Uma casa em chamas, moradores desesperados, tumulto, disparo de arma de fogo e até uso de gás pimenta. Esse foi o desfecho do primeiro dia de operação de mais uma etapa do Projeto Revitalizar anteontem à noite em Bauru. A ação justamente para coibir a criminalidade e violência nos bairros periféricos da cidade pode ter ?esfriado? após denúncias de suposto abuso de poder e agressões policiais contra moradores.
Nas favelas do Jardim Europa e Parque das Nações seriam desenvolvidas atividades sociais iguais às realizadas na Favela São Manoel numa parceria com a Polícia Militar (PM), a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) e várias entidades sociais e do governo estadual.
A harmonia foi quebrada na favela do Jardim Europa, com denúncias dos moradores acusando policiais militares de agressão durante confronto. As causas vão ser apuradas em inquérito militar. Dois garotos alegam que foram agredidos pelos PMs na confusão.
Segundo moradores, a confusão teria começado por causa da eliminação de um "gato" (ligação irregular) de um ponto de luz para a instalação de postes que integram a estrutura do evento.
Por causa disso, várias famílias ficaram sem energia, o que gerou reclamações no bairro. O estopim do desentendimento entre comunidade e a PM foi o incêndio em uma casa, provavelmente provocado por acidente devido a uma vela que teria caído no chão do imóvel por descuido por volta das 23h30. Assim, o barraco de madeira da rua 3 foi destruído pelas chamas, deixando uma mulher e quatro crianças desabrigadas. O uso da vela ocorreu justamente, após o corte de energia. O Corpo de Bombeiros foi acionado, mas quando chegou ao barraco já tinha sido consumido pelo fogo.
Os moradores contam que a aglomeração próximo a casa ocorreu para ajudar a apagar o incêndio e auxiliar a família. "Eu queria ajudar a apagar o fogo, socorrer as vítimas. As chamas foram se alastrando (pelo barraco). Todo mundo foi ficando desesperado", narrou Richard Jesus, 26 anos.
No momento do incêndio, de acordo com moradores, os PMs discutiram com eles e foi quando houve as agressões. "Os policiais estavam de braços cruzados diante daquele incêndio. A gente queria ajudar e acabou sendo agredido. Eles começaram a bater em nós, na frente de crianças, pessoas de idade", relatou o rapaz. "Dois primos meus foram agredidos pelos policiais", denunciou Richard.
Diogo Roque, de 20 anos, tinha marcas nos pescoços e seu primo, de 17 anos, confirma a violência dos policiais. "Me pegaram pelo pescoço e me bateram", afirmou o menor. A mãe do adolescente também alega que houve as agressões. "Meu esposo perdeu um dia de trabalho e foi fazer corpo de delito ontem com o meu filho. Ele ficou com o rosto cheio de lesões", relata a moradora, com lágrimas nos olhos.
Diogo disse que foi agredido com tapas, cassetete e houve uso de spray de gás pimenta atirado no seu rosto. "Os policiais ficaram nervosos porque a gente exigia que eles ajudassem a conter o incêndio, mas partiram para a ignorância", salientou.
Polícia vai apurar as agressões
O subcomandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM/I), major Airton Martinez, afirmou ontem que o conflito entre os moradores e policiais será investigado. Os moradores teriam ficado exaltados, segundo ele, após o incêndio em uma residência provocado por uma vela acesa deixada pela moradora.
Os policiais, que atenderam a ocorrência, relataram ao subcomandante que alguns moradores teriam atirado pedras contra as viaturas, por isso foi acionada mais equipes para conter o tumulto e evitar depredação dos carros da polícia.
Diante das reclamações de que teria havido violência policial, o subcomandante da PM determinou a abertura de inquérito policial militar para apurar o que aconteceu.
O comandante do 4º BPM/I, o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, afirma que todos envolvidos serão ouvidos nas apurações. "Há ainda comentários de que os policiais teriam utilizado munições não letais (como bala de borracha), mas tudo isso será analisado".
Garcia Filho disse que esses tipos de conflitos são esperados por ser o bairro uma área de crise crítica. "Com a presença da polícia, percebemos que há um clima de tensão em certos locais, que abrigam pontos de bocas de fumo. Assim, alguns moradores sentem que seus ?negócios? estão sendo prejudicados, mas sabemos que grande parte da comunidade é formada por pessoas de bem", aponta.
Apesar do clima tenso no bairro, Garcia avalia que a participação da comunidade continua sendo positiva na ação social Revitalizar. "A maioria sabe que a iniciativa só traz benefícios". A concessionária de energia elétrica tinha sido acionada ontem para resolver a falta de energia.
A ação Revitalizar continuou ontem oferecendo uma série de serviços, como orientação jurídica, corte de cabelo, atendimento odontológico, palestras com médicos, distribuição de doces, atividades recreativas para as crianças, entre outros serviços e atrações. O projeto da PM em parceria com a Sebes prefeitura termina hoje.
Cozinheira grava imagens do tumulto
A cozinheira Célia Cristina Cruz, de 35 anos, gravou pelo telefone celular imagens de toda a confusão. Apesar de escuro, é possível nas gravações visualizar um dos PMs atirar com uma espingarda mirando para o chão, possivelmente para dispersar os moradores.
O Jornal da Cidade assistiu ao vídeo feito pela moradora mostrado pela filha Ingrid Aline, de 20 anos, na manhã de ontem. "Olhei para trás e vi eles batendo nos meninos, no Diogo e no adolescente. Aí eu disse: ?continua batendo, pois eu estou filmando e vou divulgar a agressão para a imprensa? ", disse.
Antes de terminar a gravação, Célia recorda que um dos policiais jogou gás pimenta no seu rosto. "Os policiais se irritaram com o fato de eu estar filmando a ação. Aí um deles me empurrou e, posteriormente, jogou gás pimenta no meu rosto. Foi horrível, fiquei com a pele do rosto vermelha e tive que perder um dia de trabalho por isso".
Decepção
Além do susto e do tumulto, moradores se consideraram decepcionados e discriminados com o incidente. "Nós somos discriminados constantemente, tratados como cachorros vira-latas pela sociedade. Aqui na favela tem gente boa, trabalhadora, que não merece ser tratada assim", disse Rosenilse Ramos.
Para a moradora, a atitude da polícia teria sido covarde. "A gente não estava ali para brigar, mas para ajudar", lamentou a cozinheira Célia Cristina Cruz.
"Ao invés da PM ajudar a manter a calma, diante do incêndio, começaram a dar tiros, a xingar, bater. Minha filha de apenas 6 anos assistiu a tudo isso. Ela está traumatizada", lamentou Richard Jesus, em meio ao choro.
"Queremos uma solução pra gente, queremos mais atenção do Poder Público para os nossos problemas. Aqui só existem os ?gatos? porque parte das casas não recebe energia elétrica", conta a moradora.
Na opinião de Rosenilse Ramos, a PM agiu errado. "Eles podem dar outra versão, falar que agiram ?pra? se defender de nós. Você acha que a gente tinha condição de atacar eles? Ninguém agrediu a polícia, que estava muito bem armada. Eles acharam que a gente estava tumultuando, mas só queríamos ajudar a socorrer a família", concluiu, indignada, a moradora.