Até mesmo apelar ao bisturi para um retoque na silhueta tem sua hora, ou melhor, estação mais indicada. Com benefícios reais ou costumes motivados por simples mitos, o fato é que o mês de julho, marcado pelo início do inverno, é o período em que se registra a maior procura por cirurgias estéticas em clínicas especializadas em todo País. Considerada a estação ideal para o procedimento, o inverno, entretanto, conforme cirurgiões plásticos, em nada tem a ver com suposta melhor recuperação por causa das temperaturas mais amenas. O que favorece, e muito, a realização dos procedimentos, garantem, é o período de férias escolares e até mesmo um certo conforto (não confundir com influência direta na recuperação) ocasionado indiretamente pelo frio.
Fosse assim, destaca o cirurgião plástico paulistano Arnaldo Korn, não haveria operações em cidades do Norte ou Nordeste do País, regiões caracterizadas por altas temperaturas constantes.
O que acontece, explica o especialista, é um conforto maior durante o período de recuperação em um ou outro procedimento, principalmente nas cirurgias que demandam a utilização de cintas elásticas por um longo período. "Isso é mais evidente para procedimentos como lipoaspiração ou abdominoplastia, em que o inchaço é mais acentuado", elenca.
Para o também cirurgião plástico Antônio Assunção, de Bauru, apesar desses benefícios indiretos, a relação da temperatura amena com a recuperação do paciente é praticamente nula, a não ser, justamente, pelo certo conforto em quem foi submetido a procedimento que requer uso da cinta elástica em muitos dias demandados do período pós-operatório.
Conforme o médico bauruense, o mito criado em torno da "época ideal" para ser submetido a uma cirurgia plástica é tanto que a procura, ao menos em sua clínica, dobra durante o mês de julho. "É impressionante, o movimento cresce em 100%", enumera o cirurgião. "Mas nada, de fato, tem a ver com o frio", descarta.
Ele relaciona a procura, além do mito criado, também ao período de férias. Muitas mães - a vasta maioria dos pacientes, nos casos estéticos, é de mulheres -, aponta o médico, têm uma folga maior nos afazeres voltados à educação dos filhos e podem dar maior atenção à silhueta. "Muitas delas acumulam funções, são ?mãetoristas?", brinca o especialista. "Mas também é uma época em que as pessoas já conseguiram guardar algum dinheiro, após saldar compromissos e impostos caracterizados pelos primeiros meses do ano", relaciona o médico.
Assunção concorda que intervenções como a lipoaspiração acabam favorecidas. Mas não pela temperatura e sim devido ao recolhimento natural das pessoas quando o termômetro aponta alguns graus a menos. "A lipoaspiração na verdade seria a única favorecida, de fato", diferencia, justamente pelo maior conforto na utilização da malha compressiva.
Da mesma forma, o mês de julho é considerado a época mais propícia para as cirurgias plásticas devido à proteção maior das cicatrizes dos raios solares, mas também, frisam, de forma indireta. Mais agasalhadas, pessoas que passaram por operações, naturalmente, estão mais guarnecidas da iluminação natural, nociva às cicatrizes. "O frio em si somente teria eficiência, de fato, nesses casos se a pessoa ficasse exposta integralmente a baixas temperaturas, algo que não acontece", esclarece o cirurgião Antônio Assunção.
Haja silicone!
A maior procura por cirurgias estéticas, observa o médico bauruense Antônio Assunção, ainda é sobre a inserção de próteses mamárias. Esse tipo de intervenção, comenta, está no topo junto às operações de rinoplastia (cirurgia do nariz).
Conforme estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os procedimentos estéticos correspondem a 69% das cirurgias plásticas no País, fazendo o Brasil figurar como a segunda nação em que são realizadas operações do gênero no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Entre os procedimentos mais procurados também figuram reparações nas pálpebras, abdome e, obviamente, a lipoaspiração.
Além da implantação das próteses de silicone nos seios, também há grande incidência de afixação do mesmo material no glúteo e panturrilhas, também conforme o levantamento. Especialmente no procedimento nas mamas, também chamada mamoplastia, um dado chama a atenção, observa o médico. "Há muita procura principalmente entre universitárias, entre 19 e 20 anos", detalha.
Apesar da baixa faixa etária das pacientes, o médico atesta que a maioria delas realmente busca o auxílio do bisturi por necessidade, e não vaidade excessiva. "Entre as pacientes, notamos que 95% delas realmente precisam implantar a prótese", assegura o médico.
Conforme números de mercado levantados pela indústria de próteses, 91% das mulheres que colocaram silicone no corpo passaram por mamoplastia. Esse tipo de operação corresponde, de acordo com levantamento ainda de 2009, também a 19% dos procedimentos totais realizados em todo o Brasil.