferece uma série de serviços, porém, reconhece que grande parte da população os desconhece.
Paulo Milreu discorda da "acessibilidade" do site municipal, afirmando que, na verdade, é "um site nada amigável e onde o foco não é o cidadão comum". "Hoje o cidadão está muito presente nas redes sociais se posicionando. E onde está o governo? Está lá no seu site. É necessário que o homem público compreenda esse novo cidadão e participe com ele, mas onde ele está. A informação precisa ser melhor democratizada", completa o especialista.
Saúde
Quando se fala em digitalização/informação, uma das principais novelas em Bauru é a da Secretaria Municipal da Saúde. Unidades Básicas de Saúde ainda vivem na "era da ficha", o que complica o acompanhamento de pacientes.
O secretário Fernando Monti promete o capítulo final desse enredo para o segundo semestre deste ano. "Estamos analisando um programa usado em Maringá (PR). Parece que esse será o caminho. Com isso, iremos organizar o sistema de saúde e poderemos acompanhar melhor o paciente".
Entretanto, Monti já afirma que possivelmente só haverá integração entre as unidades do município, uma vez que o software não "conversará" com instituições de esferas estaduais, como o Hospital Estadual.
Fórum
No Fórum de Bauru também não há digitalização dos processos. Segundo o juiz diretor, Mauro Ruiz Daró, existe a informatização, mas não o processo digital.
"Temos a rede interligada, porém, os processos ainda são todos feitos no papel. Alguns atos ficam na Internet para que os advogados tenham acesso, mas não são todos".
O magistrado afirma que somente alguns cartórios modelos na Capital são digitalizados e que não existem planos para expansão. "Existem estudos sobre como isso agilizaria e tornaria mais rápido. Entretanto, não há nada concluído".
Para o especialista em mídias digitais Paulo Milreu, a digitalização tornaria os processos mais rápidos, pois haveria uma melhor gestão de procedimentos e uma análise mais detalhada da informação que está parada.
Câmara
A Câmara Municipal também é outra repartição que busca a modernização. Segundo o diretor administrativo da casa, Roberto Cândido Munhoz, há um concurso em andamento para a contratação de funcionários de informática, cuja expectativa é de que estejam trabalhando até o final do ano. Também há processos de compras de equipamentos.
Por meio do site, pode-se acompanhar apenas tramitação de processos, uma vez que não é possível que sejam visualizados na íntegra. O especialista em mídias digitais Paulo Milreu afirma que, assim como o site da prefeitura, a página do Legislativo não é destinada ao cidadão e "olha para si mesmo".
A digitalização de grande parte dos arquivos já foi feita e, segundo Roberto Munhoz, podem ser acessados pelo site. Porém, o diretor administrativo informa que parte ainda não foi digitalizada por conta do imenso volume gerado ao longo dos anos.
Telecentro? Por enquanto, só no nome
Apesar de Bauru ter sido classificada na pesquisa no nível "Telecentro", por enquanto esse nome não reflete a realidade da cidade. Apesar de ter sido contemplada pelo Governo Federal com 51 Telecentros Comunitários, nenhum está funcionando ainda.
A expectativa era de que os nove primeiros começassem a funcionar em março e os outros 42 restantes até junho. "Vejo esse atraso como natural. Tudo que envolve dinheiro público é assim", argumenta o diretor da seção municipal de elaboração de projetos, captação de recursos e convênios da prefeitura, Francisco Maia.
Com isso, ele prevê que os nove primeiros telecentros sejam instalados dentro de 40 dias e o restante até o final do ano. Hoje, de acordo com Maia, a cidade conta apenas com três telecentros.
Eles atenderão a demanda nos bairros mais afastados do Centro. Cada um terá 11 computadores e dois monitores contratados para acompanhar os usuários.
As unidades serão gerenciadas pela Secretaria Municipal de Cultura e o espaço deverá ser utilizado também para a realização de cursos e atividades que estimulem e levem mais conhecimento e cultura à população beneficiada.
Educação
A Secretaria Municipal de Educação garante ter avançado no processo de informatização. Entretanto, o "correr atrás" ainda continua. Mesmo com computadores em todas as escolas da educação infantil e instalação de laboratórios no ensino fundamental, ainda falta digitalizar todo o arquivo existente.
A secretária Vera Casério afirma que já há uma rede única e uma central de vagas que, provavelmente, estarão completas até o fim do mês. O próprio prefeito Rodrigo Agostinho reconheceu que esse é um importante problema solucionado, uma vez que muitas mães solicitavam vagas em diferentes unidades, gerando duplicidade de informações.
A Secretaria de Educação informa que um software de gestão educacional irá reunir os dados de todos os alunos. "Agora, vai ficar mais rápido. Antes, o pai pedia o histórico e precisávamos de três ou quatro dias para fazer tudo à mão", relata, dando a dimensão da precariedade anterior.
Porém, o caminho ainda é longo. Segundo Vera Casério, o trabalho de capacitação nesse software está sendo realizado na quarta escola, de um total de 77.