Recife - Um avião bimotor LET-410, da Noar Linhas Aéreas, caiu na manhã de ontem em Recife, três minutos após decolar. As 16 pessoas que estavam a bordo (dois tripulantes e 14 passageiros) morreram.
O aparelho, produzido pela LET Aircraft, na República Checa, decolou às 6h51 de Recife, com destino a Mossoró (RN) e escala em Natal (RN). Às 6h54, caiu em terreno à beira-mar, na divisa com Jaboatão dos Guararapes.
Com o impacto, a aeronave pegou fogo e depois explodiu. Segundo testemunhas, o piloto Rivaldo Cardoso ainda evitou um choque com um galpão em obras e uma casa, mudando a rota do avião.
A aeronave voava baixo, e o piloto chegou a avisar à torre de controle que havia problemas - sobre os quais não há mais detalhes - e que tentaria pousar na praia de Boa Viagem. A queda foi a 100 metros do mar.
Os destroços ficaram em um raio de 20 metros. Apenas uma parte da cauda e outra da asa esquerda podiam ser identificadas. Os corpos foram recolhidos pelo Instituto de Medicina Legal (IML) no final da manhã. Os peritos também coletaram amostras de DNA dos parentes.
As causas do acidente estão sendo investigadas. O avião tinha apenas um ano de uso. Foi comprado pela empresa em 2010, quando ela começou a operar, com duas aeronaves iguais.
O tempo no momento do acidente era bom.
A diretoria da Noar informou que o aparelho passou por manutenção sábado, domingo e segunda-feira. Apesar de ser considerada "manutenção programada", a aeronave ficou parada na segunda e anteontem pela manhã - três voos foram cancelados. Em geral, a operação não é afetada quando há manutenção programada.
A companhia afirmou que, após a manutenção, havia feito ao menos um voo antes do de ontem.
A empresa negou que a aeronave apresentasse problemas de perda de potência, como afirmou o empresário Jairo Gonçalves, 51 anos, irmão do copiloto Roberto Gonçalves, 55 anos, morto no acidente. Segundo o empresário, seu irmão percebia essa falha ao decolar com os LET-410.
Pai de seis filhos, o copiloto não estava escalado para o voo. "Ele recebeu um telefonema de um amigo que pediu para trocar a escala e aceitou", disse o empresário.
A direção da empresa disse que nenhum tripulante relatou problemas com a potência das aeronaves. A Noar informou que retomará seus voos hoje, com o único avião que lhe restou. A empresa realizava de oito a dez voos por dia, operando em Recife, Maceió, Natal e Mossoró.
A documentação do avião e dos pilotos está em dia, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O Relatório de Condição de Aeronavegabilidade venceria apenas em 2013.
O Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa 2), da Aeronáutica, já iniciou as investigações para apurar os possíveis fatores que contribuíram para o acidente. Na tarde de ontem, uma equipe de investigação já localizou e retirou as caixas-pretas da aeronave.
O Flight Data Recorder (FDR) - que registra as informações do voo - e o Cockpit Voice Recorder (CVR) - que grava a conversa da cabine - serão levados ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). A leitura dos dados será realizada desde que os materiais não estejam danificados.
Os motores da aeronave, também retirados do local do acidente, serão encaminhados para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, em São José dos Campos (SP), para análise.
Testemunha viu vítima
pedir socorro e acenar
Recife - Uma das primeiras pessoas a chegar ao local da queda do bimotor LET-410, o vigia Erandir Rodrigues da Silva, 42 anos, disse que viu as pessoas pedirem socorro em meio aos destroços em chamas antes de o avião explodir. "Vi uma mulher na janela mexer as mãos, mas depois explodiu e não deu para fazer nada", afirmou.
Ele contou que estava dormindo quando ouviu "um barulhão" do lado de fora da casa. "Levantei e vi o avião no chão, pegando fogo. Fui lá, mas não consegui chegar muito perto", declarou.
Segundo o vigia, duas explosões ocorreram em seguida, com pequenos intervalos de tempo. "Subiu aquele fogo, e eu corri." Silva mora no mesmo terreno onde caiu o bimotor, em uma pequena casa, a cerca de 50 metros do local do acidente.
Do outro lado do terreno, nove operários trabalhavam na construção de um galpão. Eles viram o avião se aproximar na direção deles. "Ele vinha voando baixo e, quando chegou aqui do lado, virou de repente e caiu", contou o encarregado de obras Manoel Domício Mendes, 52 anos.
"Só vi aquela fumaça levantando, e as pessoas na rua correndo de um lado para o outro", disse. "Se ele viesse reto entraria na obra e na casa do lado." O bimotor caiu a cerca de 30 metros do canteiro de obras.
Congestionamento
O acidente provocou um grande congestionamento na avenida Boa Viagem, à beira-mar, e nas ruas próximas. Carros da polícia e dos bombeiros foram obrigados a trafegar na contramão em vários trechos para atender a ocorrência.
Militares da Aeronáutica isolaram a área em um raio de 50 metros. Familiares das vítimas foram ao local, e algumas foram atendidas por médicos de uma UTI móvel. Mais tarde, a Noar Linhas Aéreas encaminhou os parentes para um hotel.