Articulistas

Ironia hippie

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Os hippies foram muito inteligentes. Quando estavam no bem bom, com liberdade - pois moravam nas universidades longe dos pais, mas ainda eram sustentados por eles -, sem ter que ir para o Vietnã - porque o governo esperava que eles fossem os futuros cientistas, políticos e administradores da nação -, eles perceberam que um dia a faculdade acabaria e teriam que trabalhar. Afinal, precisavam vencer a Guerra Fria contra os Soviéticos.

Então, resolveram se revoltar contra o capitalismo. "- Eu é que não trabalho para este mundo capitalista", diziam. Mas em um mundo socialista eles também não queriam trabalhar. Só trabalhariam se fosse em um tal de mundo alternativo, que eles tentaram fazer em comunidades rurais. A maior parte delas não existe mais. A revolta durou pouco porque eles não aguentaram viver sem dinheiro e sem os confortos capitalistas. Perceberam que, por mais que dissessem que eles eram de esquerda, não aguentariam o socialismo. Ou achariam chato. De lá pra cá, o negócio ficou tão capitalista, mas tão capitalista, que muito jovem que antes lutaria para sair de casa e experimentar a liberdade agora luta para ficar. Mesmo quando os pais querem que eles saiam, eles querem ficar.

Outro dia eu vi o filho do meu amigo Thiago andando de skate dentro de casa. Aí o Thiago mandou ele andar lá na rua, no Jardim América.  "-Onde, aqui na frente? "-Não, vai andar lá pra cima, perto da Getúlio! Lá o asfalto é melhor. Sai um pouco de casa! Vai ver o mundo", disse o Thiago. O menino não foi. Andou dois minutos na calçada e voltou pra dentro de casa. Hoje é ao contrário dos anos 1960. A violência, a desigualdade social e o medo diminuíram o tamanho das aventuras da juventude. Tenho um amigo meio hippie. Mora no meio do mato, em uma casa ultra sustentável e tudo mais. Só que nos eventos que ocorrem em sua casa (e vai bastante gente), tudo é cheio de regras e horários. Acho que é um modo de organizar a própria ideia de libertação. Ou seja, a "desencanação" total é inviável. No fim, os hippies acabaram se tornando tão inviáveis quanto o próprio capitalismo.

Como eles protestaram contra os excessos do capitalismo e contra o consumismo ideológico embutido no capitalismo americano, os donos da indústria cultural resolveram colocar o universo hippie à venda. Tudo o que era hippie acabou virando moda e foi vendido nas boutiques mais chiques e também nas mais bregas. Capitalizaram completamente o movimento hippie, até que ele virou uma moda como as outras. Quando alguém transforma um movimento em moda, mata o movimento. Mas os hippies também foram importantes. Eles foram responsáveis por um dos momentos mais brilhantes da história humana, quando lideraram os protestos contra a Guerra do Vietnã, nos Estados Unidos. Em boa parte espelhados no movimento hippie, jovens do mundo todo se levantaram em 1968, todos tendo à frente uma ideologia libertária. Mesmo na Tchecoeslováquia, que era comunista e, segundo os americanos, sem liberdade. Os jovens tchecos, os professores, os intelectuais e escritores tchecos fizeram a "Primavera de Praga" não para derrubar o comunismo em seu país, mas sim para que a Tchecoeslováquia tivesse um socialismo independente e mais democrático, longe da esfera de influência dos soviéticos.

Os hippies se espalharam pelo mundo. Até pelo terceiro mundo. Nos Estados Unidos, chegaram a montar um partido político. Não deu certo. Assim como muitas comunidades de amor livre também não deram certo, porque o ciúmes acabou falando mais forte do que a ideologia. O movimento da juventude mais emblemático da década seguinte (dos anos 1970) foi o punk. O punk também foi um movimento de jovens capitalistas contra o capitalismo, mas dessa vez eles estavam na parte de baixo da pirâmide social - não na de cima, como estavam os hippies. Foram neutralizados pela indústria cultural com a mesma estratégia usada com os hippies. Hoje, a impressão que temos é que o signo do protesto se gastou. Qualquer palavra de ordem parece nascer já deformada pela Indústria Cultural.

O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião

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