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"Chinalização"

Luiz Alberto Coradi
| Tempo de leitura: 3 min

Eles têm a mão-de-obra mais barata do mundo e estão dominando a tecnologia rapidamente, mas o Brasil tem as matérias-primas mais abundantes do planeta nos setores agrícola e mineral. Uma indústria forte voltada à exportação nesses setores não teria a brutal concorrência dos chineses, além de constituir-se em moeda de troca nas negociações comerciais bilaterais. Querer concorrer com a China na indústria de manufaturados de ponta é tarefa inglória para um país que não investe o mínimo necessário em educação, ciência e tecnologia. Se a "desindustrialização" já está sendo sentida em países superdesenvolvidos como Estados Unidos e Japão, aqui não será diferente. Devemos, portanto, lutar com as melhores armas de que dispomos: produ tos agro-minerais semimanufaturados e manufaturados. Para tanto é indispensável a adoção de medidas oficiais de incentivo ao desenvolvimento dessas indústrias, condicionadas à exportação de seus produtos com um mínimo de processamento interno, especialmente no caso das reservas minerais.

Esse papel do estado evitaria que as grandes empresas exportadoras de produtos primários permanecessem na zona de conforto do lucro fácil e imediato da exportação de minérios e produtos agrícolas sem qualquer valor agregado. Exemplos ilustrativos dessa inércia em detrimento dos interesses do país não faltam, pois é muito mais vantajoso exportar minério de ferro do que investir na construção de siderúrgicas e exportar aço, como no polêmico caso Vale do Rio Doce, muito criticado sob a alegação de ingerência do estado numa empresa privada. Esquecem-se esses críticos, todavia, que a exploração de nossas riquezas naturais não renováveis é concessão do estado e tem importância estratégica para o país.

No caso dos produtos agroindustriais não é muito diferente. As agroindústrias nacionais só se desenvolveram, e hoje estão entre as mais avançadas do mundo, por força da necessidade e não de sua opção pelo bem do país. As exportações de açúcar, suco de laranja, carnes e celulose, por exemplo, só estão entre os principais itens de nossa balança comercial porque não dá para exportar cana-de-açúcar, laranja "in natura", bois, aves e eucalipto para serem processados no exterior e, muitas vezes, importados em produtos acabados, como ocorre no setor mineral, por exemplo. O Brasil tem muito ainda a evoluir nessa área, mas isso certamente não vai ocorrer sem uma mínima intervenção do estado, pois aí tem de ser criada a necessidade, já qu e ela não existe naturalmente como nos casos citados.

Podemos exportar menos minérios de ferro e bauxita e mais aço e alumínio, menos soja e mais carne suína, aves e óleo vegetal, menos algodão e mais fios e tecidos, menos café verde e mais café solúvel, para ficarmos apenas com alguns dos mais importantes. Com isso, amenizamos os impactos gerados pela volatilização dos preços dessas "commodities" no mercado internacional, que hoje felizmente nos são favoráveis e responsáveis pelo nosso superávit comercial. O empresário, seja ele brasileiro ou estrangeiro, tem como objetivo principal aumentar o lucro de sua empresa e seria utópico imaginar que, num mundo competitivo como o atual, haja espaço para o altruísmo empresarial. Cabe, portanto, ao estado exercer o papel disciplinador e modulador das forças envolvidas, visando o interesse maior do país e de seus trabalhadores, impedindo que nos tornemos simples fornecedores de matéria-prima para o mundo e apenas "montadores" de bens para consumo interno e de países vizinhos.


O autor, Luiz Alberto Coradi, é engenheiro agrônomo

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