Um movimento insurgente com pouca repercussão nos dias de hoje, inclusive nos livros de história, mas com desfecho chave até mesmo para a atual conjuntura política e geográfica tem capítulos direta e indiretamente ligados a Bauru.
O tenentismo, tentativa de revolução com duas etapas (a primeira em 1922), encabeçado por jovens oficiais de média e baixa patente rebelados contra o governo federal, foi barrado por policiais do mesmo batalhão atualmente instalado em Bauru. Além disso, tropas do movimento rebelde chegaram a acampar na cidade alguns anos antes da instalação da atual sede de policiamento militar na região.
Fundado em 1901, em São Paulo, o atual quarto Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI) foi deslocado para Bauru após participar da destituição do movimento, ligado à Coluna Prestes, no início do século passado.
Combates entre militares rebelados, que organizaram uma espécie de guerrilha, em trincheiras opostas a combatentes ironicamente com o mesmo uniforme, entretanto, não chegaram a ocorrer em Bauru, apesar de algumas tropas pernoitarem na cidade, segundo historiadores e memorialistas. Contudo, a participação do quarto batalhão contou com rebeldes entrincheirados nas ruas da Capital, protagonizando um legítimo combate de guerrilha urbana no centro paulistano.
Desorganizados e engolidos pelas tropas governistas, em maioria e melhor articulados, lembra o atual comandante do batalhão em Bauru, o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, os integrantes do movimento rebelde não lutavam por uma bandeira única.
Na primeira etapa do levante, os insurgentes eram contra a posse do presidente Artur Bernardes. O episódio, reforça o oficial, ficou conhecido como "Levante do Forte de Copacabana", de onde tropas rebeladas marcharam, juntando-se a grupos de outros quartéis, até o Palácio do Catete, então sede do Governo Federal, no Rio de Janeiro. A intenção era depor o presidente na época, Epitácio Pessoa e, desta forma, impedir que o sucessor (Bernardes) assumisse.
Independentemente às causas pelas quais lutavam os insurgentes, Garcia enaltece a história do Batalhão que, em 1927, seria deslocado para Bauru, lembra ele, por questões estratégicas. Segundo o comandante do batalhão nos dias atuais, o êxito dos policiais da época serve como incentivo ao contingente atual. "A história precisa ser valorizada não apenas em âmbito interno. Deve ganhar também as salas de aula", defende ele, que batiza o levante de 90 anos atrás de "revolução esquecida".
Para o oficial, esse episódio da história do Brasil perdeu holofotes nas páginas dos livros, acredita, para a Revolução de 1932, movimento paulista contrário ao governo de Getúlio Vargas, com vistas ao estabelecimento de uma nova Constituição.
Esse levante paulista também teve o batalhão local como protagonista, com a figura do general Júlio Marcondes Salgado, ex-comandante da unidade militar local, entre as principais lideranças constitucionalistas, destaca Garcia. "O 9 de Julho (data que marca o início do levante, feriado estadual) é mais comentado. Mas 1924 precisa ser valorizado, foi uma batalha pela legalidade", defende o oficial bauruense.
Bauru e o tenentismo
Deslocado de forma estratégica para Bauru, em 1927, com a premissa de estabelecer um comando da Força Pública (atual Polícia Militar) na regiões Centro e Oeste do Estado, o então 4º Batalhão de Caçadores, como era chamado na época, avançou rumo ao interior com objetivo colonizador, enfatiza Garcia.
Com um efetivo pouco superior a mil policiais, a unidade militar sediada em Bauru era responsável pelo policiamento de praticamente toda a faixa de terras no triangulo formado pelos rios Tietê, Paranapanema e Paraná. "(o batalhão) era um grupo de elite e por isso foi realocado para uma região então considerada distante e muito vasta", acrescenta.
Porém, três anos antes da instalação da unidade militar em Bauru, as tropas rebeldes que seriam vencidas com a ajuda do próprio contingente do 4º batalhão, utilizaram a cidade como base durante uma marcha rumo ao Sul, onde se encontrariam com o outro eixo do movimento, a Coluna Prestes.
Após abandonarem São Paulo, os oficiais rebelados acamparam onde é a atual praça Machado de Melo, em frente à antiga estação da Noroeste, observa a historiadora Sônia Mozer.
A passagem de algumas centenas de rebeldes armados, não se sabe o número certo da tropa que esteve em Bauru, chegou a render folclores, segundo a historiadora, de veracidade ainda não comprovada.
"Não se sabe até que ponto isso é verdadeiro, mas diz que no início do que hoje é o calçadão da Batista de Carvalho, estavam armazenados os paralelepípedos que seriam usados para calçar a rua, ainda sem pavimento naquela época. Fala-se que, depois que os tenentes foram embora, os paralelepípedos desapareceram", ilustra a professora, que diz não acreditar que os oficiais rebelados tenham levado as pedras embora supostamente para utilizar em trincheiras contra as tropas do governo. "Não imagino um soldado em retirada levando paralelepípedos", observa, descontraída. "É improvável. Se os paralelepípedos desapareceram, é muito provável que pessoas utilizaram a presença deles ali para levar as pedras embora. Mas é um folclore da história de Bauru", acentua. "Eles fizeram uma parada estratégica aqui", completa.
Após deixarem Bauru, os tenentes rumaram ao Paraná e se encontraram com o núcleo vindo do Rio Grande do Sul, chefiado por Luiz Carlos Prestes, em Foz do Iguaçu. Na região da Tríplice Fronteira, pontua a historiadora, muitos deles aproveitavam para fugir, seja no Paraguai, Argentina e até mesmo na Bolívia, mais ao norte. "Parte deles fugiu e outra decidiu levar adiante o movimento e, aí sim, até a população (até então, as tropas revoltosas chegavam a negar apoio popular). Essa é a chamada Coluna Prestes", esclarece a estudiosa.