Professor dos professores de engenharia
Foi na Bauru do passado, onde as vias não eram asfaltadas e as crianças podiam correr e brincar soltas pelas ruas com os pés descalços, que o professor Júlio Cézar Ribeiro passou sua infância, cresceu e colecionou históricas lembranças. "Lembro-me quando a Rodrigues Alves recebeu asfalto. Eu morava na Agenor Meira e minha mãe me colocava no tanque para tirar a terra com caco de telha (risos) antes de tomar banho", recorda-se.
Mais tarde, Júlio Cézar descobriu o fascínio e o talento para o desenho, aptidão que o levou à engenharia. Dando aulas particulares, o jovem professor acabou montando o primeiro cursinho pré-vestibular de Bauru, o Alfredo Nobel. Mas foi na antiga Fundação Educacional de Bauru, atual Universidade Estadual Paulista (Unesp), que ele iniciou sua carreira como professor de engenharia, sendo, inclusive, o primeiro docente da área na cidade, ao lado do professor Isaac Portal Roldan. Atualmente, Ribeiro leciona na Unesp, Unip e Unilins.
Paralelamente às aulas, o entrevistado de hoje também foi perito engenheiro da polícia, período difícil no início: "Vi muita coisa do arco-da-velha, mas acabei me acostumando. Vi gente cortada, queimada, assada, eletrocutada... Vi um cara que caiu em uma esteira de moer cana que o pedaço maior dele era igual a um cubinho de churrasco", conta.
Atividades como o tênis e hobbys, entre eles culinária e caminhada, também fazem parte da entrevista que você lê a seguir.
Jornal da Cidade - Você tem boas lembranças da infância em Bauru?
Júlio Cézar Ribeiro - Ah, era muito bom ser criança aqui. Não tinha nenhuma rua asfaltada e poucas eram de paralelepípedos. Eu pegava peixinhos, guarus, na Nações Unidas. Lembro-me quando a Rodrigues Alves recebeu asfalto. Eu morava na Agenor Meira e minha mãe me colocava no tanque para tirar a terra com caco de telha (risos) antes de tomar banho. Eu passei a infância sem televisão, ouvindo rádio... Foi tudo muito saudável. Estudei no Rodrigues de Abreu, depois fui para o Ernesto Monte, onde só tinha mato. Muitos bairros da cidade eram praticamente selva.
JC - Engenharia sempre foi um desejo?
Júlio Cézar - Foi por acaso. Na verdade eu fui para São Paulo estudar geologia. Eu queria ser geólogo, só que não sabia desenho. Tinha uma dificuldade muito grande e fui fazer um cursinho em São Paulo. E nas aulas de desenho eu saía da sala e ficava sozinho no pátio, até que veio o diretor e me perguntou o que eu estava fazendo. Eu disse que não iria assistir as aulas de desenho e, para minha surpresa, ele disse que eu não tinha que querer e me mandou para a sala de aula. Quando entrei, o professor era um fera no desenho.
JC - Mudou de ideia?
Júlio Cézar - Nossa senhora! Eu não acreditei que aquilo era desenho. Ele fundamentava tudo. E a gente, naquela época, fazia tudo na base da receita, decorado mesmo. Não sabíamos o que estávamos fazendo. E com aquele professor, não. Ele começou a mostrar o porquê do desenho, e como eu sempre tive facilidade com matemática, fiquei alucinado quando comecei a entender a lógica da coisa. Virei um "trem" no desenho e comecei a estudar muito. Decidi que queria ser engenheiro. Fiz engenharia eletrônica no Mackenzie, em 1967, e engenharia de segurança na Unesp, em 1985. E em 2011, depois que me aposentei da polícia, fiz mestrado no ensino de física.
JC - Como teve início sua carreira de professor?
Júlio Cézar - Eu comecei dando aulas particulares aqui em Bauru. Eu tinha um amigo que era professor de matemática e, um dia, tomando chope, chegou um menino pedindo aulas particulares para ele. Porém, como esse meu amigo não tinha tempo, ele me apresentou como professor. Eu disse que ele estava louco, mas me convenceu, já que eu o ajudava a corrigir provas e já estava meio por dentro. Fui. Menina, o que eu ganhei de dinheiro... Depois começaram a aparecer muitos alunos e montei um cursinho pré-vestibular.
JC - Então foi dono de um cursinho?
Júlio Cézar - Sim, em 1964 eu montei o primeiro cursinho pré-vestibular da cidade. Chamava-se Alfredo Nobel. A gente ganhava dinheiro como água, mas na época eu não vislumbrei esse negócio de escola, como outros professores amigos que continuaram e montaram colégios na cidade.
JC - E como chegou às salas das universidades?
Júlio Cézar - Foi uma história interessante. Em 1967, eu era monitor de física no Mackenzie, estava no quinto ano de engenharia e um de meus professores dava aulas na faculdade de engenharia de Lins quando foi convidado a dar aulas em Bauru. Como ele não podia assumir o cargo por já dar aulas em "mil" lugares, passou as aulas para um amigo meu. Meu apelido era Bauru e esse meu amigo chegou e disse: Bauru, abriram uma faculdade de engenharia na sua cidade e me convidaram para dar aulas. Eu fiquei surpreso e disse que isso era bom porque ele poderia me dar carona quando viesse para cá. Porém, ele queria mesmo era dividir aquelas aulas comigo porque a carga era pesada para o tempo dele. Eu ainda não era formado, mas fui. Pouca gente sabe disso, mas ao lado do professor Isaac Portal Roldan, que estava na sala ao lado, eu fui o primeiro professor da faculdade de engenharia da antiga Fundação Educacional de Bauru, hoje Unesp. Nessa época dividia as aulas com o trabalho na polícia.
JC - Também foi policial?
Júlio Cézar - Entrei na polícia em 1986. Fui perito criminal por 22 anos. Nunca gostei de ver sangue e o primeiro cadáver que eu vi, menina, foi um troço, assim, meio complicado. Minha sorte foi que eu trabalhei com um pessoal muito bom e tinha um fotógrafo, o Miguel, que tinha barulho de polícia na cabeça. Ele adorava ser policial. Revistava os bolsos dos caras, revirava tudo e me falava. Vi muita coisa do arco-da-velha, mas acabei me acostumando. Vi gente cortada, queimada, assada, eletrocutada... Vi um cara que caiu em uma esteira de moer cana que o pedaço maior dele era igual a um cubinho de churrasco. Aposentei-me como perito engenheiro da polícia.
JC - Qual é o prazer proporcionado pelo ensino?
Júlio Cézar - Hoje leciono na Unesp, Unip e Unilins. Dar aulas é um prazer muito grande. Eu comecei com aulas particulares e fui pegando gosto. Na época em que fiz engenharia em São Paulo, não havia muitos professores de exatas e o governo abriu um colégio na Vila Mariana. Fui até lá e comecei a dar aulas. Depois, o Toledo me contratou para dar aulas aqui em Bauru. Ele queria abrir uma escola de engenharia e eu fui para Brasília várias vezes, mas infelizmente um conselheiro "bombou" a escola e não conseguimos abrir. Ele foi uma figura inesquecível, um cara à frente do seu tempo. Aí dei aulas de economia na ITE por 16 anos, sem comtar as outras faculdades da região, em Marília, Avaré...
JC - Quais são os prazeres e os desprazeres da relação com os alunos?
Júlio Cézar - É aquela relação de ame-o ou deixe-o. Tenho alunos que me amam e que trabalham comigo. Na Unesp, quase todos os professores foram meus alunos (risos). Alguns dizem que viraram professores por minha causa e é muito bom ouvir isso. Mas há alunos que me odeiam. Sou realmente rígido e talvez esse seja o problema que alguns têm comigo. Dou minha aula, ensino o melhor que eu posso, mas eu cobro.
JC - Há muitas diferenças entre os alunos de hoje e os do início da sua carreira?
Júlio Cézar - Há 100% de diferença. Para você ter ideia, eu comecei em 1967 na engenharia de Bauru e tenho a impressão de que já vou começar a dar aulas para netos de ex-alunos. O nosso ensino faliu e o pior é que nossos governantes não conseguem enxergar isso. Antes eu conseguia ensinar os alunos a fazerem gráficos calculando a posição, velocidade e aceleração de uma biela e manivela, um movimento que para estudar é complicado. Hoje, eu não consigo ensinar nem uma reta porque eles não sabem. Tenho alunos do 7º termo de engenharia que não sabem somar fração. Como é que um engenheiro pode se formar sem saber somar fração? Por que é que dezenas de faculdades de direito não conseguiram aprovar um aluno sequer na OAB? Muitos universitários não sabem nem escrever. O que consigo ensinar hoje, só para você ter ideia, é cerca de 15% do que eu ensina no passado.
JC - Pretende parar de aulas algum dia?
Júlio Cézar - Não. Não, porque eu gosto muito de estudar, de me atualizar e passar isso para os alunos. Diminuí minhas aulas pela metade, mas adoro dar aulas. Acho que me divirto e aprendo mais que os próprios alunos. Histórias pitorescas não faltam. Quase sempre os alunos me perguntam se eu apenas dou aulas e não trabalho. Eu acho isso muito engraçado porque, na cabeça deles, quem trabalha é engenheiro e não professor. Cada aula é uma história e um aprendizado novo. Quanto mais o tempo passa, mais o professor adquire experiência para passar aos alunos. É por isso que eu acho um absurdo imenso aposentar o professor aos 70 anos de idade. Estou com 68 anos e daqui a dois anos a universidade vai me mandar embora, ou pensam que vão, porque eu vou lutar até o fim. O professor leva uma vida acumulando conhecimento e quando ele está com a aula perfeita, que ele ensina tudo mais rápido e mais lógico para o aluno deduzir as coisas, ele é mandado embora. E começa tudo da estaca zero. Isso é um horror.
JC - Passeando por sua vida pessoal, você me disse que foi jogador de tênis.
Júlio Cézar - Jogava direto, desde criança. Mas, infelizmente, eu tive uma trombose e precisei parar. Disputava campeonatos e, muitas vezes, trocava o almoço pelo jogo, debaixo do sol (risos). Nunca tive a pretensão de ser um jogador profissional, ganhar ou perder. Eu queria era jogar, correr, suar e me sentir bem. Era disso que eu gostava. Como não posso mais jogar, faço cerca de uma hora e meia de caminhada todos os dias. Gosto muito de sol e andar sob ele me faz bem. Outra coisa que gosto muito de fazer é cozinhar, inclusive crio algumas receitas próprias e presenteio meus amigos com elas. Você as receberá (risos).
Perfil
Nome: Júlio Cézar Ribeiro
Idade: 68 anos
Local de Nascimento: Bauru/SP
Signo: Touro
Esposa: Walderez
Filhos: Ana Paula, Ana Cláudia e Júlio Cézar Ribeiro
Filho
Hobby: Pesquisas na Internet e cozinhar
Livro de cabeceira: "Deuses, Túmulos e Sábios"
Filme preferido: "2001: Odisseia no Espaço"
Estilo musical predileto: Jazz
Time: Palmeiras
Para quem dá nota 10: Para meus filhos e minha esposa
Para quem dá nota 0: Aos políticos
E-mail: jcezarr@uol.com.br